• Jefferson Sarmento

Faz de conta que...


Você não pode alcançar o infinito por detrás dos olhos de uma criança. Se somos mais de sete bilhões delas espalhadas por este globo (porque, no fundo, somos todos uns pirralhos que não entendem nada, mas cheios de pirraças e olhos curiosos), imagine aí que são sete bilhões de infinitos dentro da eternidade dos nossos pensamentos.

Estou falando daquilo que desconstrói e ergue mundos, cria vidas e seres inexistentes, dores e sentimentos que, de tão bem elaborados, tornam-se reais. Pelo menos para aquele que os inventa. Que os... imagina!

Isso. Estou falando da imaginação.

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Acredito que não exista nada mais perverso neste mundo do que limitar a imaginação. Mas há quem o faça, como se se tratasse de uma espécie de falha no sistema: criada a natureza racional do homem, o cérebro acabou por apresentar esse efeito colateral que distorce, inventa, ameaça e deturpa a realidade.

Mas que diabos é a realidade senão o resultado do imaginário planejado a quatorze bilhões de mãos? Reinventada a cada segundo por nossos desejos, nossos medos, nossas impressões. A realidade, eu me atrevo, é a imaginação que deu errado, escapou sem nossa permissão e se misturou à matéria, jogando na nossa cara o que seria do mundo se cada um de nós fosse um deus criador de vida, fundado nos nossos achismos e egoísmos.

Nesse contexto, a realidade é o resultado das nossas tentativas de aprisionar a imaginação, de trancá-la no porão mais escuro e úmido da razão. Mas, queridos, ela escapa. A imaginação é poderosa sozinha, sem precisar de nós, pobres idiotas que temos o atrevimento de tentar podá-la. A imaginação é o espírito livre experimentador, anterior ao que estabelecemos como cultura – arte, religião, conhecimento, doutrinas, leis... Ela estava aqui, no germe animal que nos iniciou, antes de tudo o que inventamos.

Tentar prendê-la e domesticá-la tem o resultado trágico de um animal feliz que brinca na grama do jardim e, em seguida, é condenado a uma jaula úmida debaixo da escada.

Ela vai te atacar quando você menos esperar.

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Crianças, alimentamos nossa imaginação com a leitura do mundo, como uma resposta só nossa para as coisas que se nos apresentam. Ela é um retrato do que poderia ser, do que desejamos ser, do que sonhamos ser. Mas, às vezes, até do que não queremos.

Leva um tempo para conseguir separar a imaginação como instrumento das nossas vontades e desejos daquela que nos cerca de medo e receio. Leva um tempo para entender o que fazer com ela – para perceber que ela é nossa aliada e não um entrave (um erro de programação do Criador supremo, que maquinou hardware e software humanos com a perfeição da imperfeição) para o mundo em que precisamos viver, ganhar a vida, o dinheiro, o pão, o respeito.

A imaginação, irmã mais velha da criatividade e precursora da evolução humana, é talvez a ferramenta (a arma, a alavanca) mais forte e poderosa de que dispomos para atravessar nossa jornada. Como instrumento, deve ser livre como é por detrás dos olhos daquela criança que tentamos entender lá em cima.

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A criança cria mundos em sua mente. Viaja por eles reconstruindo o que quer, subvertendo suas regras e imponto novas. A imaginação é a semente da criação e, havendo mesmo um Criador, aposto que a deixou de propósito dentro de nossas mentes, para que possamos, de alguma forma (mesmo que incompleta), tocar sua essência, seu poder de... construir.

Assim, faz de conta que somos Deus!

Esqueça o conceito de heresia por alguns segundos, porque ele não cabe aqui. Não haveria escritores ou poetas se eles não pensassem ser onipresentes, oniscientes e onipotentes. Pelo menos dentro do multiverso infinito por detrás dos olhos de uma criança.

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