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Onde nascem as histórias?


- Se existe uma pergunta que sempre ouço quando alguém termina de ler um de meus livros é: de onde você tira essas ideias?

Pois me deixe dizer que, às vezes, a história por trás de um bom livro pode ser tão interessante e dramática – às vezes misteriosa e traiçoeira – quanto aquela montada pelo quebra-cabeças de letras que formam palavras, que formam frases e parágrafos, que se transformam em capítulos e nos fascinam.

Senta aí. Vamos conversar sobre “Dália negra”, o livro de James Ellroy que o tornou respeitado pela crítica.

Dália negra – James Ellroy

James Ellroy já havia publicado 3 livros antes de se debruçar sobre o assassinato de Elizabeth Short para criar uma história de ficção cuja cama foi um dos crimes mais chocantes dos Estados Unidos, considerado pela revista Times um dos mais brutais do mundo.

Elizabeth Short

O corpo de Elizabeth Short foi encontrado por uma mulher e sua filhinha de apenas 3 anos na manhã de 15 de janeiro de 1947, num terreno baldio bem perto da calçada de uma avenida pouco movimentada, num bairro complicado da Los Angeles do pós-guerra. Ele foi mutilado e cortado ao meio, na altura do estômago, parecia ter sido posicionado de forma teatral. As laterais de sua boca foram cortadas até perto das orelhas, como se imitando um riso...

Um verdadeiro exército de policiais e jornalistas trabalhou no caso por meses. 150 suspeitos foram investigados ao longo dos anos. Várias teorias, especulações e ilações sobre o estilo de vida de Elizabeth, sobre a semana que antecedeu sua morte (ela permaneceu desaparecida entre 9 e 15 de janeiro) e o assassinato em si foram propostas, inventadas, comprovadas e outras descartadas... Os jornais passaram a chamá-la de Dália Negra nas manchetes (trinta e cinco dias seguidos de título principal nas primeiras páginas) – e aqui há uma confusão sobre os jornalistas terem inventado o apelido ou terem apenas usado o que os funcionários e clientes de uma drogaria de Long Beach deram a ela, por conta do filme The Blue Dahlia, de 1946, com Veronica Lake e Alan Ladd.

Veronica Lake, aliás, é citada em Los Angeles: Cidade Proibida, que James Ellroy publicaria 3 anos depois de Dália Negra – o terceiro da Quadrilogia de Los Angeles. É a atriz cuja personagem Lynn Bracker é sósia – na trama daquele livro, que virou um dos melhores filmes do gênero noir de todos os tempos, dirigido por Curtis Hanson, Lynn faz parte de uma cadeia de prostituição cujas garotas fazem até plástica para se parecerem com atrizes famosas. Rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante para uma inspiradíssima Kim Bassinger.

Mas voltando a Elizabeth Short...

Era a terceira irmã, de um total de cinco garotas, cuja pai foi atingido em cheio pela crise de 1929, tendo o carro sido encontrado abandonado na Charlestown Bridge, em Boston, na costa leste americana. Cleo Short foi dado como morto por suicídio, mas anos depois contatou a família, dizendo estar arrependido de tê-los abandonado, e que estava morando em Los Angeles.

Entre idas e vindas, Elizabeth chegou a morar com o pai, mas se desentendiam muito e constantemente, e ela o deixou. Trabalhou aqui e ali e talvez tenha sido aspirante a atriz, mas nunca fez trabalho algum. Especulou-se que se prostituía, que tinha vários namorados, que talvez fosse lésbica, que costumava instigar e descartar os homens...

Ao longo da investigação, várias pessoas assumiram o crime, algumas mandaram cartas anônimas aos jornais, com palavras recortadas de jornais e revistas e coladas em papel ordinário. A imprensa especulava sem fundamento e a polícia não contestava – porque isso servia para descartar aquelas confissões que não batiam com os fatos realmente constatados.

Na primavera de 1947, o caso foi classificado como “cold case”. Foi mexido e remexido algumas vezes ao longo das décadas, mas nunca se chegou a conclusão alguma.

Mas o que levou Lee Earle "James" Ellroy a usar o assassinato de Elizabeth Short como base para seu livro?

Geneva Odelia Hilliker Ellroy

James Ellroy nasceu um ano depois da morte de Elizabeth Short, filho de um contador e ex-gerente de negócios da atriz Rita Rayworth e uma enfermeira chamada Geneva Odelia Hilliker Ellroy. Depois que os pais se separaram, o garoto foi morar com a mãe em El Monte, a leste de Los Angeles.

Na manhã de 22 de junho de 1958, quando o garoto tinha dez anos, o corpo de Geneva (Jean para os amigos e familiares), foi encontrado por um grupo de treinadores e jogadores infantis de baseball, num terreno baldio perto do campo onde iam treinar. Ela foi estuprada e morta. E o crime também nunca foi solucionado.

