© 2019 Jefferson Sarmento

  • Jefferson Sarmento

Abrigo


O conto e a música "Abrigo" fazem parte

do projeto "Noites de Tempestade",

livro de contos em que ainda estou

perdendo algumas horas de sono

para escrever. A ideia é juntar

as histórias e as músicas num só

trabalho e fazê-las... conversarem!

Ouça e leia "Abrigo" e

me diga como anda o negócio...


Ele

Quando a chuva começou, ele estava ali, do lado de fora, olhando para a janela fechada, por onde a luz difusa vazava por detrás das cortinas. Mas não importavam as lágrimas do céu, ainda que elas aumentassem no anúncio de um temporal fora de época; engrossando, embrutecendo, desesperando. De fina e fria, tornou-se ruidosa e anestésica. E ele se manteve ali, encostado no poste, encarando o vidro fosco como se pudesse ver através de paredes e janela. Como se pudesse vê-la, senti-la, cheirá-la, tocá-la. Mas isso era impossível. Sempre tinha sido. Desde o início. E ainda mais agora.

Mesmo assim...

Ele buscou abrigar-se nos próprios ombros, levantando a gola do casaco preto cujo couro deixava escorrer em rios e torrentes as gotas da chuva forte. Mas estava já encharcado. Era apenas um gesto automático. Como era automático abrir os olhos de manhã e ter durante todo o dia a presença dela em cada minuto, ato, ideia, forma, pensamento, caminho. Era como um fantasma que o acompanhava ao longo do dia. E quando fechava os olhos, sua presença vinha em sonhos também. E se em uma noite não viesse, acordava com aquele gosto ruim de que havia algo que faltava...

Claro que sabia o que faltava. Mas não havia o que pudesse ser feito. Havia apenas a chuva chorando ao seu redor e a luz difusa na janela fechada. Uma janela que não se abriria jamais. E então ele se perguntava: como é possível?

Como ela podia? Como conseguia? Em noites como aquela, em que estava só, terminado o dia e a rotina caída no silêncio... Quando não havia mais os problemas cotidianos que tomavam sua atenção, mantinham seus olhos em problemas físicos e concretos que prescindiam de seus olhos, boca, ouvidos, raciocínio, braços, pernas... E quando chegava em casa e o silêncio e a solidão imperavam como reis misteriosos e implacáveis que a encaravam com aquele ar cortante e acusador... Quando não havia mais com quem dividir qualquer palavra, qualquer assunto que a empurrasse para longe... para longe... para longe daquele pensamento sempre presente...

Como ela fazia? Onde buscava abrigo? Onde se escondia? Com o que se defendia? Porque... ele precisava saber. Se havia uma saída, cura, solução, remédio... ele precisava saber. Porque nada que tentava tinha um funcionamento duradouro. Por outra: não durava nada. Porque seu fantasma continuava lá, firme e presente.

Ela

Em noites como aquela (e como todas as outras), ela tentava manter o dia em andamento, como se o pudesse estender em afazeres intermináveis que tomassem sua atenção. Era um método eficaz até certo ponto, mas não afastava definitivamente aquele... sentimento que ele costumava chamar de seu fantasma de estimação. Mas com todo o esforço que fazia, parte dela apenas esperava pela hora fatal em que o dia finalmente despedaçava-se numa noite silenciosa em seu quarto escuro, cheio de vazio – um vazio completo e desesperador. E era assim sempre, mas às vezes... em certas vezes... parecia pior. Parecia insuportável.

Quando se deitava em noites feito aquela que escorria do céu numa tormenta ruidosa...

E quando o homem que carregava o par da aliança em seu anular não estava...

Essas eram as piores.

A casa fechava-se naquela solidão surda e o mundo parecia comprimi-la como se fosse aquela dor o centro do universo. Nesse instante, na cama grande e solitária, ela se encolhia e se rendia em oração para o Deus que ela desejava, pedia que a ouvisse. Mas o mundo lá fora estava encoberto por aquele cinza escuro e impenetrável, feito de chumbo intransponível. Se Deus respondia, ela não conseguia ouvir. Ou... talvez ninguém a ouvisse mesmo. Ninguém além da solidão.

Ninguém além da solidão.

Ele

Ele atravessou a rua. Parou diante do portão. A chuva não importava mais e o frio era só uma lembrança nesse instante. Ele ficou ali, olhando para dentro como se pudesse mesmo estar lá, como se só o fato de querer e pensar o colocasse dentro daquelas paredes. Havia alguns minutos, as luzes se haviam apagado e ele acreditava de fato que ela já até tivesse adormecido. Por alguma razão, ele sabia que ela era forte, que ela conseguia, que ela simplesmente abstraía. Ou que, naturalmente, já o tivesse esquecido. Para ela, nesse seu pesadelo acordado, ele era apenas uma pedra menor no passado recente; não importava mais... tanto. Ou nada.

Mas uma parte dele, uma boa parte, sabia que era mentira. Sabia que a mulher que praticamente se entregara a ele, contra todas as possibilidades, direitos, razões, sentidos... ela ainda estava ali, naquele lugar que, a despeito das proibições políticas, sociais e religiosas, era só deles. Um lugar em que o mundo ao redor não existia. Um lugar em que apenas os dois viviam. Um lugar onde todo aquele sentimento arrebatador não podia ser questionado, condenado ou sequer tocado por outras forças que não aquela paixão destruidora, implacável. Aquele amor absoluto e indestrutível.

