• Jefferson Sarmento

Começo, meio e fim


I


Lembra quando a sua professora de redação te ensinou que uma boa dissertação precisa ter introdução, desenvolvimento e conclusão? Para usar um termo mais atual, você já assistiu a um desses gurus novos do storytelling dizendo que uma das melhores ferramentas para manter uma plateia ligada e atenta numa palestra ou numa aula é contar uma história calcada em 3 atos?


1) Um evento inicial que chama a atenção de quem está assistindo, lendo ou ouvindo;

2) As consequências desse evento e o desenvolvimento de uma solução ou de uma história de superação a partir desse evento;

3) E a conclusão que fecha aquele enredo iniciado com o evento inicial.


Pois essa estrutura, essa maneira de contar histórias em três atos existe desde que o ser humano se entendeu como ser humano. Talvez até antes disso, porque as pinturas rupestres encontradas em cavernas onde tribos pré-históricas viviam e contavam nas paredes de pedra como foi a caça de um determinado dia também demonstram, muitas vezes, traços dessa – digamos – receita para uma boa história.


Pintura rupestre encontrada em Siridó, no Nordeste, onde dois indivíduos abatem uma anta.

O sujeito que primeiro percebeu essa estrutura, essa maneira como os eventos de uma história se posicionam dentro da narrativa, criando interdependência e explicitando as noções de causa e efeito em quem recebe a carga dramática como espectador (de uma peça de teatro, por exemplo) foi o filósofo Aristóteles, que escreveu esse verdadeiro tratado chamado Sobre a Arte Poética.


E isso foi há 2300 anos, quando ele analisou todas as grandes histórias que os gregos contavam e encenavam – como Édipo Rei, do Sófocles, ou as epopeias de Homero (A Ilíada, que conta a Guerra de Troia, e a Odisseia que acompanha a volta do Odisseu – que os romanos chamaram de Ulisses – para Ítaca).


O que o Aristóteles percebeu dessas histórias, daquelas que ele considerava as melhores, foi um conjunto de elementos que se repetiam em momentos ou circunstâncias que, à primeira vista, são diferentes, mas se assemelham não no conteúdo, mas forma, na linha temporal dentro de cada narrativa.


Nesse ponto, eu quero que você entenda isso de uma maneira bem natural: Aristóteles não criou uma regra ou uma fórmula, ou uma receita de bolo que as pessoas deveriam seguir. Ele percebeu que essa estrutura era natural numa boa história.


É a única maneira de se contar uma história? Com certeza não e o movimento modernista da literatura, lá no começo do século XX, oficializou isso de uma maneira extremamente criativa e contundente, mas não é disso que estamos conversando.


O que eu quero é que você, como leitor ou espectador tenha uma noção não apenas clara, mas bastante prática disso, de como essa maneira de contar histórias funciona. Como é esse mecanismo. Não pra você desvendar de maneira cínica o funcionamento do processo de criação, ou achar que existe uma espécie de trapaça na hora de um escritor criar uma história, mas para você entender como as coisas que acontecem ao seu redor, e também aquilo que você lê ou assiste... tudo isso pode ser mais explícito e perceptível do que a passividade com que acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos no virar de páginas de um livro ou nas sequências de cenas de um filme ou série.


II


A sequência de atos descrita pelo Aristóteles vai parecer meio boba à primeira vista, ele descreve a estrutura de um enredo como um todo que necessariamente deve ter começo, meio e fim. Que o começo é algo novo, que não tem necessidade de ser precedido por nada. Que o fim não prescinde de nada depois. E que o meio, o desenvolvimento da história é aquilo que permeia o começo e o fim e tem ligação direta com os dois.

Óbvio, não é?


Mas quando foi que você analisou a verdadeira interdependência que existe entre esses três atos, o porquê de eles estarem lá e dispostos desta forma?


Vamos fazer o seguinte: Pra exemplificar essa estrutura de começo, meio e fim, de introdução, desenvolvimento e conclusão, eu escolhi dois livros aqui da estante e um filme ali da minha videoteca.


O primeiro: Tubarão, do Peter Benchley – o mesmo que foi filmado pelo Steven Spielberg em 1975.


Primeiro ato: o evento que inicia a história é o aparecimento de um tubarão assassino que começa a matar banhistas numa pacata cidadezinha turística.


Segundo ato: o desenvolvimento da história acompanha o impacto dessas mortes na vida das pessoas, na organização social da cidade. As pessoas precisam decidir o que fazer com aquele acontecimento. Não dá pra simplesmente ignorar o evento inicial, ignorar que um predador assassino está matando horrivelmente os turistas e moradores de Amity. Os personagens PRECISAM agir.


Terceiro ato: o desfecho, o confronto final que vai encerrar o evento inicial com um clímax – o embate entre homem e fera assassina.

