• Jefferson Sarmento

A jornada do herói para leitores - parte 2

Vamos ao segundo ato da jornada: quando a diversão começa de verdade!


Agora sim nós vamos mergulhar na parte divertida da história, onde a correria começa e os perigos e desafios vão se avolumando num crescente de tirar o fôlego, até chegarmos ao clímax.


Mas antes, que tal rememorar rapidamente o primeiro ato da jornada do herói? Aí vão seus seus quatro passos:


1) O mundo comum: quando o protagonista tem uma consciência limitada, ou nenhuma, do problema que vai enfrentar, dos desafios, de sua jornada.

O mundo comum apresenta a vida cotidiana do herói da história, que pode ser uma vidinha tranquila numa cidade do interior, quatro garotos andando de bicicleta quando a noite começa a cair, pouco antes de um deles desaparecer e um mundo invertido começar a vazar para a realidade pacata de Montauk, Long Island, Strager Things.

Mas também pode ser o cotidiano duro de um garoto órfão que mora com os tios, dorme debaixo da escada e tem que aguentar as humilhações e o descaso diuturnamente. Isso pouco antes de Harry descobrir a verdade sobre quem ele é.


2) O chamado à aventura: o protagonista tem aumentada a consciência de que existe alguma coisa errada com seu cotidiano, por debaixo dele, ou coisas estranhas começam a acontecer... Lembrando que a palavra “mágico” aqui não precisa significar magia, coisas sobrenaturais, elementos fantasiosos... mas aquilo que destoa do seu dia a dia.

Como Ki-taek recebendo a proposta de um amigo seu para dar aulas de inglês para uma garota de família rica. Seu primeiro contato com o luxo de um mundo completamente avesso ao seu é de deslumbramento e maravilhamento. E ele só está começando a jornada da família de picaretas em Parasita – o delicioso drama tragicômigo que ganhou o Oscar de melhor filme no começo do ano.

Mas é claro que o mundo pode ser mágico de verdade, sobrenatural, extrapolando a nossa realidade concreta e, muitas vezes, nos apavorando, como um palhaço surgindo num bueiro e convidando um garotinho fofo para descer até lá e ver como as coisas flutuam aqui embaixo, Georgieee...


3) A recusa do chamado: onde relutamos à mudança, à possibilidade de entramos no mundo mágico, encararmos os desafios, iniciarmos a jornada. Às vezes é uma cena curta e rápida, sutil como uma expressão de medo ou um meneio de cabeça. Às vezes é um rotundo não ou uma atitude relutante que dura cenas ou trechos seguidos da história.


É Peter Parker se recusando a deter o ladrão que roubou a bilheteria da luta, porque aquilo não é trabalho dele – uma recusa que tem sérias consequências para sua vida e não é apenas mais um passo desconectado – essa é uma das recusas mais emblemáticas da cultura pop, dos quadrinhos e eventualmente do cinema.

É Tony Stark dizendo “não” a Natasha, Steve e Scott Lang em Vingadores Ultimado, porque tem medo de perder sua filha e o que restou de sua vida...


4) O encontro com o mentor: o último passo do primeiro ato. É a superação da relutância. É quando o herói, o protagonista – seja ele um super-herói dos quadrinhos, um menino mago ou uma jovem inocente que precisa entrevistar um milionário sedutor mergulhado num mundo de sadomasoquismo.

A negação de Anastasia Steele está na conversa com sua amiga Kate, quando ela diz que “ele é muita areia pro meu caminhãozinho”, lá pela página 50 dos cinquenta tons. E Kate, que não é um velho de barba com milhares de anos de experiência, mas tem bem mais maldade sexual nos pensamentos, funciona como uma espécie de alavanca, de... mentora! para a protagonista tomar suas decisões futuras.

Em O Iluminado, de Stephen King, o mentor de Dany é o velho cozinheiro Dick Hallorann, um paranormal de baixa intensidade que explica para o filho de Jack Torrance o que é o hotel, que precisa tomar certos cuidados, que o quarto 217 deve ser evitado a qualquer custo!


