• Jefferson Sarmento

A velha Coca

Um conto com os dois pés fincados no folclore brasileiro e português. Que tal conhecer uma história baseada na verdadeira origem e forma de uma das criaturas mais conhecidas do nosso imaginário?


Você também pode ouvir o conto "A velha Coca" no Podcast do site. É só clicar aqui ou na imagem abaixo e você vai ser direcionado para a página. Daí é apertar o PLAY e escutar essa história tenebrosa.


Pois bem, dir-vos-ei uma história, mas quanto a essa, podeis tremer a gosto, podeis suar a frio da fronte grossas bagas de terror. Não é um conto, é uma lembrança do passado. Noite na taverna, Álvares de Azevedo


– Ainda dá tempo para mais uma história? – a moça com sotaque carregado perguntou logo que os copinhos bateram todos sobre a madeira da mesa. Bia olhou para ela ainda fazendo uma careta, a aguardente queimando a garganta. Antes que pudesse pensar, ouviu gritos alegres ao redor, dizendo que sim! Que contasse logo!


Lá fora, a placa de madeira curtida balançava na brisa fria da madrugada. A neblina surgia daqui e dali, escorrendo pelas esquinas no centro do Ouro Velho. A cidade já dormia, mas os visitantes queriam mais e o dono da Bodega já limpava alguns copos com ares de enfado. Queria que eles terminassem logo.


Na mesa do canto, onde os jovens acabaram se reunindo, Bia abriu os olhos para espantar a tontura. Era inútil, claro que era. Nem tinha bebido tanto. Duas e meia daquelas doses pequenas – a última metade tinha ficado no copo, parte esparramando sobre a toalha suja na grande mesa emendada da Bodega.


– É uma história de amor – a moça disse. Espremeu e depois abriu afetadamente os olhos. Uma ruga que era quase uma dobra de pano surgiu no canto do olho esquerdo, mas Bia pouco se deteve nela, porque os grandes olhos azuis da estranha eram quase hipnóticos àquela altura.


Quando os moradores foram saindo aos poucos, e também alguns forasteiros com os cabelos ficando cinza e rugas de verdade nos cantos das vistas, ficaram os mais moços e moças – todos sedentos por alegria, diversão, apostar bobagens, bebida e... e contar e ouvir as histórias esquisitas da cidade. Mesmo os de fora sempre tinham um ou outro causo para dividir – que viram isso, ouviram aquilo, sentiram coisas bem estranhas em algum momento da visita, nos quartos antigos das pousadas, nas encruzilhadas abandonadas das estradas e trilhas. Todo período de férias e festas, quando a pequena Ouro Velho recebia seus poucos turistas, era sempre parecido.


Mas a moça no canto da mesa, aquela com sotaque português e fios amarelos escapando singelos por debaixo da touca grossa para proteger do frio, era uma completa estranha. Bia não se lembrava de tê-la visto por ali antes.


Que fosse, seja bem-vinda e conte sua história – pensou. Mas reparou também que a portuguesa reservava um olhar atrevido e insistente na direção do rapaz ao lado do Quincas de Barros – num tempo em que o Quinzinho ainda não se perdera completamente para as garrafas de um jeito irreversível e perigoso; mas essa é outra história. Esta aqui guarda um pouco de reverência é ao outro que estava a seu lado na mesa: um pouco franzino e deslocado, enormes óculos redondos escorregando pelo nariz, o garoto parecia vidrado na estrangeira. Bianca nem se lembrava do nome dele. Droga, metade dos nomes na mesa lhe escapavam, afogados na cerveja e agora na aguardente. Até o da moça que queria contar sua história de amor desaparecera da memória, se é que ela o dissera.


Só não lhe escapava o flerte descarado entre os dois estranhos.


– E é trágica, como todas as melhores! – a portuguesa emendou.


– Conte logo – alguém disse.


– Começa com essa benzedeira viúva, plantadora de cocas, que vivia numa vila de Bragança.


– Coca?


