• Jefferson Sarmento

Cujo

A Maratona de Filmes baseados na obra de Stephen King

A Maratona de filmes baseados na obra de Stephen King chega à adaptação de Cujo, o cão raivoso, de 1983, baseado no livro homônimo, lançado em 1981.


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Cujo é um filme nervoso e agourento. Já o livro... acrescente aí trágico e pessimista na lista. Conta a história de uma mãe (adúltera) presa com seu filho em um carro enguiçado numa propriedade deserta. Do lado de fora, um cão raivoso, em enorme São Bernardo, toma conta dos dois.

Lewis Teague já havia dirigido porcarias como Alligator, fita B de jacaré que passou diversas vezes no SBT por aqui, e nada mais minimamente interessante. Mas posso assegurar que algumas cenas de Cujo são muito bem construídas. Tanto que o filme figura entre os 100 mais assustadores da lista Bravo! e abocanhou meia dúzia de prêmios em sua época. Nem por isso deixa de ser um filminho B...

As cenas no interior do veículo são angustiantes e desesperadoras em muitos momentos. E o garotinho que faz Tad Trenton é excelente - pena que só fez mais um ou dois filmes obscuros depois deste.

Já Dee Wallace (a mãe) é uma atriz perfeita e poderia estar melhor aqui se o roteiro adaptasse com mais apuro o seu personagem ambíguo e atormentado. Ela era figurinha carimbada em filmes de terro na década de 1980 e foi a mãe de Elliot em Et, o extraterrestre, de Steven Spielberg.

Se fizer uma incursão em filmes clássicos daquele período, vai ver Dee Wallace em Critters, Grito de Horror, Jogo das sombras... É um daqueles rostos que que te dão a impressão de já ter visto em algum filme antes...


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O livro de Stephen King tem um tom muito mais aterrador e, numa medida, levemente fantasioso: ele trabalha a sugestão de que existe um elemento sobrenatural rondando a história, rondando a cidade de Castle Rock.

Enquanto o texto original flerta com razões fantasmagóricas para o mal que ameaça Tad e sua mãe, o filme retrata Cujo apenas como um animal raivoso, contaminado por aquele morcego logo nas primeiras cenas.

E é aqui nós voltamos a Zona Morta e ao filme anterior da Maratona, sobre a adaptação de Cronenberg para o livro do vidente Johnny Smith.

Se você assistiu ao vídeo ou leu o post anterior (e leu Zona Morta e Cujo), já sacou que o tema agora é a ponte entre as duas histórias, que surge naquele trecho do primeiro livro quando o xerife de Castle Rock, George Bannerman, procura Johnny Smith para ajudá-lo a descobrir e prender o assassino que vem matando mulheres e meninas na cidade. Depois de recusar por algum tempo, o paranormal acaba aceitando ajudar e descobre que Frank Dodd, um auxiliar do próprio Bannerman, é o assassino.

Frank Dodd se mata quando Johnny e Bannerman vão atrás dele em sua casa e nós deixamos Castle Rock para trás. Pelo menos até Cujo.

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Stephen King volta a Castle Rock com a história do cão raivoso e poucos anos se passaram desde que a cidade descobriu que um dos seus habitantes, um garoto que viu crescer, era um assassino psicótico. As pessoas citam Frank Dodd como uma espécie de bicho papão, assustando as crianças, inventando mistérios... É realmente como se ele rondasse a cidade.

Essa aura de cidade assombrada está presente principalmente no armário do quarto do garotinho Tad Trenton, que se abre sozinho durante à noite, aparentemente sem uma explicação plausível, e causa pesadelos ao menino, noite após noite. Com um detalhe: os Trenton não são de Castle Rock e não estavam ali quando Frank Dodd foi descoberto. Pouco sabem do assassino.

Mesmo assim, a conexão que o leitor faz é imediata: é como se o fantasma do assassino realmente atormentasse a cidade. Gosto muito dessa premissa porque Stephen King, na verdade, usa aqui sua fama de criador de histórias sobrenaturais para sugerir o elemento fantástico. O importante é que você perceba: ele nunca diz, de fato, que os acontecimentos do livro são sobrenaturais. No fim da leitura, você decide no que acreditar – mesmo depois de ele jogar um balde de água fria nos leitores amantes do horror com uma explicação lógica para a porta do armário sempre se abrindo.

Mas, de volta ao filme: nada disso sobre Frank Dodd é citado. Considerando que as adaptações de Zona Morta e Cujo foram produzidas por companhias diferentes, isso justifica a escolha, fazendo com que o roteiro se centre muito mais no drama e no terror daquela mãe presa num carro fechado, debaixo de um dos verões mais quentes da Nova Inglaterra.


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Bem, se você não leu o livro e não assistiu ao filme, recomendo que dê o fora do spoiler tenebroso que vem a seguir.


Ou fique aí por sua conta e risco.

Estou falando do final e do que acontece com o garotinho Tad. Stephen King já revelou que, quando escreveu Cujo, estava sob pesado efeito de drogas (embora a qualidade da narrativa não se altere, como aconteceu com A Incendiária - comentários quando for falar sobre o filme, no próximo post da Maratona) e que se lembra pouco dos momentos em que o escreveu.

Pois aqui ele foi cruel e realmente aterrador, não poupando nem uma criança bonitinha e carismática de cinco anos. Pelo contrário, ele faz questão de que Tadder seja um personagem adorável e uma criança maravilhosa, cheia de medo e amada pelos pais (mesmo com o casamento em crise). E depois o mata horrivelmente.

É como se ele descontasse na criança os desvios dos adultos. É seu modo de punir os pecados dos pais, de dizer para Donna Trenton: você foi uma mulher adúltera e egoísta! Pecadora! Não importando os motivos (justos ou inventados) que a colocaram na cama do carpinteiro safado. Várias vezes.

Ou para o pai, Vic Trenton, um marido ausente que justifica sua insensibilidade com o trabalho e com suas preocupações de homem, de mantenedor da família. A verdade é que os dois personagens são muito bem construídos, revelando camadas tão humanas e sensíveis que transformam Cujo num dos melhores textos dramáticos de Stephen King.

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Seja como for, os produtores de Cujo, o filme, não tiveram a mesma sensibilidade ou coragem de matar um garotinho fofo de maneira tão real e assustadora como no livro. Mesmo assim, as cenas de sufocamento e as crises do menino trancado no carro são extremamente angustiantes, realísticas, apavorantes.

No balanço final, o filme tem alguns (sérios) problemas com as cenas de clímax, mas eu acredito mesmo que o enredo e os momentos de tensão superam isso.

Recomendo, mas aviso que não é um filmaço, apenas uma boa fita B - honesta e nervosa




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