• Jefferson Sarmento

A jornada do herói para leitores - parte 1

Como são construídas essas histórias que amamos tanto


Aquela sensação de já ter visto, em histórias diferentes, determinados personagens ou atitudes, dilemas ou acontecimentos que se assemelham, é natural por conta de um modelo mental de construção de narrativas que foi demonstrado, percebido por um mitologista chamado Joseph Campbell, que publicou o livro O herói de mil faces, em 1949.


É isso. Em 1949, esse camarada que estudava mitos dos mais variados povos (como o panteão dos deuses gregos e seus heróis e tragédias, as crenças pagãs nórdicas, os mitos das culturas indígenas americanas e até... a formação das religiões atuais, como a cristã)... bom, o Joseph Campbell percebeu que existe um padrão nas narrativas que fundamentava cada história dessas crenças, dessas culturas.

Pescou isso? Todas as histórias que ele observou seguiam um padrão, uma sequência de acontecimentos. E ele identificou esse padrão em doze passos, doze pequenos eventos que, em sequência, estavam em todos os mitos – quer você acredite que aquela história é real ou não.


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Muito depois dele, vários outros estudiosos das técnicas de se colocar no papel uma narrativa seguiram esse modelo e o principal deles foi um roteirista americano chamado Christopher Vogler, que atualizou o "Herói de mil faces" para a os roteiristas da Disney num documento que ficou conhecido como O Memorando Vogler, de 1992, que mais tarde se tornou o livro "A jornada do escritor", publicado em 2006.


Acontece que a Disney, a hoje toda poderosa Disney que é dona da Marvel, que comprou a Fox, que tem a própria história intrinsecamente ligada à própria história do cinema, amargou péssimos resultados na década de 1980, com filmes e desenhos esquecíveis, fracos. Então a Disney chamou as suas equipes de roteiristas para que eles tentassem desenvolver uma forma de devolver às produções do estúdio o sucesso que de público de outras décadas. E foi Vogler que se destacou com seu memorando. O mesmo Vogler que estudou com o George Lucas na faculdade de cinema, onde as ideias de Joseph Campbell viraram uma bíblia da crianção de histórias. Não à toa, Lucas mergulhou de cabeça nas ideias do ciclo do herói e entregou ao mundo a saga Guerra nas Estrelas, que, olha só, hoje também é propriedade da Disney!

O Memorando Vogler e, mais tarde, o seu A jornada do escritor, é uma estrutura, uma verdadeira receita de bolo de como se contar uma história, um passo a passo que eu quero que você comece a enxergar a partir de agora, toda vez que abrir um livro, toda vez que assistir a um filme ou série. Eles estão lá (na maioria arrasadora das vezes). Alguns são tão evidentes que saltam das páginas ou das telas. Outros são mais sutis.


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A jornada do herói está dividida em 12 passos bem evidentes e 3 atos, que fazem referência direta aos 3 atos do Aristóteles – destacados no livro-documento "A arte da poética".


Pois os quatro primeiros passos da Jornada do Herói, que formam o Primeiro Ato da história, apresentam para você o que diabos o filme ou livro ou série quer contar. Apresenta seu protagonista, que é aquele cara por quem você vai torcer, que vai vencer desafios e percorrer os doze passos da jornada.


Uma jornada que pode ser mágica como a de um menino descobrindo um mundo de bruxos nas entranhas da realidade;


Ou um desenhista pobretão que ganha num jogo de cartas a passagem para Nova Iorque a bordo do maior transatlântico de todos os tempos;


Ou dois adolescentes em tratamento contra o câncer que embarcam numa jornada romântica inesquecível...


Ou participar de um passeio numa ilha onde dinossauros reproduzidos em laboratório são a atração principal!


Mundo comum


O primeiro passo da Jornada do Herói começa com “O mundo comum”, que é onde a maioria das histórias começa. Seu protagonista está de boas vivendo a vidinha dele na casa dos tios, embaixo da escada ou indo ao cinema assistir um filme do Zorro com os pais. É a sua vida comum. É o seu dia-a-dia.

Sim, existem filmes e livros que começam com o que nós chamamos de “Cena de abertura”, não exatamente como o primeiro passo da jornada do herói, mas, acredite, essas cenas de abertura estão ligadas à jornada em algum ponto, antecipando um clímax ou inserindo um elemento de dúvida, surpresa, suspense...


Mas o que interessa aqui é que, quando a história que o escritor quer contar realmente começa, o herói, o protagonista ou os protagonistas estão vivendo a vida comum de todos os dias normais.

