• Jefferson Sarmento

Considerações e sutilezas religiosas de um morto ateu


Estive morto há algumas horas. Morto! É isso mesmo. Levei um tiro no meio do peito. Meu coração parou de bater, meu pulmão parou de puxar ar, meu cérebro parou de maquinar safadezas hereges e mundanas. Também pararam as considerações banais sobre qualquer outra coisa. Eu morri. Morri! Minha mulher abriu o berreiro; meus filhos não entendiam nada; um padre bêbado me deu a graça de seu bafo (ainda desconfio de que ele tenha usado cachaça e não água benta). Fui levado (meu corpo) para uma mesa fria, de pedra sebenta, para a autópsia. Não havia médico. Fui deixado lá por quase sete horas. Um cara veio, mascando chiclete, e ficou admirando o buraco no meu peito. Foi embora. Não disse nada. Acho que era o médico que ia me abrir. Deve ter decidido não perder mais tempo. Eu estava morto mesmo!

Mais ou menos ali pelas oito da noite, quando eu começava a sentir as carnes do traseiro ficando dormentes (não sei se por causa do frio da pedra ou pelo rigor mortis), apareceu um velho. Estalou os dedos perto da minha cabeça e eu abri os olhos. Estranho um morto abrir os olhos... Pois é. Dei uma boa encarada no matusalém. Barbudo, meio careca, roupas brancas, asinha nas costas, auréola, essas coisas...

– Não sou Deus - foi a primeira coisa que me disse. Tinha uma má vontade alarmante na voz. Parecia o meu filho mais velho quando tinha que ir buscar pão.

As roupas brancas eram desengonçadas. Pegou uma prancheta que trazia a tiracolo e cuspiu no chão. Porco o velho!

– Natanael Baltazar de Arruda? - ele perguntou.

– É eu - respondi. Não sei se morto fala, mas eu respondi.

– Mandaram-me avisar que foi um engano. Você não pode morrer agora.

– É? - Minha voz era tão indiferente que me espantei. - O senhor é o São Pedro?

– Escuta aqui, meu filho, só estou consertando uma cagada do pessoal lá de cima. Não dou autógrafo, não faço favores e não ganho hora extra. O que eu tinha que fazer aqui, eu já fiz. Agora, se me dá licença...

Enfiou a mão direita num bolso e tirou uma rolha. Colocou-a no buraco onde a bala tinha entrado, no meu peito. Arrochou e deu dois tapinhas.

– Não é lá essas coisas, mas vai dar pra você se virar. Agora eu preciso ir. Tenha uma boa noite.

Ele se foi. Levantei-me da pedra. Foi quando constatei minha inteira nudez. Por isso é que minhas coisas estavam tão geladas.

Minhas roupas estavam jogadas num canto. Vesti. Voltei a pé para casa. Um sujeito na rua me parou para perguntar se eu estava bem. Eu ri na cara dele. Ia responder que sim, mas...

– Você sabia que se Tito não tivesse arrasado Jerusalém no ano 70 o cristianismo não teria saído daquela cidadezinha mixuruca? - foi o que eu disse. O sujeitinho ficou olhando para mim sem entender nada e me receitou uma aspirina. Foi embora olhando para trás. Não é todo dia que se encontra um maluco ressuscitado.

Em casa a recepção não foi mais cordial. Meu filho mais velho estava assistindo a um filme pornô na tevê a cabo. Pareceu mais constrangido por ser flagrado do que alegre ou espantado com minha presença. Tudo bem. Sentei e assisti um trecho com ele. Aqueles atores... não sei se posso chamá-los assim... aqueles “profissionais” na tela são capazes de coisas extraordinariamente contrárias às lei da física. Vale mais como Acredite Se Quiser do que como exercício de luxúria.

Minha mulher estava chorando no quarto. Entrei. Ela não me notou. Eu pigarreei. Ela me olhou. Baixou a cabeça e voltou a chorar. Mais alto agora. Isso me deixou irritado. Ela acabara de perceber que tinha perdido o dinheiro do seguro.

– Deus não existe - sentenciei. Ela parou de chorar. – São Pedro é um velho sem educação!

Ela me encarou furiosa. Eu sabia que chamaria sua atenção assim. Sempre foi uma católica fervorosa. Seria uma ótima aquisição praquele exército irlandês. Nunca aceitou o fato de que os islâmicos são uma praga em maior quantidade que os cristãos.

Com os olhos pegando fogo, realmente irada, odiando-me até os botões da cueca, ela se levantou e saiu do quarto. Estava resignada, eu pensei. Finalmente eu a suplantei na questão religiosa. Aliás, pelos meus cálculos, ela nada poderia dizer contra as minhas afirmativas teológicas, a partir de então. Eu, afinal, havia estado do outro lado. Eu tinha visto o mundo depois da morte. Ela teria que aceitar tudo que eu dissesse. E se eu dissesse que o céu é cor de rosa e o inferno é um bar onde o Nelson Ned canta Rock’n’Roll em parceria com o Sinatra, ela teria que acreditar. Era a minha palavra de entendido contra a de “eu acho que lá é assim”.

Martinha, a minha mulher, voltou da cozinha com uma faca de açougueiro. Cravou nas minhas costas. Nem saiu sangue. Ainda não tinha descoagulado, se é que isso ia acontecer. Veio o velho Pedro com a lista dele outra vez e disse que aquela era realmente minha vez. E eu subi, para provar minha revolucionária teoria de que todo mundo vai para o céu. Mesmo o cachorro da vizinha, que eu vivia mandando para o inferno porque fazia suas necessidades no meu gramado.

Minha mulher não foi presa, porque ainda não existe lei que prenda alguém que mate um morto. Meu filho conseguiu passar por mais três filmetes daquele sem definhar. Ele convidou a recepcionista da locadora para treinar aqueles exercícios esdrúxulos no sofá da casa dela, enquanto assistiam à mesma fita. Ela lhe deu um tapa na cara. Continue tentando, filho, um dia, quem sabe, você consegue levar um tiro?

Ah! Mandaram me avisar que o Nelson Ned ainda não morreu. Tudo bem, ele não sabe mesmo cantar Rock’n’Roll. Além do mais, aqui em cima é muito chato. E o capeta mandou me avisar que precisa ter competência para ir pro inferno.

Tenham um bom sono.

(O conto Considerações e Sutilezas... foi escrito originalmente lá por mil novecentos e noventa e coisa, numa velha máquina Remington barulhenta e cheia de letras tortas que tínhamos em casa. Acho que não preciso explicar que o Nelson Ned não estava morto ainda... Dei uma revisada básica antes de publicar aqui, mas achei que ficaria mais bacana mantendo o Nelson...)

(A caracterização de Bill Murray como zumbi lá no alto é de um artista americano que assina como Vinnymac e seus trabalhos podem ser encontrados no enderço http://vinnymac101.deviantart.com/)

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