• Jefferson Sarmento

A sentinela dos malditos (The sentinel, 1977)

Espantos, assombros e um balde de pipoca: Os filmes filmes que me fizeram apaixonado pelo terror!

Meu primeiro filme de horror! Ou, como diz um grande amigo quando vai contar histórias para seus filhos, meu primeiro filme de terror terrível! E eu só havia assistido a alguns minutos do final naquela primeira vez. Esbarraria com ele novamente apenas anos depois, na sequência de uma reprise de “Outland, Comando Titânio”, filmezinho de ficção mequetrefe que tem como único atrativo a atuação de Sean Connery, mas que eu era louco para ver e não encontrava nas locadoras (de VHS!) por aqui.

The Sentinel foi baseado no livro homônimo de um escritor americano chamado Jeffrey Konvitz, que na verdade publicou apenas quatro romances entre 1974 e 1982, tornando-se roteirista e produtor de cinema e televisão posteriormente. Seus três primeiros livros são uma trilogia aproveitando a mesma ideia de A Sentinela dos Malditos: a de que alguém precisa vigiar as portas do inferno. Infelizmente nenhum deles foi publicado no Brasil e fico com a impressão de que Konvitz tentava alguma coisa na mesma linha de A Profecia, de David Seltzer.


Os escritores de horror das décadas de 1960 e 1970 focavam bastante nessa coisa de possessão, inferno, demônio, anticristo, exorcismo... E A Sentinela dos Malditos, o filme, não desfez essa minha impressão: o clima é o mesmo e algumas soluções são até parecidas com as de The Omen, envolvendo o Vaticano, um grupo secreto de padres que parece saber a verdade e cuidar de manter o demônio trancado naquele prédio...

I - uma madrugada de terror


Mas voltando à primeira vez que assisti a este filme (ou só ao final dele, não me lembro exatamente quando)... era uma noite escura na nossa antiga casa – minha irmã do meio mora nela hoje, mas já foi bastante modificada e está bem maior. Naquela época, tinha dois quartos, uma sala pequena e uma copa-cozinha.

Pois acordei por um motivo que não tenho a mínima ideia mais e ouvi o barulho da TV. Sonolento e curioso, reparei o corredorzinho meio iluminado por um frenesi de raios catódicos – ok, se você não tem ideia do que seja isso, dê uma sapeada na internet para saber como eram as emissões daqueles trambolhos de tubo que haviam antes das TVs de tela plana.


Meu quarto dava para os fundos da casa, com as janelas sem cortinas e seus vidros frisados. Eu me levantei a seguir e fui andando até o corredor, com um pouco de sono e outro tanto (maior) de curiosidade. Quando dobrei a porta da sala, vi meu pai sentado no sofá maior, olhando com tranquilidade para a televisão. Desviei os olhos para ela e vi a cena que me acompanhou por muito anos, sem que eu conseguisse identificar a que filme ela pertencia. Um sujeito de colete e roupas claras, bigodinho aparado e ar malvado blasé estava parado à frente daquela horda de pessoas deformadas. Um velho indignado observava um padre cego entregar uma enorme cruz dourada a uma moça que se debatia.


Fiquei ali parado na esquina, olhando para a tevê. A cena se desenrolava. Meu pai deve ter me alertado que se tratava de uma filme de medo, mas se o fez, nunca vou me lembrar. E não obedeci – não porque quisesse desobedecê-lo, mas por pura hipnose.


Ato contínuo, o velho da cena acerta aquela adaga afiada no pescoço do almofadinha de colete claro. O homem sangra e cai. A horda começa a sofrer. Parecem mesmo demônios! Vão se afastando, enquanto a moça que antes tentara se matar resigna-se em complacente estado de catatonia.


– Pra onde eles foram? – eu acho que perguntei. Queria saber dos personagens deformados, que parecem ter ido embora.


– Voltaram pro inferno. Tem uma passagem pro inferno debaixo do prédio.


Fiquei ali enquanto o filme acabava.


– Vai ficar com medo.


– Vou – respondi, mas fui me sentar no sofá.


Meu pai bocejou. Eu não tinha ideia de que horas eram, mas devia ser depois de meia-noite, uma daquelas sessões da madrugada com nomes tipo Coruja Colorida, Corujão...


— Eu vou dormir —ele avisou.


Acabou o filme.


– Vai passar outro? —perguntei.


– Deve passar. Acho que vai passar um de Drácula.


Meu pai se foi. E eu fiquei ali... Aliás, acho que estou ali, naquela sala, até hoje!


II - Mas voltando ao filme...


