• Jefferson Sarmento

A lista de Schindler


A obra prima dramática definitiva de Steven Spielberg teve início em 1963, quando o sobrevivente Poldek Pfefferberg tentou convencer a Metro Goldwyn Mayer a fazer um filme sobre seu salvador, Oskar Schindler. Apenas em 1982, depois que Thomas Keneally publicou Schindler’s Ark (romance em que o filme é baseado) é que Steven Spielberg entrou na história. Por intermédio de um conhecido que lhe enviou a resenha do The New York Times sobre o livro.

Embora o interesse de Spielberg pela surpreendente história de um nazista que salvava judeus do extermínio tenha levado a Universal a comprar os direitos do livro, o cineasta não se sentia nem um pouco competente para levar a história para as telas. Durante anos, ainda que envolvido com o projeto, negociou e tratou com cineastas como Roman Polanski (que vivera quando criança nos guetos da Cracóvia e cuja mãe morreu em Auschwitz), Sidney Polack e Martin Scorsese.

Dez anos depois de conversar pela primeira vez com o sobrevivente Poldek Pfefferberg, Steven Spielberg decidiu-se por dirigir A Lista de Schindler – como uma espécie de resgate de sua própria cultura, da história de seus pais e como legado para os filhos em crescimento. A Guerra da Bósnia, o aumento da intolerância entre povos do leste europeu, o surgimento de simpatizantes neonazistas que negavam o holocausto... Para Spielberg, aquele era o momento de contar aquela história.

Bem... quase. A Universal aceitou bancar o filme, desde que Jurassic Park fosse dirigido primeiro. O próprio cineasta mais tarde reconheceria que, se tivesse filmado Schindler’s List antes, não teria conseguido fazer o filme com os dinossauros à solta no parque.

Para contar a história de Oskar Schindler e seus judeus, Spielberg utilizou locações reais e trinta mil figurantes – entre eles filhos dos judeus sobreviventes diretos da atuação de Schindler. Durante pouco mais de setenta dias, filmou e sofreu violentamente a História que conta parte do holocausto quase como um documentário, revendo as técnicas que sempre usou em seus outros filmes, descobrindo para si um estilo seu, pessoal e único. A Universal insistiu que fossem feitas cópias em cores, mas o cineasta se negou: ele queria a crueza, a atemporalidade e a dor que o preto e branco traz – o que deu um bocado de trabalho para seus técnicos de sempre, acostumados à explosão de cores de seus filmes. E, naquele mar de tons de cinza, uma garotinha de vermelho que está lá para representar a mudança brutal de seu personagem principal: do Oskar Schindler nazista que pouco se importava com os judeus e tinha neles uma mão de obra escrava para manter sua boa vida... ao ser humano cortado pela dor de toda a destruição de vidas ao seu redor.

Membro do Partido Nazista, Schindler (Liam Neeson, num papel cortejado por Mel Gibson, Kevin Costner e Warren Beaty – preterido porque Spielberg não acreditava que ele pudesse representar com o sotaque correto) se aproveita da guerra e da miséria dos judeus poloneses para abrir uma fábrica de panelas, mesmo sem ter um mísero tostão. Usa de sua influência e charme bufão para cortejar membros da SS e do exército alemão. Ele negocia no mercado negro e com judeus que escondem dinheiro e veem nele uma chance de não perderem tudo. Com a ajuda de Itzhak Stern (Bem Kingsley), um membro respeitado do Conselho Judeu, Schindler começa a fazer dinheiro mais que suficiente para manter sua vida frívola, luxuriosa e desapegada. Stern administra os negócios (e tenta salvar quem pode, tirando velhos, mulheres, crianças, profissionais considerados desnecessários – como músicos, professores... das listas de extermínio), enquanto seu Direktor serve apenas como um rei de fachada, fazendo discursos e dando festas e suborno aos montes.

Com a expulsão dos judeus do gueto (com a caça e extermínio explícito e doloroso, frio e desumano) e a chegada do Tenente Amon Göth para a supervisionar o campo de concentração de Plaszów, Schindler se vê obrigado a negociar seus lucros e a vida de seus operários – gente que credita a ele a chance de ainda estarem vivos. A loucura de Göth (interpretado de uma maneira tão visceral por Ralph Fiennes que uma das sobreviventes – Mila Pfefferberg – começou a tremer quando o viu) é um desafio à parte para Schindler, que usa de sua persuasão e charme, sua astúcia e conhecimento do ser humano (afinal, Oskar revela-se, desde o início, um enganador, um bajulador nato) para conduzi-lo, encaminhar e influenciar seus atos.

O terceiro ato do filme com mais de três horas de duração traz a Solução Final para os olhos horrorizados do público e do já combalido e mudado Oskar Schindler: Göth o avisa que o campo será fechado e os judeus serão encaminhados para Auschwitz, para serem exterminados nas câmaras de gás. É quando toda a violência do filme goteja lenta e metodicamente em lágrimas. Da negociação de Schindler para comprar seus judeus, das mulheres e crianças abraçando-se nuas no chuveiro coletivo, à espera do gás mortal que acabará com suas vidas, do choro sofrido de Schindler porque poderia ter comprado mais dez pessoas com seu carro. Ou duas... ou uma com seu broche...

É quando perguntamos: por que nós, seres humanos, cometemos barbáries inumanas assim? Será que temos alguma chance? Haverá um Oskar Schindler que seja no mundo que possa nos resgatar?

Steven Spielberg declarou várias vezes que filmar A Lista de Schindler foi doloroso e cruel, que não houve um só dia em que não caíssem em lágrimas e que não precisasse de sua família e amigos (um deles Robin Williams, que ligava constantemente para contar piadas e elevar o moral de seu amigo). Depois de 1993, Steven Spielberg só voltou a dirigir em 1997 (Amistad), outro drama histórico premiado e denso.

Creio que A Lista de Schindler seja um filme necessário para os dias atuais, para revermos nossas intolerâncias de estimação – aquelas que não enxergamos no dia a dia e justificamos com crenças que de tão enraizadas parecem verdades absolutas e inquestionáveis. É hora de olhar o mundo caótico em que vivemos, mas também nossas atitudes e gritos raivosos contra nossos inimigos que escolhemos (sejam muçulmanos, favelados, petistas, tucanos, policiais... a lista é infindável) com tanta convicção!

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