© 2019 Jefferson Sarmento

  • Jefferson Sarmento

Os 26 livros de 2019

Minhas leituras do ano, livro a livro


Fechando o ano, descobri que li mais do que achava e bem menos do que gostaria – ok, nós sempre achamos que foi menos, mas não dá pra viver só de leitura, o ser humano também precisa parar para tomar um café. Se bem que dá pra tomar café enquanto lemos um bom livro.


Entre leituras e releituras, listo abaixo os vinte e seis livros em que coloquei os olhos e destrinchei do começo ao fim (sim, não estão na lista os que comecei e parei, recomecei e parei) no estranho e conturbado 2019 – um ano que pareceu não gostar muito de pessoas que leem, estudam e pensam. Considerações políticas à parte, segue o bonde em ordem cronológica de “fechei a última página”.


1) Abecedário de personagens do folclore brasileiro – de Januária Cristina Alves

Ok, não comecei o ano com um romance. O Abecedário foi um dos livros que usei para pesquisar enquanto escrevia “A menina que fotografava estranhos” – meu último romance, que ainda está em fase de revisão, mas hora dessas conversamos sobre ele. Longe de ser um tratado como o Dicionário do Câmara Cascudo (e todos os volumes que tratam do tema publicados pelo maior pesquisador brasileiro sobre Folclore), o livro de Januária Cristina Alves apresenta um rol de figuras míticas com um texto delicioso e rápido – o que me fez lê-lo de cabo a rabo em menos de uma semana, enquanto fazia anotações e descobria o mundo fantástico que temos aqui dentro do nosso quintal. Publicado pelo SESC, traz 141 personagens de várias regiões do Brasil, com uma edição caprichada, colorida e cheia de desenhos belíssimos do ilustrador Cezar Berje. Também usei quase todos os livros do Câmara Cascudo nas minhas pesquisas, mas se você quer conhecer um pouco mais das figuras folclóricas desse nosso Brasil vasto e desconhecido, eu indicaria o Abecedáriocom louvores!


2) Crisálida – de Andressa Tabaczinski

Anote esse nome e grave bem: Andressa Tabaczinski. Crisálida é um thriller cheio de tensão com um pano de fundo atualíssimo e engajado, sem ser panfletário. O foco aqui é a morte da filha de um deputado pastor (desses que vende pedaço do céu em cadeia nacional e pede o seu cartão de crédito com senha). A história acompanha a reabertura do caso depois de o corpo ser encontrado numa floresta em Curitiba. O texto é rápido e envolvente, o clima de quem matouvai apresentando suspeitos que você quer que sejam os culpados, de sórdidos e canalhas que são. Mas a revelação final (claro que eu não vou contar) é muito mais doída e triste – se você é daqueles leitores que, passada a tensão dos acontecimentos narrados, da ação constante, da curiosidade sobre o mistério em si... se depois disso você se dá um tempo para pensar nos motivos e no que existe por trás das atitudes humanas, Crisálida se abre como um manifesto melancólico e cru diante de uma sociedade intolerante, doente, mascarada por valores e posturas que não se sustentam, mas que são endeusadas religiosamente e vendidas a preço de vidas. Leia Crisálida!


3) Storytelling – de Carmine Gallo

E de volta para um não-romance. Li Storytelling porque estava ouvindo falar tanto disso que fiquei curioso para entender. Carmine Gallo é uma espécie de papa desse método de discurso, de oratória e me pegue lendo com um sorriso no rosto por descobrir que as técnicas usadas por oradores e palestrantes citados no livro são as mesmas que costumo usar para construir minhas histórias – basicamente o storytelling usa a estrutura de três atos do Aristóteles para montar um discurso. É um livro até bastante técnico, mas bem estruturado, bem escrito e ágil, nada enfadonho – o que seria um disparate se fosse o contrário, considerando que o texto se propõe a te ensinar a não ser chato quando for apresentar uma reunião. O segredo dessa mágica certamente é a infindável coleção de exemplos reais de bons palestrantes – como o Papa Francisco, Steve Jobs, Churchill... que aparecem até no subtítulo do livro. Indico para professores, palestrantes, youtubers... e para quem quer entender como um orador consegue prender a atenção de uma plateia com tanta eficiência e magnetismo.


4) O mistério de Chalk Hill – de Susanne Goga

Vez por outra tento sair da minha bolha e escolher um livro que eu não compraria nem pela capa. Não sou adepto de livros que começam com mistério de... alguma coisa. Então pincei este aqui de uma pilha e resolvi tentar. A trama tem um quê de A Volta do Parafuso na premissa, mas para por aí. É um romance passável, insosso na maior parte do tempo, mas com um texto que não compromete. Mistura um pouco de tensão sobrenatural, espiritismo, suspense e assassinato... e termina de um jeito bem previsível. Sabe aquelas histórias que, se você não tivesse lido, não faria diferença. É isso.