– Cocas! – a moça confirmou. – Mas não é isso que estás a pensar, estrupício! Vocês aqui conhecem como morangas, aquelas abóboras redondas de fazer carruagem de Cinderela.


– A cabeça do Jack! – outra voz gracejou.


– Sim e não – ela resmungou já meio impaciente. – Pois fique sabendo que essa viúva esvaziava mesmo os miolos das cocas, cortava-lhes olhos e bocas com dentes pontudos e acendia velas de noite para espantar os salteadores da região – essa é uma tradição lá do norte da península, onde Espanha faz fronteira. À noite, as estradinhas mais desertas ficam iluminadas numa cor de vela alaranjada, por causa do efeito das lanternas feitas com as cocas. A que se dizer que, por lá, contamos de certo é que os corsários bretões, no passado longínquo, ao verem essa artimanha dos patrícios que moravam mais próximos da costa, para cima ainda do Porto, acharam uma ideia boa. E levaram o costume para a Inglaterra. E depois é que o costume atravessou o Atlântico e foi parar nos ombros do Cavaleiro Sem Cabeça dos ianques. E nos filmes de terror. Portanto, foram eles que copiaram nossas tradições!


– Onde disse mesmo que era essa história?


– Bragança. Fica no norte de Portugal.


– Pensei que as histórias eram sobre Ouro Velho.


Cada interrupção vinha de um ponto da mesa e Bia já não conseguia distinguir de que lábios brotava. Decidiu que precisava parar de beber. Talvez pedisse um pouco de água. Quando o moleque que servia as mesas passasse, pediria uma garrafinha.


– E quem disse que não é? – a moça retrucou sorrindo, os olhos escapando rapidamente na direção do rapaz de óculos. Esse parecia vidrado, realmente hipnotizado. – Talvez eu esteja aqui para descobrir mais sobre o que aconteceu com a viúva e sua família, depois que tiveram que fugir da terrinha. E talvez eu tenha descoberto e esteja lhes contando agora. O que sei é que eles vieram para cá, para viver num ponto desta mata onde nem os seus sacis e curupiras vão, porque dizem... tem uma coisa lá. Uma coisa que vigia a passagem depois da última fazenda da cidade, lá onde a Mata aponta seu dedo avisando: deem o fora, que não são bem-vindos!


– Uuuuuuuhhhh! – algumas vozes bêbadas ruidaram.


– Deixe a moça contar!


– Conte então!


– A história começa com o casamento do filho parvo que a viúva entregou para uma galega assanhada. Pois a viúva nunca gostou da rapariga, uma dessas meninas alegres demais para manter os respeitos debaixo da saia do vestido – a velha dizia. E essa quenga se enrabichou pelo garoto e entortou seu juízo como bagaxas profissionais fazem com os tolos. Esta aqui queria casamento. Carregou o fedelho para a igreja daquele padre francês que, diziam as línguas ferinas da cidade, tinha um gosto peculiar em confessar as mulheres. Quanto à galega, logo embarrigou do primeiro rebento.


1


Ela não gostava de trabalhar, a vagabunda. E vivia debaixo das reclamações da viúva, que as vizinhas chamavam de... Dona Coca! Percebes? Era assim por causa das morangas. A plantação descia pelas encostas da colina em que viviam. E era respeitada como poucas, porque também era parteira da vila, benzia as doenças e tropeços dos aldeões, dava conselhos e, para poucos, até remédios malignos quando a justiça não era suficiente, nos casos extremos.


Pois por volta do terceiro neto, a viúva foi se confessar com o padre – um sujeito alto, altivo, de fala leve e sorriso fácil. Gostava de conversar colocando a mão, pegando, deslizando os dedos – era desses. E as moças e até as casadas viviam de sorrisinhos quando estavam perto. Um moçoilo perdido para os desígnios de Deus, até as mais velhas comentavam abanando o rubor das faces. Um Amaro do velho Eça.


