• Jefferson Sarmento

Livros de sangue, Vol. 1: Clive Barker

Horror cheio de maravilhas, visceral, sexual

Leio Livros de sangue 1 pela segunda vez, com mais atenção e calma, com a sede humana, mundana dos monstros e demônios imaginados por Clive Barker. O escritor inglês desvirtuou o horror metódico que nos trazia fantasmas e vampiros palatáveis, de maldade em preto e branco e pasteurizada que nos divertia lá pelo começo da década de 1980. Ele simplesmente ignorou as regras e debulhou com dedos ágeis a carne do sobrenatural rotineiro. E das entranhas desse horror conhecido surgiram demônios e espíritos e outros seres que gangrenaram o roteiro comum das histórias.

A imaginação de Clive Barker é uma maravilha enlouquecedora, que brinca com a sordidez humana como uma criança descobrindo o próprio sexo. Os 6 volumes dos "Livros de sangue" abrem-se aqui com 6 contos longos, cujas histórias são apresentadas em letras cortadas na carne do falso vidente de "O livro de sangue", a primeira história, que serve como uma introdução para roda a loucura que virá a seguir - e cuja cena da adaptação estampa o cabeçalho desta resenha.

Meu preferido ainda é "Blues do sangue de porco", mas nesta leitura redescobri uma espécie de tara imaginativa por "Sexo, morte e luz das estrelas" - especificamente por conta da cena em que Terry Calloway delira de prazer enquanto a falecida Diane Duvall termina seu felatio antes interrompido pelo soturno Lichfield. O clímax em chamas é uma apoteose delirante!

Os seis contos revelam de cara uma mente distorcida e cheia de monstros sórdidos - construídos de pedaços de pecados e desejos sujos. Clive Barker habitou esse mundo de sujeiras extrapoladas enquanto escreveu horror. Suas histórias são nervosas, como quem assiste a um corpo aparentemente são ou levemente adoecido, cujas entranhas se revelam cheias de vermes formados por vilanias levadas ao extremo e ultrapassando os limites da sanidade.

Livros de sangue é... maravilhoso no sentido pleno da palavra.



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