• Jefferson Sarmento

Livros de contos


- Qual foi a última vez que você entrou numa livraria para comprar um livro de contos?

Especificamente um livro de contos...

Quantas vezes você fez isso?

Quantos livros de contos você tem aí na sua estante?

- Eu sinceramente acho que existe uma espécie de preconceito velado com os livros de contos.

Da última vez que eu comprei um livro de contos (Escuridão total sem estrelas, do Stephen King), o rapaz do caixa chegou a perguntar se eu sabia que aquele era um livro de contos. E olha que eu entrei para comprar aquele livro, porque tinha acabado de assistir ao filme 1922 e queria conferir o texto original.

E você? Pensou na minha pergunta? Quantas vezes você entrou numa livraria em busca especificamente um livro de contos?

É mais comum nós entrarmos numa livraria atrás de um romance novo, aquele que todo mundo está lendo e falando, de uma série que gostamos...

Meu caso é até mais complicado: costumo entrar na livraria sem saber o que comprar. E sair de lá com dois, três, quatro... romances!

Sei lá... eu me vejo cercado por estantes abarrotadas de livros e acabo me sentindo como se estivesse num restaurante chique e precisasse de um jantar sofisticado, cheio de acompanhamentos que combinam, talheres específicos para cada tipo de carne...

Então, às vezes eu preciso me dar alguns argumentos para mudar um pouquinho esse hábito.

Um conto é pedaço de realidade – ainda que uma realidade fantástica inventada pelo escritor. Numa história curta, o seu envolvimento pode ser mais ágil e direto, sem deixar de ser profundo, sem deixar de ser interessante – pelo contrário, pode ser uma experiência de supernova, feito um clarão intenso de alguns minutos.

- O fato é que nós vivemos uma vida tão corrida e cheia de compromissos, horários... Às vezes, nem nos damos conta de que aquele romance que queríamos tanto ler acabou fazendo volume na estante ou na cabeceira da cama.

- Baseado nisso, gostaria de te fazer um convite, o primeiro desta conversa aqui: que tal se programar para comprar um livro de contos na próxima visita à livraria? E passar a carregar esse livro aí na bolsa ou na mochila, para uma espécie de... lanchinho rápido enquanto espera o ônibus chegar, a fila da consulta terminar, o sono de te pegar!

Eu garanto que você não vai se arrepender.

Mas me deixa esmiuçar um pouco mais dessa mágica escondida dentro das histórias curtas.

- O escritor uruguaio Horácio Quiroga, especialista em contos (todos meio fantásticos e macabros, bem ao estilo Edgar Allan Poe), publicou em 1927 uma espécie de fórmula, de receita do que um bom contista deve ter em mente para escrever sua história. Ele chamou esse passo a passo de “O Decálogo do Perfeito Contista”.

São dez mandamentos simples, que fazem todo sentido para quem escreve, mas também para quem lê histórias curtas.

Eu prometo que, um dia desses, falo especificamente do decálogo e da obra desse escritor fantástico. Mas hoje fico só com oitavo mandamento, porque ele resume para mim o que é um conto, o que são essas histórias curtas:

“8 - Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o final, sem atentar senão para o caminho que traçaste. Não te distrai vendo o que eles não podem ver ou o que não lhes importa. Não abusa do leitor. Um conto é uma novela depurada de excessos. Considera isso uma verdade absoluta, ainda que não o seja.”

Minha seleção de livros de contos

- Daí que resolvi selecionar aqui da estante 3 livros de contos para apresentar para você. Na verdade, espero que já tenha lido todos – e, se leu, deixa aí nos comentários o que achou de cada um.

- Edgar Allan Poe

A editora Darkside publicou este ano essa edição lindíssima com alguns dos melhores contos de Edgar Allan Poe.

São quinze histórias do mestre do macabro, divididos em temas recorrentes nas suas histórias, como “Narradores homicidas”, com o clássico “O Gato Preto”; 3 histórias do “Detetive Dupin”, incluindo Os assassinatos da Rua Morgue”; e terminando com um verdadeiro tratado sobre o poema “O Corvo”, com a versão original em inglês e 2 traduções distintas: a de Machado de Assis e a de Fernando Pessoa.

O livro vem com a sutil promessa de que veremos um segundo volume em breve, com outros trabalhos de Edgar Allan Poe. Quem sabe com o conto “O Sistema do Dr. Tar e do Professor Fether”, inspiração direta para “O Alienista”, de Machado de Assis.

- Tripulação de esqueletos, de Stephen King

Está aqui o primeiro livro de contos que comprei na vida, ainda numa época em que eu não tinha muita noção de quem era Stephen King – só tinha lido (ou melhor, devorado “Cemitério” e “O Iluminado”).

Comprei “Tripulação de Esqueletos” sem saber que se tratava de um livro de contos. Percebi isso quando estava no ponto de ônibus, sentado e folheando a “Introdução”, uma das marcas registradas de Stephen King – que é quando ele conta, de uma maneira bem informal e envolvente, de onde surgiu o livro, como pensou nesta ou naquela história.