Dona Coca, que não era uma quarentona de se jogar fora, debulhou seus pensamentos venenosos nos ouvidos do padre. Queria matar aquela safada que passava o filho na cara. Mas tinha medo de fazer alguma coisa e o menino murchar de tristeza. Portanto que estava ali para que o representante de Deus lhe tirasse aquelas ideias da cabeça. Só que o pároco, aquele safado, queria era outra coisa. O famigerado lhe passou a catequisar no amor.


Pois esse amor lhe durou até que o pior aconteceu. Bem... pelo menos o pior até aquele momento, porque de tudo... houve coisas beeeem piores.


O fato é que a viúva Coca era uma mulher possessiva e, ao longo do tempo, foi se tornando muito mais temida que respeitada. Inclusive pelo padre, que tinha suas razões. Ela passava dos limites. Gostava de arranhar e morder. E bater. E gostava de fazer sofrer. Foi até tomando gosto pela coisa. Um dia lhe arrancou sangue. Com os dentes!


O caos se instalou primeiro quando um dos maridos da vila descobriu o que o padre fazia. Não podiam punir de fato um representante da Santa Igreja, não como queriam. Estamos falando de dois ou três séculos atrás e a santidade de Roma era coisa com que capeta nenhum sonhava incólume. E nem queriam condenar todas as mulheres adúlteras ou pecadoras porque eram suas mães, irmãs, esposas e filhas!


Sim, o padre era bom no que fazia, aquele canalha.


Portanto, decidiram expulsá-lo. Mas também queimar na fogueira a única mulher que era distante e cuja convivência se tornara incômoda o suficiente para se imaginarem sem. O único homem que a podia defender era um parvo com seis filhas remelentas brincando numa ladeira coberta de cocas. Além do mais, a viúva tinha todas as características de uma bruxa: curandeira, benzedeira, maldizente e meio eremita lá em suas terras.


De uma noite para o dia, a viúva teve que fugir da vila. Arrastou seu filho e a família para uma nau que partia do porto de Lisboa. Passaram fome e quase morreram nos longos meses da viagem. Adoeceram, mas ninguém passou, porque ela carregou seus pós e plantas e rezas com eles. E carregou outra coisa: o padre agora renegado, com a promessa de que seria ele a renegar o ofício da cruz para viverem sob o mesmo teto.


2


A casa, que construíram num remanso não muito distante da vila que se tornaria esta cidade onde estamos, era quase um esconderijo. A viúva tinha medo de que outros colonos os reconhecessem e quase nunca saía de sua toca – uma toca de verdade, porque erigiram as paredes de barro numa meia água contra uma encosta íngreme, rochosa, com uma gruta que descia por quase seis metros até o nível do rio.


Enquanto o filho e o padre, agora seu marido, trabalhavam na plantação de cocas que subiam feito mato ladeira acima, até a borda da mata – brotando maiores e mais vistosas por conta do clima úmido de quase todo o ano – a Coca se dedicava a aprender mais sobre todas aquelas plantas e coisas estranhas do novo mundo. Aprendeu os jeitos dos bichos e as receitas dos índios que viviam entranhados além das colinas mais altas da serra. Viu curas que pareciam impossíveis e criaturas que nem nas lendas mais fantasiosas de nossa terra seriam imaginadas.


Criava uns bichinhos escuros, que pareciam expulsos até da Mata. Uns demoniozinhos de cabeças longas, que terminavam num tufo murcho de pele vermelha, igual a um capuz, uma carapuça. Tinham só uma estriada calda que se parecia com apenas uma perna, e eles saltitam por aí com ela. Cheiravam a fumo e devoravam qualquer coisa que ela lhes desse. E o cuspe de suas línguas... curava até ferimentos de morte.


Aprendeu a costurar as peles rasgadas de cortes das netas, quando elas se machucavam. E a misturar unguentos que eliminavam cicatrizes as mais profundas. Afastava os colonos da vila com suas cocas malditas espalhadas pelo caminho, iluminadas por fogos de santelmo que aprendeu a prender com mandingas copiadas dos seres da Mata. Quando um grupo de soldados aparecia para cobrar-lhes os impostos da terra, ela lhes dava café com misturas que quase os matavam de dores terríveis. Ou mandava seus diabinhos de estima expulsarem os brutos lá de cima da trilha mesmo, antes de chegarem.


