© 2019 Jefferson Sarmento

Cavaco de goiabeira

O conto “Cavaco de goiabeira” foi publicado originalmente em 2019 em 6 partes, pelo Instagram.

É uma um pequeno conto de horror e estranheza, escrito em um tapa e seguindo bem de perto as dicas de Horacio Quiroga em seu Decálogo do Perfeito Contista.

Assim como e outras histórias menores, deixar uma ideia e personagens tão interessantes costuma trazer um pouco de agonia.

Talvez eu reveja os cavacos de goiabeira em alguma outra história, algum dia.

Cavaco de goiabeira

A sorte é que, em terreiro de cemitério, até de semeio de passarinho qualquer fruta pega. Isso já dizia o meu avô, mas eu não entendia que sorte era aquela. Minha mãe desconjurava de comer qualquer manga ou goiaba de depois da cerca. Até das árvores das casas e terrenos vizinhos ela fazia ânsia. Meu pai ria. E eu sem entender.

Mas então o meu avô Nório morreu e o pai começou a me mostrar. Não entendi de pronto, claro que não. Nem acreditei quando me explicou. Careceu de me mostrar.

No dia do enterro, enquanto o cortejo subia, meu pai passou pela goiabeira branca ao lado do mausoléu dos Faria Peres e arrancou uma vara curta. Ficamos os dois por último, quando terminou a reza e a choradeira das tias. Desceu a corte pela ladeira de terra batida e o pai segurou no meu braço. Fiquei olhando enquanto todo mundo ia embora. Até minha mãe, que tinha um avesso de tudo que era coisa de morte, nem olhou os dois bocós lá no meio da plantação de sepulturas. Mas eu nem disse nada. Estava triste que o vô Nório tinha morrido. Ele adorava contar histórias e acordava sempre cedo para fazer o café. Quando eu aparecia, o rosto todo remelento ainda, ele misturava o leite numa caneca de lata e me entregava com um pão com queijo. Tinha uma cadeira de madeira escura onde se sentava com as pernas juntas, as mãos entre os joelhos e os olhos vigiando os gatos no quintal. Balançava a cabeça e começava a contar de quando era garoto nas Gerais. Ou moço, trabalhando na construção da ferrovia.

 

– Só olha – o pai me disse. Não havia mais ninguém por lá. Tirou do bolso uma faquinha com o cabo enrolado em fita isolante e começou a picar a vara de goiabeira. Sobrou só um toquinho dela; um centímetro, se isso. Cortou em diagonal o que ficou e fez dois cavacos. – Tem que ser goiaba branca, pra encomendar pro lugar certo.

 

– Oi? – perguntei.

 

– Vara de goiaba branca – repetiu. Segurou os dois cavacos entre os dedos e se agachou. Meteu nos pés da cova de terra fofa um dos toquinhos. Levantou-se e foi até o lado de cima, onde devia estar a cabeça do caixão e a do meu avô, dormindo lá dentro. De cócoras, cravou o outro toquinho daquele lado, como se plantasse uma semente.

 

Descemos a estradinha estragada, eu com aquela cara de meu pai é doido e ele numa máscara sisuda e silente. Na parte baixa, onde ficavam os túmulos de gente importante, paramos para que pudesse me mostrar: toquinhos de goiabeira em quase todas as sepulturas. Nas de concreto e até nas de mármore e granito; cravados nos vãos, escondidinhos e enegrecidos com o tempo. Pequeníssimos, nem eram notados.

 

– Não precisa vigiar pra sempre – meu pai disse. – Só até a Missa de Sete Dias. Depois, se alguém tirar ou o cavaco apodrecer com o tempo, não faz mal.

 

– Pai? – chamei. Ele só grunhiu hm. – Pra quê isso?

 

– Pergunta boba, menino. Tem que fazer.

 

E foi se repetindo em todo enterro que íamos desde então. Aliás, tinha outra coisa: no fim das tardes, quando voltava da empresa, passava primeiro pelo cemitério e anotava os sepultamentos do dia. Tornava lá mais tarde da noite, cortava um galho de goiabeira (branca, heim!) e repetia o ritual.

 

– Tem que fazer! – Mas nunca respondia às minhas perguntas.

 

Assim foi até que eu peguei a rotina. Era quase todo fim de tarde, mas às vezes falhava um. É que em cidades medianas como a nossa quase não existe dia sem plantar um pé junto. Eu esperava o barulho do portão, parava o que estava fazendo e já metia nos pés os chinelos de borracha. Descíamos nossa rua, entrávamos no cemitério e subíamos de volta até uma, duas, três covas onde o pai cravava os cavacos de goiabeira.

 

Parei de acompanhá-lo quando casei. Fui morar num bairro afastado e, durante vinte e tantos anos, guardei as lembranças e dúvidas daquele ritual estranho. Enterramos um ou outro parente nesse meio tempo. Nesses, o pai olhava para mim meio de soslaio, meio escondendo que vigiava, e eu fingia que nem notava.

 

Há três anos, quando não estava mais dirigindo, por causa da vista ruim, o pai pediu que eu o levasse para ver um amigo doente no outro estado. Fomos num fim de semana para ver esse senhor num sobrado vistoso, uma dessas propriedades de gente que ainda tem dinheiro, mas já perdeu a disposição para gastar. Os filhos viraram médicos e foram embora, de modo que o velhote ficou sozinho com uma enfermeira de contrato e um rapaz da vizinhança que cuidava dos jardins.

 

Passei o dia ouvindo os dois amigos de outras eras rindo e lembrando coisas de velhos. Fiquei por lá, acompanhando e admirando a casa. Lá pelas cinco, quando eu já estava preocupado com o horário da volta, o rapaz do jardim veio bater na porta. Tinha sumido por umas horas e apareceu apenas para dizer o seguinte:

 

– Quatro cavacos de goiabeira, seu Olavo.