O chamado à aventura


É o primeiro contato do protagonista com o que nós chamamos de “mundo mágico”, que não precisa ser mágico no sentido fantasioso, literal da palavra.

Pense no Bentinho vivendo sua infância tranquila e brincalhona, lá no capítulo 3 de Dom Casmurro, quando ouve seu nome ser proferido numa conversa entre seu tio e sua mãe na sala de visitas. O tio tenta convencer a mãe de que mandar o garoto para o seminário é um erro, porque Bentinho, segundo o José Dias, anda pelos cantos com a filha do Tartaruga, com a menina espevitada que é fonte de um dos maiores dilemas da literatura brasileiras: Capitu!


É nesse momento que o mundo mágico da paixonite se instala em Bentinho e ele tem seu primeiro contato. É a partir daqui que nada mais vai ser igual. É quando a estranheza do amor dá o pontapé que desencadeia a tragédia folhetinesca de Machado de Assis.


O chamado para a aventura está no discurso do porco Major, na primeira cena do celeiro, em A revolução dos bichos!


O chamado à aventura é quando chega uma carta endereçada à Rua dos Alfeneiros número quatro, destinada ao garoto Harry Potter. E quando seu tio a destrói, milhares delas voam pela sala, porque o chamado... bom... o chamado é poderoso e um herói de verdade não pode ignorá-lo. E nem consegue!


Recusa ao chamado


Você já viu essa milhares de vezes. Quantos filmes já assistiu em que o herói ou heroína recusa viver a aventura? Essa cena ou trecho de livro acontece logo que o protagonista toma ciência de que a vida normal está... ameaçada! É o medo da mudança.


Bentinho não acredita que está apaixonado e nega o óbvio declarado por seu tio – que pode até ter tido as razões dele para fofocar com a mãe do garoto, mas a essa altura ele já encasquetou a ideia na cabeça e tenta negá-la por alguns capítulos.


Em O poderoso chefão, clássico de Mário Puzzo adaptado aos por Francis Ford Copolla para os cinemas, Michael Corleone não quer nem saber dos negócios de sua família e nega a todos no seu desdenhoso diálogo com a futura esposa na cena do casamento da irmã.

Encontro com o mentor


É aqui que o herói decide mergulhar na aventura, vencer suas relutâncias e se jogar de cabeça na paixão que é o motor da história. Após uma conversa em que reconhece em José Dias um aliado, Bentinho aceita que está apaixonado – ou se convence disso, mas essas nuances são questão de interpretação.

O encontro com o mentor é o que falta ao herói para tomar consciência de que é capaz de se aventurar. Na maioria das vezes, a história apresenta mesmo uma pessoa sábia, mais velha, cheia de conhecimentos e experiências, para orientar o protagonista. Algumas são emblemáticas e tão visíveis que são fáceis de serem visualizadas, Alvo Dumbledore ou Gandalf, como o treinador de Rocky Balboa, como Obi-Wan Kenobi em Guerra nas Estrelas – Uma nova esperança.


O mentor é o Portuga que vai dizer ao Zezé, de O meu pé de laranja lima, que ser criança é uma grande aventura e ela pode ser divertida e rica, mesmo quando as coisas não saem como esperamos; mesmo quando a dor nos consome.


Ele funciona como a chave que abre a porta, dentro da mente do protagonista, que o faz ter coragem e atravessar o... primeiro limiar. Atravessar do Primeiro para o Segundo Ato da nossa História, que é quando a aventura começa de verdade.


Está preparado para ela? Porque agora vem a parte da correria, das lutas, quando o herói enfrenta as tempestades e busca conhecimento sobre o mundo que vai engoli-lo se não vencer todos esses desafios...


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Porém...


Eu não quero que esse texto fique do tamanho de um livro, então nós vamos dar uma pausa aqui, quando o primeiro Ato, com os quatro primeiros passos da Jornada do Herói, termina.


Mas, antes, vamos um pouco além?


Já parou pra pensar que os novos desafios da sua vida podem ser comparados também com a Jornada do Herói? Quando você se forma no Ensino Médio e vai encarar a aventura de uma faculdade. Quando você está de boas fazendo a faculdade e percebe que agorinha vai ter que enfrentar o mundo do trabalho.


Quando a vida está caminhando com seus altos e baixos e uma pandemia toma conta do mundo...


Pense nisso!



© 2020 Jefferson Sarmento