Com pouco tempo, duas coisas aconteceram: a família reclusa no remanso passou a ser tratada como perigosos feiticeiros – temidos até pelos escravos velhos que professavam os deuses africanos e conjuravam espíritos que dançavam nos tambores das senzalas. Quando o marido da Coca vinha à vila buscar mantimentos, reparavam em como vivia cheio de marcas, cortes e queimaduras. Era um homem acabado, exaurido, destituído de vontades como era o filho da bruxa encarquilhada – sim, a viúva Coca foi envelhecendo de uma maneira bem ruim, envenenada por seus próprios malfazejos, enlouquecendo de uma fome que lhe salivava ao ver as carnes dos bichos ainda meio cruas até. Aprendeu com algumas criaturas que o melhor sabor e a melhor parte das almas das coisas se perdia com o fogo: então as queria cruas.


Até que numa manhã, ao sair de sua toca por uma porta que levava à cozinha da casinha baixa, deu-se com a cena triste de seu padre acalentando as lágrimas da galega, embuchada pela sétima vez.


– O que está acontecendo aqui? – a viúva perguntou.


E os dois criminosos se voltaram algo assustados.


– A Mocinha teme pelas menininhas – o padre-marido defendeu de imediato. Era um bom argumentador. Era bom com as palavras, o desgraçado. – As crianças vivem doentinhas, acho que é o ar aqui. E o que será da criança nova? Acho que é...


– Não tem nada de errado com o ar daqui. E das pestes cuido eu. Vou tratá-las com meus remédios e não se fala coisa disso!


É claro que aceitaram. E que a Coca insistiu para a nora também se tratar com seus emplastos e misturas. Carregou a Mocinha para dentro da gruta, deitou-a nua sobre a pedra e banhou e benzeu todo o corpo com um mato molhado. Cobriu-a com ele e com um pó de pedras cascorentas que buscava nos confins da Mata. E com lascas de escamas duras de lagartos e cobras. Besuntou e violou seu ventre com a desculpa de proteger-lhe o feto. Quando libertou a rapariga, sete dias depois, enganou que jamais a menina teria doença qualquer. Nem seu filho esperado – porque estavam certos de que seria um menino desta vez.


3


A doença veio aos poucos. No começo, apenas pequenos descamares de pele nas partes pudendas do padre miserável. E a velha Coca, tratou dele em silêncio, enquanto o miserável definhava e se tornava um monstro deformado aos poucos. As peles lhe iam caindo. Os cabelos desapareceram. Placas duras foram surgindo primeiro nas costas, como pedaços quebradiços que em coisa de um mês tornaram-se como escamas escuras, apodrecidas.


Estava provado o pecado: o padre-marido e a galega imprestável a traíam, porque ele pegara dela a mandinga misturada com as ervas socadas ventre adentro. Pois quando foi relatar a traição ao parvo plantador de morangas, seu filho, a Coca percebeu seu erro. O rapaz era um homem a esta altura e ela o encontrou no alto do roçado, desbastando parte da mata. Em suas costas, placas escuras espalhavam-se feito praga, a mesma doença do homem que agora prendia na cama dentro da gruta.


Sim, seu consorte infiel e a galega eram amantes. Mas seu filho também provava dela. E era um rapaz mais fraco que o padre. Da saúde corpo. E da saúde na mente.


Padre e filho definharam, sem que a bruxa pudesse fazer nada – porque não encontrava receita que revertesse o envenenamento. E à medida que o nascimento da sétima criança se aproximava, o rapaz enlouquecia. Até que, num acesso de raiva, ele acabou entendendo o que havia lhe acontecido. Entendeu todas as traições. E elas o devoraram como peste!


Abilolado das ideias, decidiu que toda a culpa era de sua mãe. E do padre pecador. E da mulher que se deitava com qualquer outro. Todos os males que havia sofrido, a expulsão de sua terra, os maldizeres do povo da vila... E que até as crianças lá fora eram culpa deles!


