• Jefferson Sarmento

1985 (ou... o que eu reservei para você no meu relicário particular)


Olha só, você voltou! Sente-se, vamos conversar mais um pouco.

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Acho que é justo que a primeira coisa a lhe dizer seja: Relicário da maldade não é uma história exatamente honesta. Ela é fruto da paixão, o que significa dizer que é tendenciosa – não no sentido doutrinário da palavra. Não quero que você acredite nisto ou naquilo. Não, de jeito nenhum. Quero apenas que se divirta, porque eu me diverti horrores escrevendo essa história.

Pra começo de conversa, o que você vai ler no Relicário começou como um conto. Terminava pouco antes do fim do primeiro capítulo e tinha aquele título mesmo: O relicário de Augusta Dummont. Mas quando fui fazer a uma das últimas revisões... bem...

Quando notei de fato aquele relicário, percebi que havia mais ali do que uma história sobre três garotos tropeçando num baú de horrores e se livrando facilmente.

Outra coisa que percebi foi que, instintivamente, enquanto escrevia, aqueles velhos filmes da década de 1980 (os meus anos incríveis!) pareciam me chamar no aparelho ali da sala. Acabei revendo pérolas passageiras e divertidíssimas daqueles anos criativos e meio sem limites. Estou falando dos filmes de terror e ficção científica que, sem nenhuma pretensão psicológica ou longe de propor um tratado sobre o medo como fonte antropológica, nos faziam pagar o cinema ou o aluguel da fita VHS na locadora só pela diversão. E havia uma enxurrada deles!

Critters, Viagem ao mundo dos sonhos, A bolha assassina, O ataque dos vermes malditos, A hora do arrepio, a do pesadelo e a do espanto, Gremlins! Ir ao cinema era uma aventura escapista deliciosa e destituída de qualquer pretensão intelectual mirabolante – nós nem nos considerávamos nerds por gostarmos de livros e filmes ao invés de noitadas e esportes. Aliás, o termo nerd hoje ganhou um status que eu, sinceramente, não sei se compreendo ou mesmo gosto. Parece uma coisa meio fabricada, uma espécie de profissão.

Sinceramente, não sei se gosto disso, do rótulo acima da diversão. Quando um sujeito aqui perto bate no peito e se diz nerd, fico com a impressão de que ele não tem muito entendimento emocional do que isso quer dizer.

Eu, pelo menos, não tenho. Não que eu seja ou não, mas não me faz diferença. O que me excita é... uma boa história, ainda que ela seja uma enganação completa.

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Relicário da maldade foi escrito em vinte e cinco noites (e três fins de semana) ininterruptas de trabalho gratificante, realmente divertido. Se você está aí querendo me perguntar se tinha alguma noção do que estava fazendo, preciso ser mais sincero ainda com relação a isso: não.

A história foi que me carregou. Cheguei a tentar planejar um ou outro capítulo, mas no fim das contas, no meio das anotações, mudava de rumo feito um sujeito perdido na floresta – bem, acho melhor subir aquele morro ali e tentar ver a cidade mais próxima. No fim das contas, ele conta mais com a sorte que com sua própria perspicácia.

Mas, quer saber, eu precisava disso. Quando terminei “Alice em silêncio”, mergulhei numa maratona dificílima com “Do fundo do poço escuro” – ainda preso nas engrenagens de edição, mas você vai ver do que este se trata em breve. Foi uma história que me tomou muito tempo, escrevendo, reescrevendo, editando, deletando, suprimindo, aumentando, diminuindo...

Quando digo que precisava do “Relicário da maldade”, quero que entenda que às vezes precisamos de um lanche delicioso entre uma refeição completa e outra. Em qualquer dieta que se prese, o Dia do Lixo é uma necessidade estrutural!

Encare o “Relicário” como o melhor x-tudo que você poderia comer depois de uma semana de alimentação pensada, balanceada e focada em objetivos. Com isso quero dizer que, em se tratando de uma história menor, de terror do tipo inofensivo, não estamos falando de um tratado sobre o medo, mas de... diversão.

Ei! Há quanto tempo não lê uma história só pra se divertir?

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"Relicário da maldade" se passa ano meio da década de 1980 e esta aqui foi uma oportunidade ímpar de rever as velhas canções que passávamos horas ouvindo no aparelho 3 em um da sala, com uma fita basf no deck pra tentar gravar uma boa sequência. Mas o diabo do locutor sempre soltava uma frase sacana na introdução ou no finalzinho da música.

Esqueça os Spotify da vida. Não havia Youtube. Se você queria ouvir o que estava fazendo sucesso de verdade, tinha que ligar o rádio na melhor FM que pudesse, assistir ao Cassino do Chacrinha no sábado ou visitar as lojas de discos.

Logo no começo da história, estava ouvindo uma playlist no celular e procurando filmes legais no Google (outra dessas maravilhas da modernidade! Deus, estou ficando tão velho!) para tirar o pó da memorabília oitentista, quando Léo Jaime começou a tocar “As sete vampiras” na caixa de som. Tema do filme homônimo dirigido por Ivan Cardoso – lançado apenas em 1986, preciso reconhecer – é um digno integrante nacional dos filmes de terror despretensiosos e cheios de humor que os anos oitenta traziam.

E foi assim que nasceu a personagem Hellen, a radialista namorada ou noiva do Delegado José Alceu – que não é nenhum herói aqui, porque naqueles filmes, herói de verdade não tinha mais que quinze ou dezesseis anos! E, como eu tinha treze em dezembro de 1985, deixei para os três garotos da Rua Dez a responsabilidade por tudo.

Hellen foi minha chance de colocar na história pelo menos uma dúzia de músicas divertidíssimas que eu adorava ouvir no 3x1 lá de casa. Léo Jaime, Kid Abelha, RPM, Oingo Boingo, Queen, Katrina and The Waves, A-Ha... Metrô, Lulu Santos, Rita Lee, Raul, Barão, Legião, Genesis e Phil Collins, Heart, Tears For Fears, Dire Strais!

Mas não se engane. Embora uma boa trilha sonora seja essencial num história assim, os adultos não são o elemento central. São até descartáveis, às vezes. Estão mais para o arcabouço ao redor de onde a história se constrói. Eles não vão levar a melhor. Se tanto, vão sobreviver.

No fim das contas, toda a culpa e agradecimento recai sobre o garoto sonhador que eu mesmo fui. Que vários de nós, daquele período meio louco e sem noção (onde apresentadoras de programa infantil ficavam seminuas na telinha e a gente comprava na cantina do colégio um chocolate chamado em forma de cigarro que tinha um garoto fingindo fumá-lo na embalagem), fomos.

Lembro de uma pergunta feita pela minha esposa quando leu a história pela primeira vez, quando ainda era apenas um conto. Ela estava com a testa enrugada e os lábios espremidos. Tinha terminado de ler “A menina que fotografava estranhos” e passou para “O relicário da Senhora Dummont” a seguir, fechando com a seguinte questão:

– Você é doido?

Ao que eu respondi apenas com um sorriso que dizia: sim, eu sou um daqueles garotos de óculos carregando livros de terror na mochila e que salvam a Terra de uma invasão alienígena ou a garota mais bonita do colégio de uma horda de vampiros zumbis!

Boa leitura!

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