© 2019 Jefferson Sarmento

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As minhas verdades


Quando Miguel saiu de casa, ainda parado no portão, o irmão ainda não acreditava naquilo. Mas eram dois sujeitos bem diferentes e o caçula, que entendia bem mais de coisas impossíveis de serem explicadas, apenas sorriu e ajeitou a mochila nas costas antes de soltar aquela sentença que acompanharia os dois pelo resto da vida:

– Quando ele estiver na varanda, hoje à tarde, senta com ele na rede e explica... explica que eu seria sim o melhor doutor do mundo... se eu quisesse ser doutor. Mas esse não é o meu destino. É o de qualquer outra pessoa.

Dito assim, feito uma revelação eclesiástica, deixou Denis com os olhos arregalados e os cabelos da nuca eriçados. Eram um ano distantes um do outro, mas essa era uma explicação racional demais. Denis era mais parecido com o pai: pés do não, cabeça matemática e ares de preocupação. Miguel, por outro lado, era uma cópia exponencial dos sonhos de sua mãe. Poético, sonhador, guiado por uma imaginação às vezes irritante, brilhante, perigosa.

– Ele vai pirar – Denis meio que cochichou.

– Ele vai entender. Vai demorar um pouquinho, mas vai entender. Cuida dele. Eu mando notícias.

E depois disso virou-se e saiu andando. Não olhou para trás nem uma vez. E Denis ficou olhando até que o irmão desaparecesse depois da linha do horizonte. Ainda naquele dia, o velho João Gusmão ouviria do delegado que um sujeito de dezenove anos que resolve ir conhecer o mundo não pode ser dado como desaparecido ou sequestrado. E que o melhor a fazer era esperar que o garoto voltasse, porque a maioria deles volta depois do entardecer. Mas Miguel não voltou. Ou melhor, até voltou, mas muitos anos haviam se passado e a vida era tão diferente que parecia outra. E o seu João Gusmão da loja de peças levou alguns outros para entender como um sujeito que tinha passado em primeiro lugar na prova da faculdade federal de medicina podia simplesmente jogar tudo pro alto e... sair por aí com uma mochila nas costas para encontrar o destino.

– O que você quer ser então? – João havia perguntado, dias antes, quando o filho caçula disse que medicina não era para ele.

– Não sei. Acho que vou sair por aí e descobrir – e foi o que fez.


Podia ter dado certo, podia ter dado errado. Podia estar procurando até hoje o tal destino, sem saber de fato o que lhe chamava para a vida. Mas Miguel acreditava verdadeiramente que a gente nasce com um... chamado – e, claro, cada um tem o seu, não se esqueça! E se ele não aparece na primeira hora, você tem que procurá-lo. Tem que seguir adiante e tentar e tentar e tentar. E numa esquina dessas, você acaba descobrindo onde está o sujeito. Teve uma época, já na estrada, que achou que sua musa inspiradora era a busca. Não teria um ofício convencional – dono da loja de peças, doutor que cuida de crianças, contabilista como o irmão acabaria se tornando, gerente de banco... Por outra, achou a princípio que tinha um: seu ofício era conhecer o mundo.

E descobriu que não precisava de muita coisa para isso. Nos primeiros meses, ganhava algum trocado como frentista de beira de estrada, lavador de pratos em lanchonetes de paradas de ônibus lotados de turistas, ajudante de descarga avulso para caminhoneiros que precisavam... Não tinha um rumo certo. Juntava algum trocado, pedia demissão e seguia para o próximo posto. Do Rio, seguiu sua Magical Mistery Tour de carona em carona em caminhonetes velhas, caminhões de leite ou de material de construção, às vezes cruzando quilômetros a pé, sozinho com os pensamentos e com as rotas desertas ou tumultuadas do caminho; para não dizer que estava completamente a esmo por aí, seguiu para o oeste e ganhou o velho estado das Gerais trilhando a Estrada Real por cidadezinhas menores que o bairro onde seu pai morava.

Encontrava gente de toda a espécie. Adorava os causos dos velhos e foi de um desses que ouviu aquela versão sobre a verdade ser uma escultura de cera numa calçada, em pleno verão. Disseram que o velho dono do antiquário, ao lado da praça da matriz (e todas aquelas cidadezinhas tinham dezenas de igrejas, mas a matriz sempre era a maior e a praça sempre a mais cuidada), aquele com um relógio com números romanos em cima da porta, precisava de um ajudante. Quando chegou, o velho estava saindo da igreja. Parou perto do coreto e voltou-se. Fez o sinal da cruz e depois veio atender o jovem com aquela mochila enorme, parado na porta de sua loja.

– Acredita em Deus, Miguel? – o velho perguntou, uns dois dias depois; e já pareciam grandes velhos amigos como o garoto sempre foi do próprio pai.

– Estou tentando encontrá-lo – e o velho sorriu.

– Bom. Mas não se preocupe muito com isso.

– Como assim? Achei que ouviria um sermão agora...