Começou a olhar as filhas com olhos ruins, porque a dúvida se tornou um fel amargo na garganta. Eram filhas suas ou eram daquele padre crápula?


Ou de qualquer outro?


Isso o torturou nas semanas seguintes. Ele confrontou a mãe, confrontou a mulher, o padre... até as filhas maiores ele espancou para que confessassem o que nem podiam saber. De qualquer forma, a essa altura nem se precisava confessar pois nada. Para ele, estava cercado de crianças estranhas a seu sangue. Nenhuma o tinha nas veias. Eram todas filhas da traição, do pecado e da maldade. E no dia em que a velha Coca levou a nora para parir no fundo da gruta... porque eles achavam que a criança nasceria morta com a doença do veneno no ventre da galega... seu filho perdeu-se completamente da razão.


Enquanto a galega gritava de dores (que acabariam deixando-a às portas da morte em minutos), lá no Remanso, perto do rio que passava abaixo da casa, o rapaz matava o padre. Acertou nele com uma machado afiado. Destroçou sua cabeça, seu peito e sua virilha. Jogou para os peixes do rio e para os sacis carniceiros que sua mãe tratava como animaizinhos de cria. Logo em seguida, voltou-se para as filhas.


A galega já estava quase morta do parto. No fim das contas, não foi um menino que nasceu. Veio a sétima filha, uma menina com a pele cascorenta, o rosto deformado como se as mandíbulas quisessem saltar para fora. Os ossos pareciam solidificados nas juntas e ela estalava quando se mexia. Era o resultado do veneno que emplastara no ventre da nora.


Horrorizada, a velha pensou em afogar a criança no poço que havia no final da caverna abaixo da casa, mas teve pena. Lá fora, duas ou três meninas fugiram pela trilha que levava para onde hoje fica a fazenda dos Ventura. Cá dentro, o filho entrou arrastando outras. Ia matar a todas.


4


A velha tentou salvar as meninas, mas não foi forte como deveria. Acabou com uma adaga fina enfiada no peito, atravessada pelo próprio filho. Ele se voltou para as outras e as matou. Ele enfiou suas cabeças no poço e apertou seus pescoços assim, com as mãos brutas e o ódio e loucura lhe escapando pelos poros, pelas vistas, pelas narinas, por entre os dentes.


Mas então aconteceu uma coisa. Da fresta por onde se chegava na casa vieram aqueles bichinhos saltitando e se arrastando. A velha os alimentava e os cuidava. Eram seus. E quando a viram morta, os sacis besuntaram sua boca e seu ferimento com a gosma de suas línguas. E ela se levantou.


5


Uma a uma as crianças foram morrendo. E chegou a vez da bebezinha deformada, uma lagarta encruada nos trapos que a velha lhe enrolara. O pai a enfiou no poço. E a esganou. Não precisou de muito para acabar com o último fio de vida. E quando estava tudo perdido já, a velha ressuscitada acertou o demônio que criara com o mesmo machado que o desgraçado usara no padre.


Chorando, a velha agora morta e viva pediu aos diabinhos que trouxessem de volta a menina também. Só a menininha! Não se importava com as outras, mas esta aqui... ela era assim por sua culpa! Além do quê... tinha outra cousa: o filho lhe acertara o coração e ela sabia, a velha sentia que não duraria muito a definhar e apodrecer. Já a criança...


A criança tinha toda a vida e talvez mais que isso pela frente.


Dizem que Velha conseguiu se passar para o corpo da menina deformada. E foi crescendo forte, alimentada a sangue e carne pelos diabinhos, aprendendo sobre as ervas, sobre os males, sobre as curas e venenos, sobre cada coisa estranha que vivia na mata. Sobre os moleques traiçoeiros de pés tortos, sobre cobras de fogo, bichos que tinham chamas no lugar das cabeças... E também cresceu sabendo de coisas da terra de além-mar que podiam assustar aqueles seres, mantendo-os longe, porque eram outras mandingas que eles não conheciam.