Cruzamento do limiar


E então, quando o herói decide ou é impelido a atravessar o limiar que o jogará dentro do Mundo Mágico, do hotel assombrado, quando Anastasia decide assinar o contrato com o milionário sexualmente atormentado, quando Harry segue para Hogwarts, quando o Homem de Ferro se junta aos Vingadores restantes, quando Bentinho aceita que está apaixonado por Capitu...


É aqui que a aventura se torna mais divertida! Quando iniciamos o segundo ato da Jornada do Herói! Pois o quinto passo dessa jornada é o comprometimento com a mudança. É a aceitação do destino.


Em Matrix, de 1999, Neo decide tomar a pílula vermelha, conhecendo finalmente a verdade que o cerca e que permeia as entranhas do mundo.


Em A Identidade Bourne, o náufrago desmemoriado, depois da ajuda de um médico renegado numa cidadezinha litorânea da Itália (olha a figura de mentor aqui), decide ir em busca do passado, descobrir quem é, seguindo a pista de estava entranhada numa cápsula debaixo de sua pele.


Em Vinte mil léguas submarinas, depois que a fragata Abraham Lincoln é atacada pelo estranho monstro encouraçado que perseguia, o professor Aronax e seu fiel serviçal Conselho, buscam salvação com Ned Land sobre o Nautilus. Quando a escotilha do submarino se abre, eles mergulham no segredo mais fantástico de suas vidas!


Testes, aliados e inimigos


O sexto passo da jornada é a experimentação da mudança, o primeiro contato verdadeiro.


Aqui, eu quero que você pense nos seus próprios desafios: o fato de você se decidir por um emprego novo, por começar uma nova faculdade, por se casar, por ter filhos, por começar uma dieta para emagrecer e ter mais saúde... a decisão em si, por mais abnegado e resoluto que você esteja, não significa que sua vida vai ser melhor, mais tranquila, que tudo vai dar certo. Não! É aqui que as dificuldades começam de verdade.


Você descobre que acordar numa manhã de inverno pra ir correr é penoso. Que resistir a uma pizza recheada de gordices é quase impossível!


Harry descobre que o mundo mágico é cheio de maravilhas, mas que tem seus perigos, que existe medo e traições nas entrelinhas. Mas ele descobre amigos que estarão lá com o mesmo propósito que ele. E descobre inimigos por toda parte.

Vocês decidiram ter filhos, eles são lindos, são fofos, o amor te invade de um jeito mágico. Mas existem noites insones. O bebê vai ficar doentinho, você vai ficar desesperado quando ele cair ou começar a chorar do nada. Mas existem pessoas que já passaram por isso e que vão te ajudar.


O Clube dos Perdedores decidiu enfrentar Pennywise, mas a Coisa é muito mais perigosa e cruel e cheia de horror do que jamais imaginaram. No filme, eles invadem a velha casa da Rua Neibolt e contam uns com os outros para... mal saírem vivos de lá.


Aproximação da caverna profunda


No sétimo passo, o herói está se aproximando de sua grande mudança. Ali atrás ele decidiu enfrentar o destino, mas como uma decisão racional e até meio impensada, sem saber de fato que consequências isso traria.


Aqui ele começa a ter um entendimento verdadeiro do que é a jornada e de qual o seu papel nela. A Caverna Profunda tem relação com o mergulho mais interior que o protagonista precisa fazer para se encontrar, para se descobrir, para buscar seu verdadeiro eu, seus motivos, sua força, seu caráter.


Em muitas histórias, principalmente no cinema, essa fase, esse passo da jornada é literalmente uma caverna, um buraco, um lugar nas entranhas mais profundas do mundo mágico em que o herói precisa ir. Em Aquaman, Jason Momoa mergulha na caverna do Kraken para buscar o tridente com que vai salvar o mundo – ele precisa demonstrar sua coragem, encontrar seus verdadeiros motivos, sua honra, o merecimento ao poder, ao trono.

Para voltarmos à origem dos mitos e histórias que formam a base do Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, pense em Jesus Cristo indo ao jardim, a Getsêmani, para orar. Ele está prestes a encontrar seu verdadeiro destino e precisa de forças, ele pede ao Pai que afaste dele o cálice, se for de sua vontade. Ele é humano agora. É carne. Tem sentimentos de homens. Ele encara o sofrimento de seu povo nas mãos dos romanos, as mortes, a sua morte como um símbolo que pode ser entendido errado: como se sua obra fosse uma blasfêmia, um atentado a Deus. Naturalmente o espírito está disposto, mas a carne é fraca. E seu suor é sangue!


