• Jefferson Sarmento

A jornada do herói para leitores - parte 3

Chegamos ao fim da nossa Jornada! Mas ela não acaba de verdade.

Lá no primeiro post nós vimos que a Jornada do Herói é uma estrutura, uma forma que contem certos elementos comuns à maioria arrasadora das histórias que nós conhecemos, que assistimos no cinema, que lemos nos livros – os que mais amamos e aqueles que nem tanto assim.


Mas é importante que você entenda isso: A Jornada do Herói não foi uma fórmula desenvolvida para esse fim: contar histórias. Ela foi percebida.


O mitologista Joseph Campbell observou que a maioria das histórias contadas pelo homem até a publicação de seu livro “O herói de mil faces”, em 1949, seguia um determinado padrão, uma sequência de acontecimentos que tinha pouquíssimas variações. De histórias dos heróis da mitologia grega aos cânones cristãos, da forma como eram contadas as vidas de generais e guerreiros que realmente existiram a peças, romances e grandes obras da literatura.


Nos dois primeiros posts dessa pequena série sobre a Jornada do Herói nós vimos o Primeiro Ato, onde a vida comum sofre sua ruptura e o Mundo Mágico (o mundo diferente) se abre em seus quatro passos que o levam ao Segundo Ato, à travessia do primeiro limiar -que representa a iniciação verdadeira, a inserção definitiva no problema que o herói precisa solucionar, o objetivo que precisa alcançar.

Esse Segundo Ato vai nos carregar até a batalha final, à apoteose e sua consecutiva recompensa, a última benção por termos vencido todos os seus passos. O beijo no final, o elixir da vitória, a espada erguida no fim da luta mais sangrenta, onde o herói teve que fazer seu maior sacrifício – como Katniss Everdeen atirando aos cães monstruosos o tributo que usava Peeta Melark como escudo. E, pouco mais adiante, quando decide tomar com o companheiro de batalha as frutas envenenadas, forçando o presidente Snow a deixá-los viver. Para Katniss, a benção final não é apenas ter sobrevivido, mas ter aceitado a morte e, com isso, ter estendido a Peeta a possibilidade de viver: a cena em que eles são aclamados no show é apenas uma alegoria do seu prêmio verdadeiro.


Pois a maioria das histórias tem seu momento mais importante aqui, neste ponto: na premiação, no instante do júbico. Algumas até apresentam seu The end quando os soldados comemoram a vitória levantando as armas, as espadas, as lanças, os braços para aceitar sua merecida recompensa.


Pois olha o que nos conta o terceiro ato: vencer a batalha final e receber o merecido elixir da vitória não é tudo.


Me acompanhe agora no ato final da Jornada do herói!

O caminho de volta


O herói aprendeu tudo o que precisava aprender naquela jornada e isso o levou à vitória contra seu maior inimigo – seja um mago do mal poderoso e sem nariz, seja um câncer incurável que começou a história destruindo a dignidade do protagonista, fazendo com que ele ou ela aceitasse uma vida de sofrimentos e sem esperança: aqui, a jornada era por encontrar o amor e a felicidade novamente e o inimigo não era a morte, mas a falta de esperança.


Vencida a última batalha, o herói ou heroína precisa tomar uma decisão: uma boa parte das histórias que lemos ou assistimos não passa por essa decisão e isso talvez seja pela dificuldade que alguns escritores têm por desvencilhar-se de seus mundos, de deixar a magia para trás.


Porque o primeiro passo do último ato é justamente: o caminho de volta. Mas de volta para onde? De volta para o mundo comum? Para a vidinha cotidiana e pacata de antes de as coisas enlouquecerem?


Sim! Mas muitas vezes a volta não é uma escolha, é uma consequência, como Katniss e Peeta voltando para o Distrito 12 depois de vencerem a septuagésima quarta edição dos Jogos Vorazes. Eles têm uma conversa bastante simbólica e curta no trem, enquanto a capital vai ficando para trás.


Ele pergunta: o que acontece quando voltarmos?


Katniss diz que não sabe. Vamos tentar esquecer.


E ele, como um herói que não quer sair do mundo mágico em que acreditar ser ela o seu prêmio pessoal, por sua jornada pessoal, responde que não quer esquecer.

