Ponto e espaço

Está bem, você me pegou. Este aqui não é um conto de horror, não tem nenhum assassinato e nem eu sei o que aconteceu depois.

Na verdade, quando escrevi a música que deu origem ao diálogo de agorinha, tinha em mente uma cena específica e a vontade de compor uma canção que falasse de estar apaixonado.

E quando decidi que precisava escrever um conto sobre ela... bem... o máximo de suspense que consegui colocar aqui foi o de você ter que preencher sozinho as entrelinhas.

É uma das músicas que dediquei à minha esposa, mas com relação ao conto... nosso caso de amor nunca foi proibido. Contudo, recheado de romance e algum atrevimento.

Espero que goste.

Ouça a música enquanto lê o conto logo abaixo

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Ponto e espaço

– Você gostou?

– Claro que sim, mas... o rapaz que veio trazer perguntou pro Sampaio onde eu estava. Justo para o Sampaio? Aquilo tem uma língua!

– Eu devia ter recomendado
melhor. Ele falou alguma
coisa?

– Não. Só veio junto com
o entregador e apontou
pra mim. Deu aquele
sorrisinho e disse que
foi você quem mandou.
Tive que me fazer de
desentendida, mas ele ficou ali um tempo, bisbilhotando.

– Desculpa. Pensei em levar eu mesmo, mas acho que teria sido pior.

– Muito pior! Imagina você entrando no escritório com aquela cesta?

– É uma cesta... meio indiscreta...

– E em formato de coração!

– Exagerei, não é?

– Você já é normalmente exagerado. As pessoas ficaram olhando. Coloquei embaixo da minha mesa e enfiei a cara no trabalho, antes que alguém perguntasse.

– É só fazer aquela sua cara de séria que ninguém pergunta nada.

– Também não é assim.

– Eu que sei. Parece que escreve na testa: “fechado para balanço, não incomode”.

– Mas eu já melhorei.

– Na verdade acho que foi esse seu jeito de menina má...

– O quê?

– Foi ele o responsável.

– Responsável pelo quê?

– Por eu ter enlouquecido a ponto de ter te enviado uma cesta de bombons em formato de rosas nas vésperas da Páscoa.

– Ainda não sei como vou levar isso para casa.

– Não pensei nesse detalhe.

– Acho que você não quis pensar nesse detalhe. Vou dizer que foi uma... rifa, um cliente, sei lá.

– Provou alguma?

– Ainda nem abri. Estão lá na minha mesa ainda.

– Fiquei uma semana pensando se mandava ou não.

– Você sempre decide que vai mandar, que vai ligar, que vai escrever, que vai correr o risco.

– Será que um dia essa briguinha de Capuletos e Montéquios vai ter fim?

– Pergunte ao seu pai e eu pergunto pro meu.

– Tenho uma ideia melhor.

– Espero que não tenha nada a ver com venenos e adagas afiadas.

– Nada. Pensei... pensei em alugar esse chalé em Bons Ventos. A gente sobe a serra e passa o fim de semana lá...

– Você enlouqueceu!

– Completamente.

– Não poderia, mesmo que quisesse. Vamos passar o fim de semana na fazenda. Papai vai reunir a família lá. Quer todo mundo. Tios, primos, cunhados, cachorro, gato, periquito...

– Melhor ainda.

– Melhor?

– Arranje uma desculpa pra voltar até a cidade.

– Não vou fazer isso.

– Posso chegar à noite. Você abre o portão, eu entro, deixo o carro nos fundos da casa. Ninguém vê. E posso compartilhar essa cesta meio brega com você.

– As trufas são minhas! Não quero dividir com ninguém.

– Nem com o seu pai?

– Se ele quiser, não tenho como dizer não. Mas ele não gosta muito de chocolate meio amargo. É meio amargo, não é?

– Não compraria outro para você. Aí... você desliga aquelas luzes todas e a gente se senta no tapete da sala.

– O que está tramando?

– Abro a cesta pra você. E sirvo uma rosa na sua boca. Pétala por pétala. E... e se... se uma gotinha de chocolate cair assim dos seus lábios... e escorrer pelo seu queixo e se aninhar dentro da sua blusa...

– Para.

– ... eu posso confundi-la com aquela pinta que você tem no seio e...

– Você não faria isso...

– Por que está sussurrando assim? Tem alguém perto ou você...

– É que eu... quase que vejo a cena.

– E eu limpo o chocolate do seu colo... com um beijo bem demorado, que é para sentir o gosto daquela sua marquinha saliente. Já te disse que sonho com ela?

– Você está ficando meio indecente.

– E se for? Você já teve sonhos mais reais até.

– Mas nunca te contei detalhes.

– Nem precisa, tenho uma mente bem fértil. Quando você disse que sonhou que acordamos juntos, e que tinha acontecido... tudo... eu já criei o resto.

– Você estava com a barba por fazer.

– O quê?

– No sonho. Você não fazia a barba há uns quatro dias. Dava uma sensação gostosa... na minha... nuca...

– Ia fazer a barba esta tarde. Posso deixar para a segunda-feira, depois do fim de semana.

– É melhor você deixar o carro na praça.

– Hm?

– Não entre com ele. Se alguém chegar, você não vai ter como sair. E de manhã vai ser difícil explicar o que aquele jipe está fazendo atrás da sauna.

– Você deixa o portão dos fundos aberto?

– E nem toco na cesta, até você chegar.

– Promete que não vai desistir?

– Hum-hum.

– Hum-hum de sim ou hum-hum de não?

– Hum-hum de esse relógio não anda!

– Promete que vai atender, se eu ligar?

– Se você pedir, eu nem desligo agora...

– Não dá. Eu tenho que trabalhar ainda.

– E eu. Mas...

– Se você não atender, eu vou ficar te ligando e te mandando mensagens até o seu telefone explodir. E quando você achar que eu desisti, faço outra vez e você vai perceber que... que nada mais importa.

– Eu vou atender.

– Jura?

– Como isso foi acontecer? Com a gente?

– Aconteceu porque não podia. Mas devia estar escrito em algum lugar aí do universo. Não sei... é você quem acredita nessas coisas. Eu só vou fazendo... e vejo onde é que eu vou parar.

– E onde você vai parar?

– Na sua sala de estar, no chão, servindo as pétalas das rosas de chocolate que eu te mandei.

– Preciso ir, antes que alguém venha me chamar.

– Beijo.

– Beijo.

– Desliga então.

– Desliga você.

– Ah...

– Não acredito que eu entrei nessa.

– Nem eu, às vezes. Mas tem hora... parece... parece que você está em todo lugar, em todo canto. Em toda frase que eu digo. Em todo ponto que escrevo, em todo espaço que eu deixo na folha. Tem hora que eu queria passar aí, acelerar na porta do seu prédio até você descer e... e te raptar e sumir pelo mundo.

– Meu pai não ia descansar até me achar.

– E o meu ia ficar tripudiando em cima do seu, dizendo que o filho garanhão pegou a filhinha imaculada do prefeito.

– Sexista e inapropriado. Não gosto quando você brinca assim.

– Desculpe.

– Preciso mesmo desligar. Me liga depois das seis, está bem?

– Vamos contar até três e desligar juntos?

 

© 2020 Jefferson Sarmento