• Jefferson Sarmento

Os ratos do quarto ao lado

Atualizado: 17 de Dez de 2019


É comum que as pessoas me perguntem de onde tiro as ideias para minhas histórias. Mais comum do que talvez você acredite que seja. Pois me deixe falar um pouco sobre meu segundo livro, publicado em 2008.


Preciso começar dizendo que necessidade de um motivo para escrever, e isso vai além de simplesmente colocar as palavras para fora. O que quero dizer é que preciso de um motivo para a história - para cada uma delas; isso é o que os velhos contadores de causo costumam chamar de a Musa.


Bem, eu preciso dela.


A Musa é a razão pela qual sou compelido a passar horas e noites atrás do teclado, encontrando espaços na tela branca para rabiscar a vida dos personagens – todos os seus defeitos e problemas e desejos e inquietações...




"Remo era uma cidade tranquila até aquela manhã. A descoberta do corpo de um garoto numa velha serralheria, mutilado, exposto como num altar de magia negra, aparentemente violentado, revolve as cinzas de velhas lembranças sepultadas.

Alonso Fraga, comandando um pequeno jornal local, passeia por essas lembranças, sendo protagonista de histórias macabras da própria infância que confundem-se de maneira perturbadora com o acontecimentos. Enquanto isso, alimenta uma paixão fantasiosa por sua vizinha Beatriz, cujo casamento parece ruir em cacos, rápida e mortalmente.

À medida que novos assassinatos são descobertos, a cidade mergulha numa soturna condição de embriaguez e perplexidade. O criminoso, que antes parecia circundar Remo como um carniceiro covarde, entra em seus limites, circula por suas ruas, invade seus quintais. E pode estar dentro de suas paredes a qualquer instante. De repente, parece não haver mais tempo para que o quebra-cabeças de lembranças e símbolos desarranjados seja resolvido."





A Musa por trás das mortes de crianças em Remo veio numa noite chuvosa, quando eu voltava do Rio de Janeiro, depois de uma semana de trabalho exaustivo. A sexta-feira se esvaía pela janela do carro e me lembro de ter olhado para um dos lados da rodovia e de tê-la visto (a Musa!) na forma de um homem metido num impermeável amarelo, segurando o que parecia ser um taco, ou um... cabo de machado. Mas a imagem passou mais rápida do que pude perceber, sem que eu identificasse de certo o que ele segurava. Mas ficou guardada aqui, enquanto o resto das duas horas de viagem se abria na estrada.

A cena daquela noite está no meio do livro e é fácil identificá-la. Todos Os Ratos vieram dela. A estória inteira foi criada ao redor do homem de impermeável esperando para atravessar a rodovia movimentada. Absolutamente todo o emboço foi rebocado a partir dessa cena. Claro, não de imediato, porque muitas vezes a Musa não se mostra por inteira, desde a primeira vez. Ela se desvenda aos poucos, enquanto você questiona seus motivos, suas atitudes, enquanto se quer ver mais...

Os Ratos do Quarto ao Lado é dedicado a ela, à Musa, tenha ela a forma que tiver: os longos cabelos escuros da morte ou o sorriso sutil de Beatriz.

Que ela sempre esteja por aqui...


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