Percebeu que os três atos estão ligados de uma maneira extremamente visceral? O evento, a consequência dele, que é como ele afeta os personagens ou o protagonista, os acontecimentos que se seguem. E, por último, é necessária uma finalização, uma solução para o evento inicial.


III


Vamos pegar o segundo exemplo. E pra isso nós vamos nos afastar um pouco mais no tempo: Frankenstein de Mary Shelley, publicado em 1823.


Primeiro ato: Victor Frankenstein MONTA um ser monstruoso juntando pedaços de pessoas mortas e consegue dar vida a essa criatura através de um processo científico.


Segundo ato: as consequências dessa criação. O remorso do cientista por ter criado um ser monstruoso, seus dilemas morais por desafiar as lei divinas, o abandono dessa criatura que surge já adulta e com a mente vazia, em branco, e tem que aprender sozinha sobre a humanidade. Os crimes que a criatura comete sem nem saber serem crimes, porque nunca foi ensinada a agir como ser humano. Pior, o horror das pessoas com quem ela interage, porque estamos falando de um ser monstruoso, horrendo, construído de pedaços de pessoas mortas. E como isso afeta esse ser, que tem um cérebro humano e vai aprendendo sozinho sobre dor, abandono, humilhação, medo, raiva, desejo... aprendendo da pior maneira.


Terceiro ato: o confronto entre criador e criatura para que o evento inicial tenha um desfecho, um fim, uma solução. É o momento em que os personagens partem para o tudo ou nada, é a catarse de todo o drama e tragédia do começo e do meio.


IV


E, por último, Matrix, pra ficarmos com um filme original, que não foi desenvolvido de uma história anterior.



Primeiro ato: o personagem Neo descobre que o mundo em que vivemos é uma farsa, um intrincado sistema de computador que existe para enganar os seres humanos, criando uma ilusão de realidade em que ficam presos enquanto seus corpos servem de bateria para as máquinas, porque elas dominaram a humanidade há centenas de anos.


Segundo ato: as consequências dessa descoberta. O que o protagonista vai fazer com essa informação, com esse conhecimento? O que a sua decisão desencadeia e como ele se encaixa nesse mundo novo, destruído, arrasado pelas máquinas, que caçam os humanos despertos, que por sua vez querem não apenas sobreviver, mas acreditam que um dia um salvador virá libertá-los. E como esse grupo de humanos reage a ele. E como as máquinas e dispositivos de segurança da Matriz reagem a ele. A história vai sendo construída, tijolo por tijolo, ou bit por bit até...


O terceiro ato: o embate entre o protagonista que se revela um Messias salvador e praticamente imbatível contra o inimigo mais feroz entre todos os caçadores de humanos rebeldes dentro da Matrix. Até sua morte e ressurreição...


Pescou o link da história? Claro, Matrix já foi discutida um milhão de vezes e as questões filosóficas e religiosas abordadas em 10 milhões de vídeos, matérias, ensaios...

Mas o que eu quero que você perceba com essa comparação entre o filme das irmãs Wachowski e o enredo da história bíblica mais importante da cultura cristã é que mesmo a paixão de Cristo, a maneira como os eventos acontecem e são narrados se enquadram na estrutura narrativa que Aristóteles havia percebido mais de trezentos anos antes de ela acontecer.


Vamos lá:


Primeiro ato: o nascimento de uma criança que está fadada a ser um líder religioso que vai desestabilizar e reorganizar o poder humano vigente, apresentando ao mundo uma nova leitura das velhas leis judaicas.


Segundo ato: as consequências desse nascimento, do surgimento desse protagonista. O que o poder vigente pensa e como vai reagir a ele. Como as pessoas vão se relacionar com ele, que ensinamentos ele vai trazer, de que maneira. Todos vão acreditar? Quem desconfiará e por quê? Quem vai segui-lo e por quê? Como vai ser visto pelos antagonistas, pelas pessoas e grupos que se veem ameaçados por essa nova ordem, esse novo profeta? Qual vai ser a reação deles?


Terceiro ato: o embate entre o poder vigente e o nosso protagonista. A aparente morte e a consecutiva ressurreição, trazendo a vitória do Messias de uma maneira impossível de ser combatida ou discutida, porque ele transcende a vida, ele extrapola a matéria, a condição humana.


V


E para finalizar, eu gostaria de te fazer um desafio:


Que tal ser mais que um mero leitor no próximo livro que for ler? Ou espectador no próximo filme que assistir?


Quando se sentar na sua poltrona predileta, que tal pensar na história que está na sua frente através dessa lente, entendendo o que e onde estão o princípio, o meio e fim.


Sim, vão existir filmes e livros que vão desvirtuar essa estrutura – não são muitos, mas eles existem. Isso é assunto pra outra conversa.

© 2020 Jefferson Sarmento