© 2019 Jefferson Sarmento

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Ascensão, de Stephen King

Delicado, sem grandes ambições e algo triste


Gosto das histórias mirabolantes e extensas como quebra-cabeças complexos que Stephen King despeja nas livrarias todo ano - feito tijolos pesados em vidraças cristalinas!


Mas é em histórias simples e diretas que ele mostra seu lado que mais me fascina: sua capacidade de descrever os dramas humanos acima da veia sobrenatural de seus livros. Ah, sim: as coisas estranhas que humanos experimentam nas suas narrativas estão ali sempre, mas são um adereço que serve de gatilho, estopim ou apenas de fachada para a construção de relacionamentos, medos comuns, amizade e um grau de amargura.


Ascensão é isso: uma novela rápida sobre a dificuldade de nos relacionarmos com o outro porque nossas crenças ou certezas estão acima das deles, das de qualquer um - e quando alguém sugere o contrário, é como se nos ferisse de morte, como se nos atacasse diretamente. Aqui entra o personagem de Scott, que atravessa a história com a missão de arrumar as coisas antes de... ascender! Literalmente - mas você vai ter que ler para entender.


Estamos de volta a Castle Rock, a cidadezinha mais querida por Stephen King e seus leitores, e vislumbramos seu conservadorismo tóxico e sua gente comum, enquanto algo muito estranho começa a acontecer com Scott Carey. Durante alguns poucos meses nós o acompanhamos tentando ser um sujeito comum. Tudo o que ele mais quer no momento é provar para o casal formado por Deirdre e Missy que pode ser um bom vizinho - desses que você bate à porta à tarde para pedir um xícara de açúcar.


Bem, ele também precisa frear os impulsos do Dr. Bob de levá-lo a uma clínica ou laboratório para tentarem descobrir o que diabos está acontecendo com ele.


Ao redor disso está o nariz torcido da sociedade para o casal de garotas que abriu o restaurante vegano no centro da cidade, a tradicional Corrida do Peru e o Dia Zero: o momento em que a estranha "condição" de Scott chegará ao seu ápice - algo que ele encara com, digamos, leveza e tranquilidade.


Ascensão pode ser lido com um ou dois tapas, é um texto leve e gostoso, algo triste - porque não conseguimos nos sentir na pele de Scott, que insiste que está tudo bem! Nós nos vemos em seus amigos - que acabam unidos por um sentimento verdadeiro e singelo, tocando levemente a cidade de puritanos conservadores e influenciando em seu dia a dia, sem violência, discursos lacradores ou bastas verborrágicos - algo que Scott até ensaia, quando vai discutir com um brutamontes na lanchonete, mas que acaba deixando de lado serena e competentemente.


Por fim, Scott acaba ascendendo a uma solução bem mais... tocante! E fechamos o livro com um sorriso incerto no rosto, de que mesmo os finais não exatamente felizes podem ser grandiosos e sentimentais.



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