O Caminho de volta às vezes também apresenta reviravoltas, como um suspiro final de um vilão, o capanga mais feroz de Duro de Matar se levanta no meio da multidão e aponta sua arma para John McLane. Bruce Willis se joga sobre a esposa e é quase certo que, depois de todas as explosões e tiroteios e perigos, o herói acabe morto quando inicia seu caminho de volta para os braços da família. Eis que surge a salvação pela arma do bonachão Sargento Al Powell, que atira seguidas vezes em Karl, aniquilando definitivamente a última ameaça contra o herói.


Em outras vezes, podemos ter uma fuga do vilão, o que vai garantir uma sequência para a história, como Hannibal Lecter telefonando para a agente Clarice Starling no final de O Silêncio dos Inocentes, pouco antes de sair em perseguição ao Dr. Chilton, o antigo diretor do seu sanatório.

A ressurreição


O décimo primeiro passo da jornada é: a ressurreição!


Mas calma, não estamos falando de ressuscitar o herói que se sacrificou na batalha final. Ou... não necessariamente, embora isso possa acontecer.


A ressurreição na verdade é a representação de todo o aprendizado do herói até ali: ele está voltando para casa, mas será que merece mesmo pisar em casa? E se toda a dor e provações o modificaram a ponto de ele não ser digno de estar de volta? Como um soldado traumatizado pela guerra, ou um herói transformado em vampiro ou ferido por um zumbi no final da grande batalha...


Talvez ele precise se purificar para entrar na sua Terra Prometida. Talvez ele precise de uma última batalha, quando tudo o que aprendeu se encaixa perfeitamente com quem ele era antes de atravessar o primeiro limiar, antes de mergulhar no mundo mágico.


É aqui que alguns filmes parecem ter dois finais! Duas grandes batalhas. O que as distingue é que nesta aqui ele está lutando pelo direito de voltar. Ele não quer uma recompensa, ele quer o seu descanso. É Katniss novamente percebendo que, para viver no Distrito 12 outra vez, terá que fingir um personagem: fingir amor por Peeta, submeter-se às vontades da Capital, aceitar ser encarada como uma heroína, quando ela na verdade não quer ser uma e jamais se sentiu uma.


A ressurreição tem muito mais a ver com: quem se tornou esse personagem e como foram mudados ou não os seus valores.

Em Novembro de 63, um dos meus livros favoritos de Stephen King, sobre um professor de inglês que volta no tempo para impedir o assassinato de John Kennedy, Jake Epstein finalmente cumpre o seu destino, a sua jornada. Mas o custo disso foi o amor de sua vida, a foi ter vivido no passado por tanto tempo que envelheceu e já não teria forças para repetir tudo o que foi feito. Mas ele tem sua batalha aparentemente definitiva naquele prédio de onde Lee Harvey Oswald assassinou o presidente. Está feliz com isso? Não, nem um pouco. Mas fez o que tinha que ser feito, contra seus próprios desejos, contra uma entidade invisível que parece tentar manter o curso da História a todo custo...


Então ele volta para casa, para seu tempo. E nós temos sua ressurreição não no mundo que ele acreditou ser possível se salvasse Kennedy. E aqui nós temos um novo homem, ressurgido no que deveria ser seu lar, sua casa, mas que ele descobre ter destruído com o que fez no passado, lá em novembro de 1963.

Pois agora ele precisa acertar as coisas. De novo.


Mas é claro que podemos ter uma ressurreição verdadeira, como Cristo voltando no terceiro dia para provar os desígnios de Deus – a crucificação foi sua apoteose, a batalha em que o inimigo romano teve o que pareceu uma vitória sobre o maior símbolo da religião cristã. E ele retorna para trazer a palavra de Deus não mais como o Homem, mas como... um ressuscitado!


Como Neo, depois de ser morto pelo Agente Smith naquele corredor sujo, em Matrix.


O retorno com o elixir


E então o ciclo se fecha com o retorno definitivo do herói. O retorno com o elixir.

Meu filme preferido de todos os tempos é o clássico de 1938 Casablanca, um roteiro com os melhores diálogos cínicos que um escritor já colocou no papel, nas falas de Humphrey Bogart tão perfeito em seu papel de Rick que você confunde ator e personagem. Não haveria Rick sem Bogart.