 

O velho sorriu e acenou. Minha testa franziu e a boca ficou meio aberta.

 

– Os homens esquecem – o velho disse. Tinha uma voz rouca, cabelos muito ralos e um bigode cinza precisando ser aparado. – Hoje tem cemitérios só de concreto por aí, sem goiabeira. Um monte. Um ou outro compadre ainda cultiva a planta em casa, corta o cavaco e vai visitar essas selvas de pedra. Mas muita gente simplesmente largou o ofício e não percebe o mal que faz pro mundo. Esquecem que tem que ser feito!

 

– Mal? Que mal há se não fizerem?

 

O Olavo sorriu. Meu pai ficou sério. Eu já tinha uns cabelos brancos ciscando no cocuruto, mas devia estar com a maior cara de pateta. Ou eles eram doidos ou eu...

 

– Todo vivente, quando parte, quer voltar – o pai me disse. Fiquei mais confuso.

 

– Mas acontece que a parte boa já foi – o Olavo completou. – Os anjos levam. O que fica é um resto de querer no corpo que apodrece. Fica umas três, quatro noites. A gente conta até a Missa de Sete Dias, que é pra garantir. Daí não tem mais perigo.

 

Estavam se divertindo com meu espanto, só podia.

 

Quando voltamos para casa, o pai disse apenas que me ligaria. Deixei-o em casa e resolvi esquecer aquela conversa doida.

 

Depois de treze dias... aconteceu. Ligou no meio da manhã, dizendo que eu o encontrasse na capela às 22h. Fucei nos jornais e vi que uma menina de 9 anos tinha falecido de doença ruim. O enterro foi no meio da tarde.

 

– Criança vive pouco, tem pouca maldade no coração. Quanto menor, mais fácil de lidar – o pai disse quando chegamos. Caminhávamos para um mausoléu de granito preto com um anjo barroco chorando para o céu no alto da cumeeira do telhado.

 

Ele cortou a vara da goiabeira que crescia ao lado, a mesma que usara para meu avô, décadas antes. Ficou com ela na mão, retirando os raminhos e folhas menores. E esperamos diante da porta de vidro dos Faria Peres por quase duas horas.

 

– Não vai cravar os tocos? – perguntei confuso e cansado daquela maluquice.

 

Ele mandou que eu me calasse; xiiiiiiiu, com a boca espremida.

 

– Ó lá – ele indicou com o queixo. Dentro do mausoléu, um filete de fogo fátuo começou a escapar pelas frestas da gaveta onde a menina fora sepultada. Parecia um pequeno tiro de clarão no início, mas daí foi aumentando. Aumentando-aumentando-aumentando. Até que o mausoléu ficou cheio de um vapor denso, branco acinzentado, igual a fumaça de lenha seca. Cheguei perto do vidro da porta e espiei lá dentro.

 

Era uma névoa espessa agora. Olhei para trás, fazendo cara de desentendido. O pai só meneou o queixo para que eu olhasse para dentro. E um rosto branco surgiu do nada, feito de fumaça. Um rosto perfeito. Um rosto de criança. Caí para trás espantado, tropeçando nos pés. A menina-fumaça agora aparecia de corpo inteiro, olhando lá de dentro, as mãos espalmadas no vidro. Tinha um ar assustado, choroso, branco leitoso, o vapor dançando no lugar da pele e olhos faiscando como clarões de fogo de Santelmo.

 

– E-ela... – comecei a dizer. E, como se percebesse só agora a nossa presença, a criança-fumaça mudou. As mãos de névoa atravessaram o vidro lentamente, enquanto seu corpo se enrugava num esgar pavoroso. Tremi dos pés à cabeça.

 

O pai bateu a vara de goiabeira contra a perna da calça. Foi um estalo alto e a criança-fumaça ouviu. Parou de se mover. Por outra, recuou de medo, olhando para a vara de goiabeira. Meu pai ainda a sacudiu algumas vezes, até que a estranha criatura feita de nada começou a se afastar para dentro da sepultura. Foi se desfazendo, evaporando para a gaveta selada de granito. Levou um bom tempo para que a fumaça se dissipasse. Quando acabou, o pai sacou a faquinha de cabo velho, agora enrolado em esparadrapos sujos, e passou a picar a vara lisa. Deixou o menor pedaço, como de praxe, para o final. Cortou-o enviesado, em dois cavacos, enquanto eu me levantava e acalmava o coração – o desgraçado queria era fugir do peito apavorado.

 

– Aquilo escapa, se não cuidar de lacrar o túmulo.

 

– O que é aquilo?

 

– É o que sobra, depois que a alma vai embora.

 

O pai girou a maçaneta e entrou no mausoléu. Fui atrás. Ele procurou com cuidado uma fresta na pedra. Cravou o primeiro. Pareceu satisfeito quando o cavaco sumiu na reentrância mal vedada. Andou até o outro lado, na cabeceira do túmulo. Parou. Olhou para mim e estendeu a mão. Entregou-me o toquinho.

 

Entendi de pronto. Cacei um lugar para enfiar o cavaco e finalizei o serviço.

 

– Essas coisas escapam e... bem... ficam piorando o mundo, entende?

 

E saiu andando. Não me esperou. Corri atrás dele.

 

– Mas por que tem que ser de goiabeira? – perguntei, ainda ofegante.

 

Ele parou, olhou-me daquele jeito severo. Estendeu o dedo e sentenciou irritado:

 

– Tem que ser de goiaba branca!

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