• Jefferson Sarmento

Layla, Eric Clapton


Já falei algumas vezes dessa música (não aqui, o que me reserva esse direito quase constitucional de encher a paciência de vocês com o assunto), mas minha... fixação, pra não dizer paixão, por ela me é tão enigmática quanto o nó de marinheiro. Vá lá...

No aparelho encostado do outro lado da biblioteca eu deixei o senhor-deus Eric Clapton tocando sua turnê de 2002. Agora há pouco, enquanto eu tentava colocar as notíocias de ontem em dia (não sei porque ainda assino o jornal...), Clapton começava a explicar seu amor desgraçadamente doloroso e impossível por Pattie Boyd, esposa de seu amigo fiel, George Harrison.

Em 1968, John, Paul, George e Ringo construíam na Abbey Road o mais impressionante disco que os Beatles puderam trazer a este mundo (certo, os puristas vão dizer que Sargent Pepers é o melhor, mas eu ainda fico com o álbum branco). George trouxe Clapton para tocar com eles e uma das canções que mais gosto desse encontro é While My Guitar Gently Weeps; na verdade, ela é para mim a melhor composição que já ouvi num disco daqueles quatro sujeitos fantásticos - já fui amaldiçoado por preferir esta, por não reconhecer que o conjunto todo é uma obra prima, etc... O conjunto todo é uma obra prima (quem disse que eu não reconheço?!), mas prefiro esta aqui do velho George perdido para os cigarros e o câncer.

Enquanto os dois trabalhavam e se divertiam e faziam o que amigos com interesses semelhantes fazem, algo inesperado aconteceu. Eric apaixonou-se por Pattie, mulher de George, dessas paixões fulminantes, dolorosas, vergonhosas. Desses amores que levam um homem ao fundo do poço. E Pattie, vivendo uma vida desegundo plano, frequentemente afastada por George e seu amor devoto à cultura hindu, apaixonou-se também por Eric.

Dessa paixão arredia e traidora nasceu a canção Layla; visceral, forte, poderosa e cheia de um amor carnal e pecaminoso – na verdade colada de um conto árabe em que a princesa Layla apaixona-se por um plebeu e não pode casar-se com ele, por conta de suas diferenças. Você pode sentir a raiva de Eric tocando aquele arranjo infernal que construiu para a abertura da canção, que foi gravada para o álbum da então nova banda do guitarrista, Derek and The Dominos, lançado no mesmo ano da morte de Jimmi Hendrix e Duane Alman – um disco cheio de canções feitas para ela, como a destruidora Have You Ever Loved a Woman? – que não é de Eric, mas representa com perfeição aquela condição complicada em que os dois estavam (You just love that woman/So much it's a shame and a sin/But all the time you know/She belongs to your very best friend).

Durante grande parte da vida, Eric sofreu por esse amor quase doentio - bem... de fato doentio, levando-se em conta que passou anos internado na própria casa, vivendo de uma dieta rigorosa de heroína... porque não podia consumar sua paixão. Reclusão de que foi resgatado, entre outros, pelo próprio George – que mais tarde perderia Pattie para o amigo.

Estranhamente... Eric e Pattie não foram um casal feliz e é o próprio que conta em sua biografia (esplêndida, vale a leitura em cada vírgula, letra e espaço) que aquela paixão talvez fosse... uma invenção sua: a realidade mostrou-se desastrosa.

De qualquer modo, acho que nós, pobres mortais, devemos pelo menos algum respeito a Pattie Boyd, que arrancou de dois músicos inigualáveis canções que não apenas representavam sua importância para eles, mas que alcançaram um grau quase divino na cultura pop dessa nossa humanidade esquisita – George escreveu Something para ela, entre outras.

* Jefferson Sarmento tem uma lista das dez mais em sua cachola e Layla aparece em primeiro, mas Something não fica muito atrás e esse idiota só descobriu que as duas falavam da mesma mulher quando leu a pataca da biografia dos Beatles, do Bob Spitz - que eu também recomendo.

#Música #Balaiodegato #EricClapton #Layla

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