Na cena final, que inclusive é comentada por Christopher Vogler no seu Jornada do Escritor, ele tem um momento de ressurreição: eles estão no aeroporto. A mulher da sua vida está ali, prestes a entrar no avião com o marido dela, líder da resistência. Então ela fraqueja e diz que ficaria com ele... mas Rick é um herói mudado agora. Ele sabe o que precisa fazer. Ela sabe que Ilsa não seria feliz com ele. E que a resistência contra os nazistas talvez até perdesse seu maior símbolo porque talvez o marido de Ilsa não supere a perda da mulher. Então ele a deixa ir.


Seu retorno à realidade, ao seu mundo, leva o elixir de uma nova amizade com o Capitão Louis Renault: o começo de uma bela amizade!


Esse é um final fechado, que faz da Jornada do Herói uma jornada circular e completa, mas ela não precisa ser assim. Muitas histórias – e hoje grande parte delas – deixa o final aberto nesse ponto da jornada. A história te dá pistas de que o mal não acabou, que voltar para casa pode ter consequências, que a purificação da ressurreição não foi completa.

Em Stranger Things, Will é resgatado do mundo invertido e volta pra casa com... alguma coisa dentro dele.


No livro original, O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle, publicado em 1963, o astronauta Ulysse Mérou faz sua viagem de volta com Nova e o filho recém-nascido, para pousar em Paris e descobrir que... os símios dominaram tudo. Tantos os filmes originais das décadas de 1960 e 1970, quando os atuais, aproveitam esse final em aberto para perpetuar a história.


É quando o círculo aparente, visto por outro ângulo, transforma-se numa espiral eterna, o final se transforma numa nova jornada, com novos desafios, novos aliados.


Katniss tem que voltar para os jogos vorazes. Harry volta para Hogwarts.


No final de O Exterminador do futuro, o menino que tira a foto de Sarah Connor no posto de gasolina avisa: tem uma tempestade vindo...


Relicário da Maldade


E, para citar como eu adoro esses finais abertos, que nem sempre querem dizer que haverá uma continuação escrita, mas que servem para demonstrar que a vida não se encerra quando um ciclo se fecha, deixo o epílogo do meu último livro: Relicário da Maldade, porque assim como as jornadas, a maldade não se encerra de verdade, ela... toma outras formas e recomeça outras... aventuras!

A casa de Madeleine Diva ficou vazia por longos anos. O mato cresceu e tomou conta da chácara. Acabou sendo tomada para pagamento de dívidas com a municipalidade e leiloada pouco antes de o milênio acabar. A essa altura, o corpo de Eldrich já não existia e os novos proprietários construíram um galpão onde seu esqueleto descansou e virou fóssil na eternidade.


Quanto ao seu verme...


Bem, ele sentiu o toque das labaredas quando Nelson e Helena atearam fogo no baú. Estivera escondido dentro do corpo putrefato todo o tempo. Queria ficar ali até que pudesse se erguer de novo, como se sua maldade fosse suficiente para ressuscitar-se daquela cova rasa.


O ardor das chamas fez o verme revirar-se e buscar uma saída. Serpenteou pelas entranhas podres e depois pela terra fofa que o cobria. Largando fumaça e aquele fedor num rastro desesperado, eclodiu da terra num chiado doloroso e disparou mata afora, os dentinhos tortos tiquetaqueando incessantemente.


Nunca mais foi visto.


Não ali na Cidade.


Fim da jornada Ou não

A série sobre a jornada do herói termina aqui e eu espero que tenha ajudado você a perceber como as histórias que assistimos ou lemos são construídas para que nós nos apaixonemos tanto por elas.

Elas nos dão essa sensação de familiaridade, mas nem sempre é feita assim de uma maneira friamente calculada e maniqueísta – talvez seja assim porque a Jornada do Herói tenha uma similaridade muito sutil com a nossa própria vida, com os nossos desafios constantes e cíclicos. Um emprego novo, um casamento, um projeto que surgiu porque o anterior acabou sugerindo essa nova jornada!

Depois do namoro vem o noivado. Depois do noivado, o casamento. Depois os filhos, os netos... E o ciclo da vida, daquele leãozinho que se culpava pela morte de Mufasa, vai seguindo sem trégua.

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E de pensar na jornada e em cada passo dela quando estiver lendo o livro de cabeceira, assistindo à sua série preferida ou ao filme mais badalado da semana. Ou quando for encarar sua própria nova jornada pessoal.


© 2020 Jefferson Sarmento