© 2019 Jefferson Sarmento

Jefferson Sarmento

Aprendi a gostar de histórias com uma senhora baixinha e meio ranzinza que passava as tardes entre a mesa de madeira da cozinha e uma velha Singer barulhenta no quartinho de costura; esticando os doces que passava horas mexendo com uma colher de pau e muito esforço no fogão de quatro bocas ou costurando tapetes e colchas de retalhos naquela máquina antiga. Eram sempre as mesmas histórias, mas eu não me cansava delas.

Minha segunda lembrança é de minha mãe deitada no sofá da sala pequena de nossa casa (vizinha à dos meus avós) com um estranho pacote feito de folhas nas mãos. Ela vivia entretida e mergulhada neles. Eram uns caderno que não tinham folhas em branco para desenhar, porque já vinham com... coisas impressas neles. Eram letras. Dezenas delas. Centenas. Milhares! E ela ficava lá, por horas, passando páginas e devorando palavras.

 

Não levou muito tempo para eu perceber que a mágica que me fascinava nas histórias que minha avó contava... essa magia fantástica estava dentro daqueles pacotes que tiravam minha mãe do mundo real e a levavam por minutos seguidos ao sofá da sala – sua mente vagando por outros mundos desconhecidos, aventurescos, fantásticos!

 

Aqueles pacotes eram... LIVROS! E todas as histórias do mundo cabiam neles!

Escrever esteve no meu destino desde sempre e minha pedra filosofal foi finalmente fincada na terra em 2007, com a publicação de Velhos segredos de Morte e Pecados Sem Perdão.

Quer saber o que acho? Você não escolhe o ofício. Ele está em você desde eras anteriores ao Big Bang ou à Criação. Vem em suas veias disfarçado de sangue e atormenta seus passos até que você se sente diante de uma tela em branco (ou um papel em uma velha máquina de escrever, se preferir desse modo) e despeje mundos e gentes aos tropeções, até que isso faça algum sentido.

 

Às vezes precisamos caminhar centenas de páginas para encontrar esse sentido...