Provação


O oitavo passo é a tentativa de uma grande mudança! É o enfrentamento definitivo. É o fundo da caverna. É o nosso clímax, onde o herói talvez precise morrer. E renascer! Para salvar a todos e concretizar o seu destino.


Em Matrix, Neo já sabe que pode manipular a pseudo-realidade dentro do mundo criado pelas máquinas. Mas ele não tem consciência plena do que é capaz. Então ele morre. Morre sob os cuidados de Trinity. Morre naquele corredor sujo num prédio dentro da Matriz.


É o embate final contra seu inimigo mais perigoso.

Harry, Hermione e Rony descem a caverna que vai levar a história até o tabuleiro de xadrez. Os dois amigos ficam para trás para que o bruxo ainda criança avance mais, mais fundo, e encontre o verdadeiro inimigo.

O Clube dos Perdedores desce pelo poço no porão da casa da rua Neibolt e vão enfrentar Pennywise em seu covil, em sua toca, em seu habitat. No futuro, eles vão fazer o mesmo mergulho e um deles não vai voltar. Eddie Kaspbrak tem o braço arrancado e o dilema é deixá-lo ali para morrer ou ir atrás da Coisa e destruí-la de vez. Beverly diz que a morte do velho amigo não pode ser em vão, que eles precisam fazer o que vieram ali para fazer. E Ritchie aceita o destino deles, seguindo com Bill e Ben porque, desta vez, eles vão caçá-la!


Tony Stark sabe que vai morrer se fizer aquilo, mas (mesmo assim) empunha a manopla do infinito e estala os dedos numa cena que você já sabia que ia acontecer, dizendo a frase que você sabia que ele diria. E te deixa maravilhado com o óbvio!

Recompensa


O nono passo, o último do segundo ato, trata das consequências diretas da sua tentativa, imediatamente após o estalo dos dedos de Tony, do embate final, da luta, da guerra sem precedentes.


A morte não pode ser em vão. Então eles empunham a espada da vitória, o herói comemora e recebe seu prêmio – talvez o beijo do seu grande amor. É importante entender que antes daquilo ele era um aprendiz, um herói às vezes relutante. Mas agoira ele está em sua completude. Ele é O HERÓI. Ele merece a festa, o beijo, o prêmio.


E ele recebe o que merece. Veja bem: o que merece!


Bentinho merece a amargura e a casmurrice da solidão.

No final da adaptação de Eu sou a lenda, Robert Nevill, o personagem de Will Smith, encara sua morte com honra e a satisfação de saber que o cálice, seu elixir, seu prêmio é que Anna Montez, a personagem de Alice Braga, vai sobreviver para levar a cura ao resto da humanidade.


Anne Frank morreu nas mãos dos nazistas, depois de todo o diário de dor e medo atrás das paredes. Mas sua voz ressuscitou e encontrou o elixir da vitória, a recompensa por seu sacrifício... espalhando sua história e o horror do holocausto e do pior que a humanidade já produziu para que outras pessoas, no mundo todo, conhecessem a verdadeira face da maldade, como um alerta contra a podridão da tirania, da intolerância, do ódio.


A jornada ainda não acabou

Embora a maioria das histórias termine aqui, ainda existe um terceiro ato. Muitas vezes muito curto, rápido e quase imperceptível. Mas não existiriam trilogias, quadrilogias, séries, seriados... sem o Terceiro Ato.

Mas nós vamos conversar sobre ele no próximo post. São os três últimos passos da Jornada que, longe de ser uma linha com princípio meio e fim, é um círculo que se retroalimenta. Uma elipse infinita como a nossa vida, cujos desafios são apenas um ciclo a ser vencido, que desemboca em outro, em outro, em outro...

Depois do namoro vem o noivado. Depois do noivado, o casamento. Depois os filhos, os netos... E o ciclo da vida, daquele leãozinho que se culpava pela morte de Mufasa, vai seguindo sem trégua.


© 2020 Jefferson Sarmento