• Jefferson Sarmento

Meu cicerone particular para o horror: O Fortim


Eu devia ter quatorze, não pode ser mais que isso de jeito nenhum. E me lembro que consumir livros era comum como passar pelas bancas de jornal e comprar a última edição do Homem Aranha. A Biblioteca (escrito assim, com maiúscula, por respeito ao seu solo sagrado) emprestava os livros com o prazo derradeiro de quinze dias, com o cartãozinho no verso da contra-capa. Mas até então, eu só podia ler a Coleção Vagalume e outros que tais do gênero. Qualquer livro mais grosso era considerado... adulto!

Mas então mudamos de ano (e naquela época o primeiro ano ainda era primeiro ano - hoje não sei mais como se chama e faço uma confusão dos diabos com a série dos meus filhos) e com ele veio a boa nova: agora nós tínhamos direito a ler os livros das estantes do fundos!

Ir à Biblioteca do colégio sempre foi um hábito. Às vezes, mesmo quando não tinha intenção de levar nada, passava por lá para dar uma olhada nas estantes, passar os olhos pelas revistas e cumprimentar a Malvina, Bibliotecária (mesmo respeito com a inicial maiúscula!) que ainda hoje guarda a sala livros do CVD. E eu costumava dizer: um dia, você vai recomendar livros meus das estantes do colégio!

Meu primeiro livro adulto, recomendado por ela, foi minha introdução às histórias de horror. Eu estava procurando por alguma coisa, sabia lá o quê, e ela veio com essa história de que haviam chegado uns livros novos e um deles tinha essa descrição na contracapa, falando sobre podermos ouvir os gemidos dos soldados mortos nas noites mais escuras...

Fiquei chocado e maravilhado. Era um volume de quinhentas páginas editado pela Record e eu me senti ao mesmo tempo desafiado e temeroso dos parcos quinze dias que tinha para devolver. Como, em sã consciência, alguém podia querer que eu lesse aquilo em duas semanas?! Era descomunal!

O Fortim, escrito por F. Paul Wilson e publicado em 1982, é o primeiro livro de uma série de seis chamada Ciclo de Inimigo. Lembro-me de ter lido em uma semana, atropelando as palavras e ávido por mais e mais e mais. Antes mesmo de terminar, tinha certeza de que seria um leitor de histórias fantásticas como aquela, de livros de terror.

Sim, é claro que li outros livros de F Paul Wilson, depois de adulto, e detestei - do texto fraco às situações clichês. Portanto, não vou mexer com o Fortim. O que quero dizer é que... bem... preciso preservar a mágica. Não tem como ser de outro jeito. Não quero ter o desgosto de descobrir que é um livro ruim (e deve ser).

Seja como for, decidi tocar no assunto porque às vezes me perguntam por que gosto de... histórias assim. Porque antes de ter medo, eu ficava curioso com o mistério e com as mortes nos livros. Antes de me horrorizar com a possibilidade de aquilo ser real, eu fantasiava que pudesse ser mesmo, sabendo que do lado de cá das páginas as coisas funcionam como na matemática. E aprendi isso com O Fortim, entregue para um adolescente ávido por novos mundo pelas mãos de uma Bibliotecária sempre simpática e pronta para fazer de nós os leitores mais interessados do mundo.

Devo isso ao Fortim. E devo a ela também.

#JeffersonSarmento #literatura #blog #Balaiodegato

1 visualização

© 2020 Jefferson Sarmento