Mais crescida, andava feito bicho pelas cercanias da vila e raptava crianças para comê-las. Era muito branca e de cabelos muito amarelos, finos e quebradiços. As deformidades lhe deixaram com uma aparência aterrorizante. A pele escamava aos poucos, primeiro formando aquelas placas que iam endurecendo e depois caindo – como escamas. Os dentes eram tortos e se espalhavam horrendos no sorriso assustador que exibia às vezes. Andava encurvada e sibilava também.


Um dia, a pequena Coca já algo crescida roubou essa moça de uma caravana que saía da cidade. E depois de comer suas carnes, teve aquela ideia: usar o couro da morta para ir buscar alimento na vila. E vestiu-se com aquelas peles, usando aqueles unguentos que aprendera para apagar as costuras. E pela primeira vez começou a buscar alimento entre os aldeões da vila. A primeira saca de mantimentos era um velho gordo que gostava de meninas. Ela o enganou e o trouxe para a Mata.


Ao longo dos meses, invariavelmente desaparecia um morador do arraial. E as autoridades ficaram desconfiadas. Ora, era preciso ter mais cuidado. De modo que a menina, já com certa idade, decidiu que seduziria os pecadores da estrada, os viajantes e os visitantes, de quem não dariam muita falta na vila. Isso não funcionou como o esperado, porque num determinado ponto ela acabou sendo reconhecida por um plantador de milho ao arrastar um soldado da coroa para a Mata. Num revés, um batalhão entrou no remanso atrás da estranha jovem que fazia os homens desaparecerem sem deixar vestígios. Lá embaixo, encontraram a casinha velha e a incendiaram. Quando tudo desabou, eles descobriram também a gruta.


Lá embaixo, encontraram pilhas de ossos. E carnes salgadas descansando em varais feitos com fios de tripas. Pior, bem lá no fundo, escondida numa reentrância, perceberam outra coisa. Era uma criatura. Ou era um bicho. Estava coberto com sangue e mastigava um pedaço de carne. Um dos soldados preferiu não se aproximar, porque nas sombras a coisa se parecia com... com...


– É a porcaria dum jacaré, olha aqueles olhos amarelos.


– Parece que está de pé... – outro meteu-se a retrucar, tentando levantar os lampiões, mas não adiantava porque a luz no fundo da gruta parecia se enfraquecer.


– Tem cabelos.


– Deve ser do homem que a velha Coca arrastou para cá – e apontou para o uniforme militar jogado pouco à frente da reentrância na parede.


– O cabo Elias não era louro. E foi uma moça nova que o atraiu.


– A moça pode ser macumba da velha. E o amarelo daquele cabelo deve ser reflexo da luz. O diabo que vou descer naquele canto para arrastar esse bicho. Se não for a desgraçado de um jacaré...


A pequena Coca grunhiu lá de baixo, lá do fundo. E isso os convenceu a não descer um passo mais na gruta.


Mudaram as rotas da vila. Proibiram as caravanas e carroças de andarem sem guarnição à noite. O que se dizia por todo lado é que um bicho raptava os desavisados para se alimentar. Simão de Albuquerque, escrivão da vila, exibiu uma sentença de captura, que acabou se revelando inútil, porque ninguém nunca a capturou. Pregou no poste da forca por uma semana. Não sabiam o que a criatura era de fato, mas lembravam que era lá que a velha das cocas vivia. A velha Coca. De fato, ele repetiu no papel o nome que havia entendido dos soldados portugueses. Só que entendeu errado.


E grafou errado.


Rezava no documento que tomassem cuidado os viajantes, os moradores. E que sob os rigores da coroa, estaria remunerado o bravo que a matasse e trouxesse sua cabeça. A cabeça da velha feiticeira que aterrorizava o arraial e a estrada para a cidade. Ou de seu bicho entocado no fundo da gruta. Durante dias, as crianças corriam para ler os crimes bárbaros que atribuíam a ela. O papel com as acusações rodou depois de mão em mão, amarrotando-se, enrugando, endurecendo, amarelando. Craquelou, escamou e os pedaços foram levados pelo vento. Exceto este aqui...


