• Jefferson Sarmento

Christine, o carro assassino

Maratona de filmes baseados na obra de Stephen King


A Maratona de filmes baseados na obra de Stephen King está de volta com Christine, o carro assassino, de 1983.


Embora tenha sido produzido pelo mesmo Richard Kobritz, responsável pelo telefilme Salen's Lot, Christine tem algumas diferenças marcantes: é um ótimo filme B e a direção de John Carpenter (especialista em filmes de terror criativos e baratos) não o deixa ficar cansativo nem um minuto.

Segura aí que a gente volta já-já.


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A história de Christine, livro e filme, acompanha o nerd Arnie Cunningham e sua fixação por um Plymouth Fury 1958, vermelho como o diabo, que parece (e tem) vida própria. Um carro maldito, assassino e que toma conta da mente de Arnie com a facilidade com que uma má companhia levaria um adolescente carente para o vício, o crime e a morte em pouco tempo.


O filme tem diversas diferenças aparentemente sutis em relação ao livro, alterações que não interferem na essência da história – ou pelo menos na maior parte dela. Trocar o estado da Pensilvânia pela Califórnia não alterou em nada o texto. Reduzir uma ambientação, eliminando o estacionamento do aeroporto onde Arnie guarda Christine por um tempo, centrando toda essa parte na garagem/oficina “Faça você mesmo” de Will Darnell, também não muda nada de essencial.


Eu acredito que a explicação para a maior parte dessas alterações está no tempo que se levaria para contar nas telas uma história longa e densa como as que Stephen King escreve, além, é claro, da quantidade de personagens secundários da obra. Christine, o livro, tem mais de quinhentas páginas e descreve detalhe por detalhe a mudança de comportamento por que Arnie passa, cada confronto com algozes e amigos, a história pregressa do carro, o ambiente familiar e escolar. Adaptar tudo isso em uma hora e quarenta é quase impossível. E é aí que o filme perde bastante qualidade no quesito "continuidade".


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Stanley Kubrick usou de um artifício em O Iluminado que Stephen King odiou - sendo este o motivo oficial para defenestrar o filme categoricamente até hoje. Já falei sobre isso no vídeo sobre O Iluminado, que no livro o Jack Torrance é um bom marido e um pai preocupado que enlouquece sob influência do Overlook. O personagem do Jack Nicholson no filme, porém, parece degenerado desde o início - sensivelmente controlado, mas pronto para explodir. Eu imagino que Kubrick soubesse que seria complicado mostrar a evolução de um personagem de 400 páginas em um filme. O fato é que, no filme O Iluminado, em momento nenhum você torce pelo Jack. Já no livro, é possível até sentir tristeza pelo desvario e enlouquecimento por que ele passa.


Já Christine não é um filme ruim, mas parece afobado, feito aos trancos. Divertidíssimo como filme de terror e distração. Mas poderia ser melhor.


3


Ainda assim, e voltando a uma comparação meio capenga com o desenvolvimento do personagem de Jack Torrance no filme do Kubrick, o desenvolvimento do personagem do Arnie em Christine, do John Carpenter, é muito mais próximo do original do livro. Ele é um garoto tímido, esquisito e deslocado, perseguido pelos valentões e que precisa de um amigo descolado e mais forte para se proteger. E o desenvolvimento da loucura que é a paixão do garoto pelo carro – e do carro por ele, num relacionamento de possessão amorosa demoníaca – é muito clara e a linha evolutiva disso não se perde – dá um ou outro salto, aqui e ali, mas não se perde.

Parte disso se dá pela competência e carisma do ator, Keith Gordon, com aquela cara de nerd esquisito e quase caricatural – além de Christine, ele estrelou Vestida para Matar, do Brian De Palma, dois anos antes, e depois se perdeu em alguns poucos papeis obscuros ao longo dos anos, até se tornar diretor e produtor no final dos anos 1980, trabalhando até hoje na direção de seriados e um ou outro filme.


A transformação que o ator vive com o Arnie Cuningham descamba às vezes para aquelas caretas meio caricaturais, como se ele tentasse repetir o que o Jack Nicholson fez com o Jack Torrance. Em Christine, de qualquer forma, na maioria das vezes, principalmente perto do final, os trejeitos de assassino psicótico apaixonado ficam bastante impressionantes e assustadores de verdade.


Keith Gordon, que aliás ficou com o lugar de Kevin Bacon na produção, que optou por fazer Footloose naquele mesmo ano, chegou a dar entrevistas dizendo que encarava Christine como uma mulher de verdade e que, quando tocava no carro, imaginava em que parte do corpo dessa mulher ele estava tocando.


Cada doido com a sua mania!


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Sim, existem várias diferenças entre livro e filme. Mas no meio delas há apenas uma que eu considero equivocada. O filme opta por mostrar Christine como um ser assombrado por si mesmo, mau até os canos de descarga desde o início – ou mau até os ossos, como George Thorogood canta da música que fecha o filme (a mesma que toca em Exterminado do Futuro 2, quando o T800 sai da bar, no começo do filme, toma a moto, as roupas e os óculos de uns membros de gangue e sai rodando por Los angeles).


No livro, Stephen King sugere (nunca confirma de fato) que o fantasma de Roland LeBay, o primeiro proprietário de Christine, seria o responsável por assombrar o carro e as nuances da transformação de Arnie apresentam claras semelhanças entre ele mesmo e o antigo dono do Plymouth. É como se o Arnie estivesse sendo tomado, possuído não por Christine, mas por LeBay.


No filme, Arnie é um amante enlouquecido por uma assassina que, mesmo destruída, arrebentada pelo vilãozinho da vez, o Buddy Repperton (que é um personagem muito semelhante ao Billy Nolan de Carrie, a estranha, aquele vivido por John Travolta no filme do brian De Palma), revive e se reconstrói para se vingar dos seus algozes e dos de Arnie. E, por fim, vingar-se dos próprios amigos de Arnie, que passam a encarar o carro como esse ser demoníaco e assustador.


Seja lá como for, Christine é um filminho legal. Dá pra assistir sem reclamar muito. O John Carpenter, diretor de filmes bacanérrimos como “O enigma de outro mundo”, “Halloween”, “Fuga de Nova York”, “Os aventureiros do bairro proibido”... entregou um grande filme B com o texto do Stephen King – aliás, a produção do filme começou antes até de o livro ser lançado, tamanho era a popularidade do escritor naquela época – e hoje também, né?

John Carpenter conseguiu comprar 24 Plymouths em estados de conservação os mais diversos, montou 17 com as peças desses e a maior parte não eram do modelo Fury, original de Christine. Eram modelos Savoy e Belvedere, pintados de vermelho porque a produção não conseguiu encontrar um Fury para comprar. Além disso, nunca foi produzido sequer um Fury vermelho em toda a história da Chrysler. Sobretudo em 1958. Mas Stephen King, aparentemente, não sabia disso enquanto escrevia.


Mesmo assim, um Fury vermelho 1958 hoje soa como a coisa mais plausível e natural do mundo. Não poderia ser de outra forma!



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