Ela

Naquele instante, não restavam mais muros e grades que pudessem segurar o que sentia. Então ela fechava os olhos e se rendia. Mas não era uma rendição vergonhosa ou dolorosa ou criminosa. Era uma rendição que trazia alívio. Não restava resquício de orgulho ou culpa. Ela apenas deixava o ar se esvair dos pulmões e recebia o desejo como a forma mais natural e simples da existência. Ela enfim se entregava aos pensamentos que reprimia durante o dia. Aceitava o fato de que seu castelo protetor era uma prisão e que seu espírito merecia e seria livre. As paredes ruíam nesse momento e os campos daquele plano onde planetas podiam colidir sem destruir universos inteiros tornavam-se reais.

E nesse mundo ela podia imaginar e aceitar o fato de que tudo antes deleeram convenções. Você tem que ser uma boa menina, você tem que estudar e passar de ano, você tem que respeitar sua família, você tem que temer a Deus, você tem que encontrar um bom homem, você tem que dar educação para seus filhos, você tem que respeitar as leis, você tem que seguir o caminho certo, você tem que evitar pensamentos maus, você tem que ir à missa aos domingos...

E você não pode amar outro homem. Especialmente esse homem.

Ele

Um dia eles se encontraram e ela se desmanchou em sua frente como se fosse feita de gelo sob o sol escaldante. Diante dele, a apenas um passo de distância, ela sorriu aquele sorriso triste e declarou que ele podia fazer o que tivesse que ser feito. Que ela não ia se opor. Que ela apenas fecharia os olhos e aceitaria. Naquele instante, engolindo em seco, ele se sentiu um verme. Ela estava ali, estava ali, estava ali... E ele apenas tinha que...

Mas não o fez. Não por resoluta convicção, mas por todas aquelas dúvidas que o acompanhavam diuturnamente. Não o fez com a razão, mas com o medo. Medo de que os mundos explodissem se sequer a tocasse. Medo de ser o responsável pela dissolução dos valores que trazia. E que ela trazia. Medo de perder a fé de que podia suportar. Medo de que aquele fosse o primeiro passo para descambar para o precipício.

Ela lhe disse que não entendia como ele conseguia resistir...

Ele lhe disse que não sabia que o que ela sentia era tão... igual ao que ele sentia.

Ela lhe disse que não acreditava em outras vidas e portanto tinha que haver um meio, nesta aqui, de os dois...

Ele lhe disse que só podia suportar o fardo se acreditasse que esse meio realmente existia.

Mas quando ela o abraçou e ele sentiu seu corpo inteiro tremer, ele mandou que ela fosse embora. Aquele era o último resquício das forças que acreditava ainda ter. Depois daquele limite, não haveria mais salvação.

Ela

A dor que sentia era causada por ele. Ele era... era como o frio que a cortava nas madrugadas mais quentes, mas era também o abrigo para aquele mal. Ele era a mentira que se insidiava em suas veias, mas era de fato a única verdade que restava em sua vida. O resto eram convenções. O resto não trazia sentimento, mas a solidez material da razão. E ela tinha que ser racional.

Rolou na cama e encarou o outro lado vazio. Por um instante sentiu culpa e remorso. Depois pena. Depois horror por sentir aquilo. Olhou para a mão esquerda e tocou a aliança. Pensou se era assim que ele se sentia quando se ajoelhava e se entregava. E teve raiva dele. Muita raiva. Teve ódio. E sentiu vontade de chorar. Mas já tinha chorado muito por aquilo e o orgulho e a razão diziam, gritavam, ordenavam que não aceitasse mais aquilo.

Ele era feito uma fome que sentia. Uma fome que só poderia ser aplacada por... ele. Ele era a dor e a cura. Ele era o fim de seu mundo e o início de um outro. Era a verdade absoluta que ela teimava em mentir, mesmo tendo contado tudo (contou mesmo tudo?). E então ela acariciou o travesseiro vazio e ignorou o clamor da razão. Sabia que não tinha contado tudo. Não tudo. Não o que sentia de fato.

Fechou os olhos, desejando que a cama estivesse preenchida hoje. Só hoje.

Chamou um nome, mas o rosto que veio acudi-la era diferente. Um rosto que não podia, devia, poderia, pertencia.

Ele

Ficou olhando por muito tempo para aquela porta. Em verdade, não se retorcia pela decisão de entrar ou ir embora. Sabia, desde o início, que não entraria. Sabia, desde o início, que iria embora, porque era o que ele fazia: o que tinha que ser feito. Apenas... queria estar ali, enquanto o mundo pausava e o céu rugia. Baixou a cabeça e soltou o ar envenenado dos pulmões. Teve vontade de chorar, mas as lágrimas da chuva lavariam as suas e tudo seria tão inútil quanto o próprio mundo cruel o era. Tanto quanto tinham sido suas escolhas antes de ela aparecer.

Virou-se, sem olhar para trás, e tomou a calçada, na direção de seu mundo real. Parou. Encarou o céu negro e trovejante. A tormenta não passava. Não passaria nunca.

Ela

Você é o meu abrigo... ela pensou. Fechou os olhos úmidos com força e abrigou-se naquele outro mundo, a salvo das culpas e da dor.

Ele

Meu bem, eu sou o seu abrigo... ele sussurrou, voltando a caminhar. Ajeitou o clergyman sob a gola do casaco, resquício do hábito que já não vestia há muito tempo, porque a Igreja já não o obrigava a isso. Pensou mais uma vez em arrancá-lo do colarinho e deixá-lo escorrer na enxurrada da ladeira – em verdade, mesmo a pequena entretela branca não era obrigatória, mas servia de última trincheira entre o real e o desejado. Portanto, não a tocou.

Ela

Algum dia, por alguma razão...

Ele

Algum dia, por alguma razão...

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