• Jefferson Sarmento

A Coisa, de Stephen King


(It, Stephen King)

Eu me lembro claramente de quando vi pela primeira vez os dois volumes de A Coisa, lançado no Brasil em 1987 pela Francisco Alves - portanto apenas um ano após o lançamento nos Estados Unidos. Saímos do colégio e demos nossa parada estratégica na antiga Casa do estudante, que ficava ali atrás do Floresta, de frente para o "beco" onde os brigões da adolescência costumavam marcar suas lutas nunca realizadas... Foi o primeiro (ou "os primeiros", lembrem-se: eram dois volumes enormes) livro de Stephen King que comprei. Acho que fiquei namorando aquelas estantes abarrotadas de livros por umas mil semanas, até conseguir grana para comprá-los. E amei aquele livro.

Embora vendido no mundo como "A Obra Prima do Horror" (e considerado pelo próprio autor como sendo a sua obra prima particular), A Coisa sempre foi, desde as primeiras linhas que descrevem o passeio do barco de papel de George Denbrough, um relato maravilhoso sobre a infância no nordeste americano na década de 1950. As referências à cultura pop da época estão todas lá - do nascimento do rock'n'roll aos filmes de lobisomens e múmias que faziam a festa para os garotos. Mais que isso, A Coisa é um tratado sobre amizades perdidas. Amigos eternos de infância que desaparecem. Estes aqui, entretanto, voltam para cumprir sua promessa de derrotar o monstro que habita os subterrâneos de Derry - uma cidadezinha pobre e cruel perdida no meio do Maine.

A adaptação de 1990 foi dividida em dois capítulos para a tevê e o roteiro segue quase fielmente a estrutura e narrativa do livro. As diferenças estão em algumas pouquíssimas omissões (como a descoberta de que a força que o grupo carrega é potencializada, talvez, por um segundo ser que habita as cercanias da cidade - idealizado e imaginado como A Tartaruga - uma espécie de inimigo eterno do ser aterrorizador representado pelo Palhaço Parcimonioso e, mais intrinsecamente, pela aranha).

A fidelidade ao livro não a faz uma grande adaptação, porém. Fosse feito para a tevê hoje (com a qualidade cinematográfica das produções atuais) talvez desse certo. A Coisa, 1990, é uma telefilme cansativo, com alguns atores que não se enquadram nos personagens, cenas pobres e emoções superficiais. É burocrático e sem sal. A Coisa (livro e filme) sofrem de um mal característico de muitas histórias de Stephen King: uma belíssima construção de enredo e um final... rápido e pobre. No filme ele é ainda mais frustrante. A história acompanha a amizade de sete adolescentes no verão de 1958, na cidade de Derry. Violentos assassinatos de crianças vêm acontecendo na região e eles acreditam que o assassino, na verdade, é uma estranha criatura que se apresenta como um palhaço assustador, mas que tem o poder de aterrorizá-los usando seus mais profundos medos. Eles se juntam para seguir o monstro pelos esgotos de Derry e derrotá-lo. Mas apenas o ferem. Trinta anos depois, eles retornam para terminar o trabalho. Mas a Coisa já sabe que eles virão e começa a ameaçá-los e, finalmente, a derrubá-los um a um.

Stephen King escreveu A Coisa num período em que se drogava e bebia excessivamente, mas desde que apresentou o original aos editores (comparado apenas ao tamanho do original de Dança da Morte - que fora publicado originalmente com inúmeros cortes), declarou que tinha dado tudo de si ali. Era mesmo sua obra prima e todos os seus medos estavam ali. É um dos meus 10 livros prediletos e aquela magia ainda está guardada nas estantes do meu coração (eu si, isso foi piegas e patético, mas verdadeiro). Percebi isso quando li Novembro de 1963, que se passa boa parte em Derry e em 1958, com a aparição de Beverly Marsh e Richie Touzier. Ainda acho que merecia uma adaptação de Frank Darabond - talvez o único diretor/produtor que tenha adaptado Stephen King magistralmente, sem ferir suas histórias.

(O texto acima faz parte das resenhas da Maratona Stephen King - é essa empreitada meio sem noção em que entrei para assistir a todos os filmes, séries, coletâneas... ligadas a ele. Se estiver interessado nas resenhas do outros filmes: https://www.facebook.com/maratonastephenking)

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