Pois olha que, nesta introdução, logo no começo, antes e falar de como cada conto foi escrito e por quê, Stephen King relata a conversa com um amigo em que assume que seus romances e novelas estão dando muito dinheiro, obrigado, mas os contos... não.

Olha que esse preconceito que nem reconhecemos não é prerrogativa dos tupiniquins!

Tripulação de Esqueletos é uma compilação que trouxe contos escritos desde antes de o escritor ir para a faculdade, cobrindo 16 anos de trabalho – ou seja: estão ali algumas de suas primeiras histórias (que escaparam da coletânea anterior, o livro de contos “Sombras da Noite”, com histórias até mais cruas e viscerais).

A novela “O Nevoeiro”, que abre “Tripulação de Esqueletos”, foi adaptada tanto para o cinema (por Frank Darabond, com um final chocante e corajoso), quanto para a televisão (mas o seriado era chinfrim demais e já foi cancelado).

Também desta compilação foi adaptado o conto “A Balsa”, que entrou como uma das histórias do segundo filme Creepshow, de 1987, que eu considero como uma das melhores adaptações de seus contos.

Meu exemplar está assim meio gasto, bem surrado, já tive que colar a capa e a lombada... Mas você pode encontrar por aí a versão novinha, da editora SUMA. Eu recomendo com todo gosto.

- Por fim, fugindo completamente da linha do fantástico e do sobrenatural... “A vida como ela é”, do Nelson Rodrigues.

Várias das histórias dessa edição de 2006 da editora AGIR foram adaptadas para o seriado narrado por José Wilker – o fato é que eu leio os divertidíssimos textos do autor mais pornográfico e reacionário que o Brasil já teve e, para mim, ele tem a voz cínica do Roque Santeiro.

Sou um fã ardoroso de Nelson Rodrigues – quem não é? Machista, sexista, preconceituoso... Fosse vivo hoje, seria execrado, excomungado pelo politicamente correto. Mas foi um dos sujeitos que melhor transformou o cotidiano carioca em histórias verossímeis, às vezes com o exagero do sotaque arrastado e puxado no “s”, e outras com uma impensável (seguindo-se todas as regras da escrita, aquelas que dizem que precisamos economizar nos adjetivos) superlatividade.

Para ele, a mulher não precisa ser apenas digna, mas digníssima! O morto não está apenas morto, mas mortíssimo! Uma hora inteira não transcorre como um intervalo de sessenta minutos, mas como uma hora MACIÇA!

Nelson Rodrigues é tão contundente no que escreve, em seus personagens e situações cotidianas, que você termina de ler uma tragédia com um sorriso divertido no rosto. A cena, a história é de uma violência possível chocante; mas a narrativa é deliciosa, envolvente, divertidíssima!

Como o trecho final do conto “O Plural”:

“Segundo o De Paula, Ada encontrava-se com o amante três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas, num edifício de quatro pavimentos. Era uma terça-feira e Quintanilha teve que esperar ainda 24 horas. Advertira, porém, o miserável: "Não adianta fugir, porque eu te matarei ainda que seja no inferno!" O canalha quis saber: "E se eu provar? Não farás nada?" Jurou: "Nada!" Ficou assim combinado. Na tarde seguinte, do interior de um táxi, e na companhia do abjeto De Paula, Quintanilha viu a esposa descer de outro táxi, com um homem, e entrar no edifício. De Paula vira-se para ele numa euforia hedionda: "E agora? Estou livre?" Quintanilha nega:

— Ainda não. Tu disseste que minha mulher tem amantes. Por enquanto, eu conheço um. Quero os outros. De Paula tem um esgar de choro:

— Mas é só um! Só tem esse! Só tem esse amante!

Rápido, Quintanilha o abotoa:

— Se tem um, apenas um, por que disseste que minha mulher tem amantes? O que eu não te perdoo é o plural. Vais morrer por causa desse plural!

Ali mesmo, deu-lhe dois tiros.”

Um pouco de “Noites de tempestade”

Por fim, preciso deixar aqui mais dois convites:

Primeiro, para você conhecer alguns dos contos da coletânea “Noites de tempestade”. Embora eu me veja muito mais como um escritor de histórias longas, de romances, às vezes tropeço numa pedra e... olha só, acabo esbarrando numa história rápida e cínica o bastante para merecer algumas páginas.

“Noites de tempestade” é um projeto bastante especial para mim, por unir duas das minhas maiores paixões: a música e a literatura. Cada conto da coletânea acompanha uma canção que compus e gravei – em alguns casos, a música inspirou o conto; em outros, acabei musicando a história com o que ela tinha na essência.

Faça lá uma visita na página de contos do meus site (www.jeffersonsarmento.com.br/contos) e baixe gratuitamente os contos disponíveis.

Ou o arquivo mp3 com a narração!

Fica disponível no mesmo lugar para você fazer download e sair escutando tanto o conto quanto as músicas no seu celular; enquanto faz sua caminhada, dirige ou mata o tempo no sofá da sala.

E, por último: clica aí no botãozinho de curtir (só leva um segundinho) e deixe nos comentários a sua relação com contos e livros de contos, ou sobre os melhores que já leu, os autores que prefere...

E não se esqueça de procurar um livro novo de contos da próxima vez que entrar na livraria!

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