• Jefferson Sarmento

"Ler" vem em primeiro


É o primeiro ato, a primeira manifestação da inteligência; pelo menos como a concebo. Primeiro lemos, para só depois processarmos e devolvermos para o mundo o que aprendemos – ou o que acreditamos ter apreendido.

Não estou falando ainda da capacidade de concatenar símbolos e decifrar um texto, mas da nossa percepção de mundo. Aprendemos, antes de tudo, a ler o mundo ao nosso redor e os sinais que ele nos remete. Ler nas nuvens que o dia está para chuva; no rosto da mãe o amor incondicional; nos carros passando o risco de se atravessar a rua; na marcha da existência a indefectível lei de causa e efeito.

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A maioria das mensagens e perguntas que recebo, por email ou por redes sociais, nas palestras em que costumo falar sobre criação literária ou até nas rodas de amigos trocando conversa, é de pessoas que buscam uma fórmula para o que eu chamo de “o ofício”. Gosto particularmente de chamá-lo assim porque essa palavra me dá a sensação de trabalho de artífice. Embora eu não seja exatamente um obreiro tecendo as ideias de outros, gosto de pensar que sou eu executando meus próprios pedidos vindos da Terra da Imaginação – na minha oficina de ideias, letras, palavras e frases.

A maioria dessas pessoas, as que me perguntam sobre o que é preciso, como se é, do que se forma um escritor, carrega mais que curiosidade na pergunta. São imaginadores como eu mesmo fui, sou. São apaixonados pelo ofício de escrever como eu, buscando caminhos e dicas e toda sorte de informações que se possa colher: antes de se sentar na frente de uma tela em branco para descarregar as histórias.

Essa carga que a pergunta traz carrega também uma responsabilidade com a qual é preciso se ter todo cuidado e zelo. E eu não poderia começar minhas respostas por um caminho diferente: há que se ler! “Ler” vem em primeiro de tudo. Vem antes, até, do que a imaginação.

Ler o mundo, ler a ordem dos acontecimentos, a matemática dos dias, os humores das pessoas que nos cercam, os fatos e histórias que nos emocionam (em toda gama de emoções que, humanos, somos jogados sem muita interferência da razão), nossas próprias virtudes e covardias. Ler, antecede tudo.

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Já contei antes, várias vezes, como surgiu minha paixão pela leitura e, no degrau seguinte, minha compulsão por imaginar histórias, escrevê-las ou contá-las. Mas vai aqui um resumo: muito antes de saber o que era ler (e aqui sim me refiro a ler e escrever, ao ato de decifrar o alfabeto e entender as palavras e frases que nascem dele), fui um garoto correndo pela casa para ganhar a rua e ir brincar no barro da chuva.

Morávamos ao lado da casa dos meus avós, num bairro afastado do centro da cidade. Passava pela sala de estar onde minha mãe estava invariavelmente mergulhada num pacotinho de folhas, deitada no sofá, vigiando com os ouvidos os barulhos da panela lá na cozinha. Dali, eu ganhava as brincadeiras da rua, os moleques descendo a ladeira em carrinhos de rolimã ou construindo represas de pedras e tábuas na água da enxurrada.

Às vezes, quando minha avó não estava fazendo doces que estendia feito tapetes sobre a mesa de madeira da cozinha, eu ia perturbá-la no quarto dos fundos de sua casa, onde pedalava uma máquina Singer velha com que fazia tapetes, cobertas, remendos... Passava horas ouvindo suas histórias e causos que contava de ter ouvido antes – ela nunca aprendeu a ler, mal sabia escrever o nome, garranchando com dificuldade um Maria que teimava em tentar às vezes. Uma e outra fábula, mais outra anedota com o Jeca Tatu ou Pedro Malazarte... Nem era uma gama tão grande de histórias que sabia. Mas aquelas poucas me deixavam extasiado!

Cresci, aprendi a ler na segunda série e descobri que aquelas histórias (e milhares de outras – milhões, bilhões!) na verdade vinham em pacotinhos de páginas! Iguais àqueles que minha mãe folheava no sofá da sala.

Li no mundo, no meu cotidiano de garoto correndo pelo quintal, que os livros existiam para nos guardar as histórias para o momento em que quiséssemos ouvi-las/lê-las.

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Ler é muito mais que decifrar as palavras, letras, símbolos. É o entendimento que tiramos disso – e da leitura que fazemos do mundo, de seus sinais claros ou escondidos nas entrelinhas da realidade. E não consigo conceber coisa mais importante que a leitura na formação de qualquer profissional, mas essencialmente em um que se atreve a escrever.

Portanto, o que posso dizer sobre o primeiro passo é: leia! Leia de tudo! Leia sempre. Leia, leia, leia! Livros, jornais, revistas, quadrinhos, bulas, artigos... Leia o mundo ao redor, as fisionomias das pessoas, as reações a cada reviravolta, a direção dos ventos e dos acontecimentos.

Leia do que e como as coisas são feitas e medidas. Leia as causas das guerras, dos amores, das crises e vitórias. Leia sobre quem te escreve e conta suas versões. Leia quem inspira quem te inspira.

Leia para se alimentar do mundo, porque só assim poderá alimentá-lo de volta.

Leia, porque “ler” vem primeiro.

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