– Miguel... você tem esse nome de anjo. Mas nomes não querem dizer nada. Nem religiões. Eu tenho a minha e posso apostar com você que ela é diferente da de todos os meus compadres de missa. Batemos no peito e declamamos o longo nome da Santa Igreja quando perguntam no senso, sabe. Vamos às celebrações dia após dia e ouvimos o padre toda manhã de domingo. Depois de um tempo, os sermões parecem até iguais. Mas a gente se acostuma. É meio que... que uma doutrinação. Mas eu aposto minha alma que a maneira como acredito... ela é apenas minha. Assim como a da dona Márcia da padaria ali na esquina. Ou do Zé Pedreiro. Ou da do prefeito, do professor Oscar (que adora dizer que é ateu, com o dedo em riste, mas ajuda na festa de São João como qualquer beata esforçada), da Odete (por quem já tive uma quedinha), da sua, da do próprio padre! Cada um acredita de um jeito.

– Mas adoram ensinar sua própria fé como se fosse uma verdade ímpar.

Estavam dentro da loja e Miguel ajudava o velho Tobias a retirar as relíquias das estantes e a colocar em caixas de madeira para serem transportadas até o pequeno galpão nos fundos. Iam fazer uma limpeza e tanto na loja, com água e sabão. E acabar com aquela poeira toda que estava entupindo as narinas dos clientes.

– Miguel... ela não vai resistir à minha morte. A minha fé... ela morre comigo. E quando eu chegar do outro lado, tenho certeza de que tudo o que senti por Deus nesta vida terá perdido o sentido como qualquer pedaço de lembrança que eu possa ter vendido aqui, na minha loja, para malucos procurando suvenires em caminhadas doidas nessa tal Estrada Real. Acho que a fé... a verdade... é um resquício do que nossa alma é capaz. Uma lembrança empoeirada. Mas veja o que acontece quando tiramos a poeira...

Ele pegou uma peça quadrada de cima da estante perto do balcão e limpou a poeira. Não era uma camada espessa. Mas a pequena caixa revelou-se um relicário de um colorido quase psicodélico.

– O que é?

O velho abriu a caixa. Não havia nada dentro.

– Pode ser o que você quiser. Tome. É seu.

– Obrigado.

– Portanto, não importa se já encontrou ou ainda está procurando. Uma hora dessas, virando uma esquina ou atravessado a rua, vai acabar dando uma topada Nele.

– Nele?

– Nesse Deus que procura. Ou no seu destino. Ou numa verdade nova e só sua.

Miguel passou três semanas ali e ajudou na festa de São João. Divertiu-se muito com o velho professor Oscar e suas teorias sobre alienígenas terem trazido a vida para a Terra. Foi embora numa manhã de segunda, de carona com o caminhão do parque de diversões que fizera a festa para as crianças da pequena cidade. Mas nunca os esqueceu, como nunca esqueceu qualquer pessoa naquele longo caminho.

Resolveu abraçar o destino que lhe aprouvesse. Mas esse... esse seria o seu destino e de nenhum outro, portanto não cabe explicá-lo aqui. E quando cumpriu seu papel e (como dizia seu pai) passou, muitos e muitos anos depois, tentando ensinar a liberdade para os netos e bisnetos (mesmo sabendo que a liberdade não se ensina, meu bem), passou acreditando de fato que tinha feito um bom trabalho; tinha caminhado todos os passos, um por um. E eram seus; sua trilha, seu caminho de verdades. E pediu ao Deus que encontrou depois de um tempo (mesmo tendo passado parte dele achando que o Tal talvez não existisse, mas sem deixar de rir quando lembrava-se das teorias do professor Oscar) que nenhum desavisado, ex-hippie investidor da bolsa ou gênio do marketing, tomasse emprestadas aquelas verdades e as distribuísse por aí. Eram suas e cada um tinha o direito e, acima de tudo, o dever de encontrar as suas. Não queria seu rosto estampado em camisetas de feira, como o velho Raul ou o pobre do Guevara.

Duas semanas depois disso, da morte do então idoso Miguel, seu neto mais novo pegou a estrada, tendo na mente aquela frase que o avô havia lhe dito numa tarde de sol, quando era ainda um moleque correndo atrás da bola no quintal da chácara:

– Estendi a mão para o destino, meu bem. Peguei minha mochila e fui para a estrada. Ter coragem de seguir para o desconhecido (e na verdade, todo e qualquer caminho, mesmo as ruas do seu bairro... elas são desconhecidas e novas a cada segundo) é o sinal de que o mundo de verdade é uma viagem sem volta.

– Papai disse que o senhor nunca brigou com o bisa. Disse que o bisa era um vô muito legal. Por que então fugiu de casa?

Miguel sorriu. Ia explicar que não tinha fugido de fato. Tinha apenas seguindo um rumo diferente do que esperavam que ele seguisse. Mas deu de ombros. O garotinho de cabelos escorridos e os olhos claros da mãe teria que descobrir isso sozinho, com o tempo; com o seu tempo.

– Porque pra ser feliz, meu amor... você precisa sonhar seu próprio sonho.

...

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