Dália negra

James Ellroy publicou Dália Negra em 1987, e abre o livro dedicando a história a sua mãe:

"A Geneva Hilliker Ellroy 1915-1958: vinte e nove anos depois, essa despedida de sangue".

Embora use o assassinato de Elizabeth Short como base para sua história (e como uma espécie de catarse dolorida para a perda de sua mãe), citando locais, fatos e personalidades reais, James Ellroy criou uma história de ficção sobre a investigação do crime, com personagens próprios de seu mundo de histórias policiais noir e a clássica narrativa em primeira pessoa. O primeiro parágrafo do livro é de uma força e amargura genuínas de um personagem de histórias do gênero:

“Jamais a conheci em vida. Ela existe para mim através dos outros, como prova dos caminhos em que a sua morte os lançou. Voltando ao passado, buscando apenas fatos, eu a reconstruí como uma menina triste e uma prostituta, quando muito alguém-que-poderia-ter-sido, rótulo que também poderia se aplicar a mim. Gostaria de lhe ter concedido um final anônimo, de tê-la relegado a breves palavras de detetive, num relatório sumário de homicídio, com cópia carbono para o legista, e mais a papelada para enterrá-la em vala comum. O único erro em relação a esse desejo é que ela não teria gostado que fosse assim. Por mais brutais que sejam os fatos, ela gostaria que fossem todos revelados. E como lhe devo muito e sou o único que sabe a história inteira, incumbi-me de escrever essas memórias.”

O narrador de Dália Negra é o ex-pugilista e detetive do Departamento de Polícia de Los Angeles Dwight "Bucky" Bleichert, mergulhado no mundo de corrupção e violência da Los Angeles pós Segunda Grande Guerra. Enquanto admite suas próprias falhas morais e narra sua amizade com o parceiro Lee Blanchard – e a paixão por Kay Lake, cuja estranha relação com Lee cria um triângulo amoroso conflituoso, constrangedor e incialmente estranho – eles acabam mergulhando na investigação sobre a morte de Elizabeth, isso imediatamente depois de um tiroteio mal explicado em que os dois parceiros matam alguns meliantes.

As tramas dos livros de James Ellroy são emaranhados densos e cheios de pontas que de início parecem relevantes, depois desaparecem como se fossem meras coincidências, pistas falsas ou acontecimentos fortuitos. Para depois voltarem com força, explodindo em ligações corruptas, crimes hediondos e traições insuspeitas em meio a tantas atitudes torpes (mas basicamente... humanas!) de todos os personagens.

Em 2006, Brian De Palma levou aos cinemas a história intrincada de Dália Negra, mas o resultado foi um filme insosso, confuso e forçado, com um elenco de bons atores desconfortáveis com seus papéis e uma caracterização noir um tanto canastrona. Diferente do excelente trabalho de Curtis Hanson em Los Angeles: Cidade Proibida, a Dália Negra de Brian De Palma (um diretor de filmes maravilhosos como Os Intocáveis, Carrie e Scarface, mas que também escorrega feio em produções como Femme Fatale, Missão: Marte e Fogueira das Vaidades) foi dizimado pela crítica.

O estilo de James Ellroy

Em Dália Negra, James Ellroy ainda carrega a pena na narrativa tradicional, cheia, com frases completas e estrutura convencional. Alguns anos depois, quando terminou de escrever Los Angeles: Cidade Proibida, seu editor deu a ele a incumbência de reduzir cem páginas do original. Ele o fez, mas sem suprimir uma sequência sequer: criou um novo estilo, eliminando das frases o que não era essencial; de artigos a adjetivos inúteis ou orações inteiras que fossem apenas adereços sem maiores ou menores impactos para o que realmente importa: a trama.

Um ano depois de Los Angeles: Cidade Proibida, quando a morte de sua mãe completava 38 anos, James Ellroy voltou a ela com a publicação do autobiográfico “Meus lugares escuros”. Nas primeiras páginas, agora não mais escondido atrás de uma narrativa de ficção, atrás da morte de outra mulher, ele descreve com uma estranha frieza nervosa o crime que marcou sua vida: como sua mãe foi encontrada, como estava o corpo (detalhe por detalhe), o momento em que chega de táxi em casa na tarde daquele dia (depois de passar o fim de semana com o pai em Los Angeles), as providências de investigação...

O texto é frio e enxuto como suas outras narrativas ficcionais. Mas uma nervosa experiência de apreciar um crime hediondo através dos olhos de uma criança em choque, que não percebe de imediato ou racionalmente a profundidade da dor que lhe é imposta. Ele se tornaria um jovem problemático e complicado, metido em problemas com a polícia, subempregos, confusões... até se redimir através da literatura policial (e, mais tarde, de tramas políticas mais complexas, mas sem perder o contato com o que há de sujo e mundano no ser humano) e se tornar um dos escritores mais relevantes da atualidade.

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