A Sentinela do Malditos, o filme em si, é bastante competente (claro, sempre imaginando que você precisa se transportar para 1977 – pelo menos para a década de 1980 – para desculpar algumas datações e enquadramentos meio cafonas) e conta como a modelo Alison

Parker (vivida pela atriz Cristina Raines, que de importante fez apenas uma personagem secundária de Os Duelistas, de Ridley Scott – no mesmo ano de A Sentinela dos Malditos) decide ter um pouco de liberdade em relação ao namorado e aluga um apartamento mobiliado para morar sozinha. E coisas estranhas começam a acontecer.


Aos poucos, Alison passa a ser visitada (e, às vezes, assombrada) por vizinhos que não existem, acorda de madrugada com os lustres do teto balançando e alguém andando no apartamento de cima – que deveria estar vazio. Sua carreira, em franca ascensão, começa a ter revezes porque sua saúde mental (e consequentemente a física) começa a ficar debilitada.


O noivo/namorado, vivido por Chris Sarandon (que anos depois faria seu único papel realmente bom no cinema, como o vampiro Jerry Dandridge de “A Hora do Espanto”), resolve investigar. Ele é um advogado que já teve problemas num relacionamento anterior – sua ex suicidou-se pulando da ponte do Brooklin. A polícia começa desconfiar dele quando um de seus contatos do submundo aparece morto – isso logo depois de Alison ser assombrada por imagens de seu pai morto. Nessa cena, ela mata esse fantasma demônio, arrancando-lhe o nariz inclusive. O velho havia morrido de um câncer horrível no começo da história e Alison tem lembranças traumáticas dele, por tê-lo flagrado na cama com duas mulheres quando era adolescente, numa orgia que parece não apenas sexual, mas demoníaca e herege no que de pior a palavra carrega. Neste ponto da história já sabemos que Alison tentou se matar naquela ocasião...

A história de A Sentinela dos Malditos segue bastante o modelo de novela de horror dos clássicos setentistas, com a construção dos personagens calcada em traumas, em passados que trazem vários desdobramentos para eles e para a trama. No filme, infelizmente, algumas pontas ficam soltas porque o roteiro talvez tenha tido a impertinência de querer trazer muito da trama literária. A questão policial, por exemplo, poderia ter sido eliminada sem qualquer pudor. Perderíamos apenas a inexpressiva ponta de Christopher Walken como um detetive de poucas falas, com a mesma importância de uma pedra cinza debaixo da terra no cenário de um jardim florido.

Outras duas pontas rápidas são de Jeff Goldblum como um fotógrafo – no ano seguinte ele melhoraria um pouco participando do excelente “Os Invasores de Corpos”, de que logo mais prometo falar. E de Tom Berenger numa passagem ridícula, referida apenas como “Homem do Final”. O que nos lembra que todo mundo tem que ralar muito antes de ganhar algum dinheiro na vida.


Pois veja só: A Sentinela dos Malditos me prendeu a atenção naquela sessão anos depois, na sequência de Outlaw. Eu ainda não tinha percebido que era o mesmo filme que havia visto quando criança, contudo esse começo (que eu ainda não identificara) tinha um bom mistério e o adolescente em mim ainda se impressionava sem os cacoetes de escritor sempre tentando desvendar os macetes da narrativa. Foi quando o personagem de Burgess Meredith arremessou a faca afiada com que tentava fazer Alison se suicidar... e a faca acertou o pescoço de Chris Sarandon... e a horda de almas deformadas às suas costas começou a sangrar e sofrer...


Eu me levantei do sofá atônito! Eu havia encontrado o filme que meu pai assistia quando eu acordei naquela madrugada!



Ei! Hoje é fácil encontrar um filme na internet. Você digita alguns dados no Google, nas redes sociais... e logo aparece alguém para te salvar. Mas estamos falando do final dos anos 1980 agora – talvez começo dos 1990, porque tenho a impressão de que tinha voltado da faculdade naquela noite, e que era uma sexta; comendo um pratão de mexido com tudo o que havia na geladeira (maionese, ovo, restos de bife, arroz, feijão.. o que encontrasse). Tudo bem que isso pode ser uma construção falsa da memória, mas foi por aqueles tempos.


O fato é que o filme me impressionou porque me buscou exatamente naquele ponto das lembranças em que eu me espremia pela esquina da porta da sala e espiava a tela de vinte polegadas ali na sala pequena. Nunca mais consegui assisti-lo – pelo menos até ontem, quando revi “A Sentinela dos Malditos” para me lembrar dos detalhes – e por um longo tempo esqueci de sua existência.


Naquela segunda vez (na sessão depois de “Outlaw”), cheguei a esperar que as legendas acabassem para que a emissora anunciasse o próximo filme. Não seria fantástico se a nova sessão fosse do mesmo filme que eu assisti depois que meu pai foi dormir? Na próxima resenha eu conto qual foi.


© 2020 Jefferson Sarmento