6


De volta à mesa da Bodega, Bia sentiu-se como que emergindo de dentro da história. Abriu os olhos naquela mesma tentativa de antes – de se recuperar da quase embriaguez que deixava sua vista turva. Olhou com interesse quando a moça com sotaque retirou, de dentro de um bolso escondido do casado, um plástico com alguma coisa amarelada dentro. Ela colocou delicadamente sobre a mesa e os doze curiosos que ainda estavam ali – agora estranhamente calados – esticaram-se para ver.


Era mesmo um pedaço de documento antigo.


– Um padre bragantino recuperou esse documento e colou as partes que encontrou. Isso foi algum tempo depois da morte da Coca, quando outras pessoas começaram a desaparecer. Daí começaram a dizer que a velha havia se tornado um espírito ou um ser maligno que vinha cobrar os pecados de homens e mulheres adúlteras que encontrava sozinhos na estrada. Houve relatos de pessoas sendo atacadas por uma criatura que era meio mulher e meio lagarto ou jacaré.


– Espera aí... – um dos rapazes na mesa disse. Pegou o plástico e levantou diante dos olhos.


O escrivão anotara mesmo errado o apelido da viúva plantadora de cocas. O que havia entendido dos soldados portugueses estava ali na tinta quase apagada. No lugar de Coca, escreveu Cuca. Condenada à morte por seus crimes de feitiçaria, canibalismo, adoração ao demônio, rituais pagãos e outras crendices insanas.


O rapaz sorriu e o plástico com o resto do documento foi passando de mão em mão.


– E também dizem que a menina cresceu procurando casais com seis filhas para preparar a sétima, que precisa substitui-la.


– Te cuida, Quinzinho! – Bia disse para o rapaz no outro lado da mesa, ao lado daquele com os óculos redondos, vidrados na portuguesa. A voz lhe saiu mole ainda por causa da cachaça. Não devia ter bebido.


O sétimo filho do Palmério de Barros deu uma gargalhada, depois estendeu os dedos em forma de garras e mostrou os dentes.


– Cuidado com a Cuca que a Cuca te pega! – ele grunhiu.


7


O bodegueiro os expulsou depois de mais dez minutos. A noite lá fora caía fria e com a neblina densa cobrindo os topos das casas. Mal dava para ver além do quarteirão seguinte. Os rapazes e moças foram tomando rumo das pousadas, caminhando encolhidos e meio zonzos.


– Vem, eu te levo até a casa do seu pai – um dos garotos chamou por Bia, aparecendo pela porta e quase caindo depois do degrau de pedra na entrada da Bodega.


– Acho que você precisa mais de companhia do que eu.


Ele não respondeu. Era o Quinzinho. Só riu. Acabaram caminhando pela frente da praça da matriz, trocando este ou aquele assunto.


– Acha que pode existir mesmo uma criatura deformada nos confins da Mata? Que veste o couro de uma pessoa morta e vem buscar vítimas no arraial ou na estrada?


– Meu pai diz que tem de tudo por aí – o Quinzinho respondeu. – Conta até que um tio avô morreu ainda rapaz, pelas mãos de um bando de curupira e uma sereia do rio que o devorou!


Riram. Já ter visto coisas estranhas e saber de histórias fantásticas não trazia veracidade para qualquer outra, mas Bia sentiu um arrepio na nuca quando ouviu a porta da Bodega se fechar lá atrás. Virou-se instintivamente para ver.


O bar estava às escuras agora.


Seus olhos caíram sobre o casal seguindo na direção contrária. A névoa quase os cobria, mas conseguiu distinguir a portuguesa caminhando de braço dado com o rapaz que estivera ao lado do Quinzinho de Barros até há pouco, lá na enorme mesa da Bodega. Aquele com os óculos redondos, o olhar vidrado e quase apaixonado, com quem a misteriosa contadora de história flertara insistentemente.


Em poucos segundos eles desapareceram na neblina e na escuridão.



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© 2020 Jefferson Sarmento