• Jefferson Sarmento

Chamas da vingança (1984)

Maratona de Filmes baseados na obra de Stephen King

Definido pelo próprio Stephen King como um purê de lanchonete (insosso, pálido, sem gosto), A Incendiária poderia ter sido um filme bem melhor se tivesse John Carpenter como diretor. O cara responsável pela adaptação de Christine, o carro assassino, esteve por um tempo trabalhando na pré-produção de Firestarter, mas... não rolou.


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A Incendiária tem um elenco bastante interessante e efeitos especiais bem feitinhos, mas é uma das piores adaptações de uma livro do Stephen King. Em resumo: é um filme chaaato.

A produção (capenga) é de Dino DeLaurentis — o mesmo que produziu Zona Morta, dirigido pelo David Cronemberg. Na verdade, o livro A Incendiária não é um dos meus preferidos do Stephen King. Aliás, passa longe. É um tipo de história a que ele retorna, vez por outra, como na série Golden Years, de 1991, ou no recente O Instituto, livro lançado aqui do Brasil ano passo.


Nesse tipo de história, uma dessas agências secretas do governo americano está sempre atrás de alguém que tem certos poderes especiais, é responsável por experiências com fins militares e não se importam nem um tiquinho com a vida das suas... digamos... cobaias.

O fato é que nenhuma das histórias com esse gancho, com esse tipo de plot me agrada muito. Talvez seja uma questão de gosto pessoal, mas essas narrativas acabam me soando forçadas, meio... plásticas. Pasteurizadas.

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A adaptação do livro A Incendiária foi oferecida ao diretor John Carpenter, durante a produção de The Thing, clássico que aqui no Brasil se chamou O Enigma do Outro Mundo, filme que eu adoro, mas que quando foi lançado, teve uma bilheteria muito aquém do que a Universal esperava.

John Carpenter já tinha até encomendado um roteiro, escrito por Bill Lancaster, filho do ator Burt Lancaster (que inclusive esteve cotado para interpretar o Capitão James Hollister, mas defenestrou-se da produção por conta de uma cirurgia no coração), mas o fracasso de Enigma do Outro Mundo fez o estúdio mudar de ideia.


A direção então ficou a cargo de Mark Lester, responsável por filmes B até então, que por aqui você nem deve ter assistido ou se lembrar, mas que um ano depois de Chamas da Vingança dirigiria Comando Para Matar, com Schwarzenegger, seu ápice como realizador – que na verdade é outro filmão B, com roteiro capenga que, não fosse por Arnold, astro do momento, a gente nem teria assistido.


Mark Lester, por sua vez, chamou Stanley Mann (que também participa como ator no filme) para refazer o roteiro, que segue muito de perto a história do livro.

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Mas vamos à história de A Incendiária.


Stephen King conta a história de fuga da menininha Charlie McGee, filha de um casal que se conheceu quando aceitaram participar de umas experiências estranhas quando estavam na faculdade. A grana estava curta e eles acharam de fazer alguns trocados em nome da ciência, junto com outros estudantes duros.


Só que a experiência era bem mais perigosa do que eles sequer imaginavam. E, como efeito colateral, eles desenvolvem alguns poderes paranormais.


Andy McGee emerge do experimento com o poder de fazer com que as pessoas acreditem no que ele quiser que elas acreditem. As pessoas inclusive veem o que ele sugere que elas devem ver.


Já Vicky Tomlinson adquire o poder de ler mentes!


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Quando a história começa, anos depois dessa experiência, Andy está em fuga com a filha. E Vic está morta. A Oficina, o órgão governamental responsável pela experiência original, está atrás deles. Os vilões da vez, na verdade, estão muito mais interessados em Charlie, interpretada no filme por Drew Barrymore — que dois anos antes foi a fofinha irmã de Elliot, em ET, o Extraterrestre, de Steven Spielberg.

Acontece que aquele efeito colateral do experimento, que deu poderes a Andy e Vicky, fez com que Charlie nascesse com poderes pirocinéticos – ela toca fogo em tudo só usando a mente.

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A história na verdade é dividida em dois grandes atos: a fuga de pai e filha — com flashbacks sobre a experiência na faculdade, sobre a vida do casal depois disso, até chegar ao momento em Vicky morre e Charlie é sequestrada, e Andy parte para resgatá-la. Esse primeiro ato funciona como uma história de estrada em que os vilões estão sempre a algumas páginas de capturá-los.


O segundo grande ato começa quando os dois são finalmente capturados. E levados para a sede da Oficina. Desse ponto em diante, a história se torna uma eterna tentativa de fazer com que Andy e Charlie cooperem com a agência, com tortura, jogo de cena, tentativas de dissuasão mais carinhosa, enganação... Até chegarmos ao ápice apocalíptico pirocinético!


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Eu reli A Incendiária na belíssima nova edição da Suma, da série Biblioteca Stephen King, que reedita alguns títulos antigos do escritor nesse formato de capa dura, com diagramação super caprichada.


Na verdade, eu estava com preguiça de reler o livro, justamente por não ser muito fã dessa história. Mas aí... aí eu me deparei com a deliciosíssima tradução da Regiane Winarski, uma das melhores tradutoras hoje no Brasil, responsável por vários livros do Stephen King (It, A hora do lobisomem, Ascenção, O Instituto, entre outros), e a leitura foi fluida e saborosa – eu adoro usar essas comparações culinárias!


Já o filme...

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Bom, o filme não tem jeito...


... apesar de um elenco até legal, que conta com Martin Sheen (no papel que seria originalmente de Burt Lancaster) e George C. Scott – grande ator, diretor e produtor que em 1970 recusou a estatueta do Oscar por sua atuação no filme Patton, rebelde ou herói?, alegando motivos filosóficos: ele dizia que cada atuação (de cada ator e cada personagem) é única, que não pode ser comparada ou medida com nenhuma outra.

Esses atores não conseguem salvar o roteiro chato e arrastado, picado... do filme entregue por Mark Lester. Você se arrasta por longas duas horas e se pergunta por que diabos ficou ali sentado esperando aquilo acabar.


Uma agonia.


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E para acabar esse post, uma última curiosidade: dois anos antes de Drew Barrymore ser escalada para o filme, a mãe dela comprou a edição de bolso de Firestarter num supermercado e disse pra menina que Charlie era muito parecida com ela. A própria atriz deu uma entrevista uma vez dizendo que leu o livro (vamos lembrar que Drew Barrymore tinha 8 anos quando atuou no filme, portanto seis quando a mãe lhe comprou o livro) e que entrou correndo na cozinha gritando que ela era A Incendiária, ela era Charlie Mcgee!

Mas não foi assim tão fácil: para o papel de Charlie, Drew Barrymore chegou a competir com a atriz Heather O´Rourke, de quem já havia perdido a personagem Carol Anne Freeling, do filme Poltergeist, de 1982. Como prêmio de consolação naquele ano, Drew acabou sendo contratada para ser a menininha Gertie, de Et, o Extraterrestre.


Seja como for, você não precisa ficar só com minha opinião: leia o livro A Incendiária e assista ao filme Chamas da Vingança. Tire suas próprias conclusões e vamos conversar sobre isso.


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