• Jefferson Sarmento

A hora do pesadelo

Era 1984 e ninguém acreditava mais em Jason, Michael Myers ou qualquer outro assassino psicopata dos infernos.

No ano em que a Paramount matou seu assassino psicopata malvadão dos infernos, o velho Jason que ninguém mais levava a sério, a New Line trouxe ao mundo a versão de Wes Craven para um pesadelo realmente ruim com o bicho papão. Freddie Krueger mostrava suas garras pela primeira vez e eu me lembro muito bem de ter ficado duas sessões seguidas no cinema, porque aquele filme tinha me assustado de verdade.


Vários adolescentes da rua Elm passam a ter pesadelos com o mesmo estranho com o corpo todo queimado, usando uma camisa do Flamengo (ok, é vermelha e verde escura a camisa) e um chapéu velho todo puído. As coisas se complicam quando Tina sonha pela segunda vez com Krueger e morre na cama, cortada pelos dedos de navalha bem na frente de seu namorado - em seguida acusado pelo assassinato.

O filme segue num crescente de pesadelos e misturas destes com a realidade, dando desde cedo as dicas sobre o final que Wes Craven queria para a história: que tudo não passasse de um pesadelo de Nancy, a protagonista. A cena em que ela vence Krueger, simplesmente deixando de temê-lo, fica muito mais condizente com o filme todo e com as pistas ao longo do caminho se imaginarmos esse plot twist.


Entretanto, a New Line era dona do cheque (única que topou o projeto de Wes Craven) e queria seu próprio psicopata maldito para fazer carreira, enxertando na tela a cena em que Nancy vai para a escola com os amigos e o carro com teto à la Freddie os sequestra. Com isso, Wes Craven deu o fora e não fez A Hora do Pesadelo 2.


O filme teve um orçamento baixíssimo e arrecadou treze vezes mais nos cinemas, pagando-se de cara na primeira semana. Para isso, vários efeitos especiais foram produzidos com soluções caseiras: como a cena em que Nancy tenta fugir de Freddie escada acima, mas os degraus engolem seus pés, cena digna de um bom pesadelo comum. O buraco na escada era de massa de panqueca.

Outra solução para baixar os custos foi achar atores desconhecidos, como Johnny Depp! Zé Ninguém total à época (anterior até à série Anjos da Lei), Depp foi aos testes acompanhar um amigo Jackie Earle Haley (que foi vetado) e arrumou uma boquinha de coadjuvante.


Ficou com pena de Jackie Earle Haley? Não fique. Duas décadas e meia depois o amigo de Johnny Depp trabalhou na refilmagem (ruinzinha a balde) de A Nightmare On Elm Street: como Freddie Krueger!

A Hora do Pesadelo perdeu qualidade em dois quesitos, ao longo do tempo: efeitos caseiros que não funcionam mais (aquele braço esticadão do Freddie, na cena em que aparece para Tina na rua... tosqueira forçada hoje!) e um milhão de reprises na televisão. No Brasil, sofre ainda com a péssima dublagem que deixou o bicho papão dos infernos com a voz do Popeye/Scooby Doo.


Mas, enfim, é um clássico do gênero e um ótimo filme, descontado o tempo.



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