5) A menina submersa – de Caitlín R. Kiernan

E aí comprei um livro pela capa, de ouvir falar algo sobre uma escritora revelação e... putz... A menina submersa foi um parto para terminar de ler. Looongo, enfadonho, cansativo, dando voltas no próprio rabo como um cachorro perdido. Meia página já me dava um sono tremendo. Mantive este aqui na cabeceira por uns três meses, intercalando-o com outras histórias para não o jogar na parede – e olha que gostei do texto nas primeiras páginas. O problema é que a qualidade da narrativa se perde depois de umas trinta viradas de folha porque a história não sai da mesma ideia fixa de... não ter história. Se eu não precisava ler o thriller água-com-açúcar da Susanne Goga, este A menina submersa eu nem devia ter lido. Chaaaato!


6) O jogo da perdição – de Clive Barker

Para me livrar do ranço de ter lido dois livros ruins, resolvi apostar numa releitura e me meti de novo com O jogo da perdição, do Clive Barker, um dos meus autores de horror prediletos. Foi o primeiro livro que eu li desse cara e me lembro de ter ficado fascinado pela história, pelas construções fantásticas e bizarras. Até antes de reler, a imagem que eu tinha na memória era a dos pedaços de carne do Europeu rastejando pelo chão e paredes, feito vermes – sua vida subdividida buscando se juntar outra vez. A edição que eu tenho é a original publicada em 1989 pela Civilização Brasileira, infelizmente cheia de erros e defeitos, mas a história era tudo aquilo que eu me lembrava!


7) O cortiço – de Aluísio Azevedo

Eu me propus este ano a encarar alguns textos clássicos que sempre me assustaram. Comecei por O Cortiço e acho que comecei bem. Embora nunca tivesse aberto sequer uma página para experimentar a narrativa, confesso que estava preocupado de acabar largando de lado o livro. Puro preconceito. Encarei as 300 páginas desta edição honesta e bonitinha da Todavia e devorei a sua história cruenta, trágica e às vezes divertida que retratou com precisão o início das favelas do Rio de Janeiro. É questão de ler a história, que se passa em algum momento do século XIX, e entender como surgiram as comunidades, os bairros e a formação da política que primeiro ignora da pobreza e a miséria para depois, quando esta passa a incomodar, marginaliza seus personagens. Isso tudo dentro de um retrato violento e bastante visceral do ser humano.


8) Armadilha – de Melanie Raabe

Não me dei bem em 2019 com escolhas de livros com indicação de autor revelação! Armadilha é um thriller à la Jo Nesbø (que eu não aprendi a gostar, me desculpem) ou com um texto bom, ágil. E bem estruturado também. Mas tão passável quanto O mistério de Chalk Hill, da Susanne Goga. Bom... estou sendo injusto. Melanie Raabe é melhor escritora e sua história também, mas fechei o livro de 300 páginas, editado pela Jangada, e fiquei com a sensação de que podia ter lido outra coisa. Entenda: não é ruim. Serve como passatempo e exercício de suspense psicológico, mas não tem a profundidade das histórias e personagens de Gillian Flynn. Então, se não tiver nada para fazer, divirta-se.


9) Invocadores do mal – de Cheryl A. Wicks, com Ed Warren e Lorraine Warren

Depois de muito tempo, decidi assistir a Invocação do mal e confirmar meu preconceito com histórias de possessões e demonologistas. E quebrei a cara. Encontrei um filme bastante interessante e acabei curioso por conhecer o casal de exorcistas leigos que coleciona suvenires de seus trabalhos e pesquisas sobrenaturais. Ato contínuo, escolhi este Invocadores do mal para começar porque traz uma série de casos narrados como verídicos pelo casal e dá uma pincelada geral em sua obra. Como cético que sou (algo estranho de se ouvir de um escritor de histórias fantásticas? – nem tanto), gostei do clima assombrado e dos links com casos reais (e, por real, que dizer que os casos existem, não que a história neles seja verdadeira – isso eu não sei) mais conhecidos, como Amityville ou mesmo a casa assombrada que aparece no primeiro filme. Acabei achando o casal simpático e comprei Lugar sombrio, que está ali na estante para uma leitura futura.


10) A fera na selva – de Henry James

Sou apaixonado por A volta do parafuso, do Henry James, mas até então havia sido seu único texto que li. Precisava de mais experiência com um dos autores americanos (naturalizado britânico) mais importantes da literatura universal e escolhi uma de suas novelas mais emblemáticas para isso. É uma história curta e bastante melancólica, que carrega um sentimento de desperdício de vida muito forte. O John Marcher apresentado por Henry James se assemelha, em teimosia e obsessão, ao Capitão Ahab de Moby Dick, cego pela paixão por um objetivo que, contudo, o personagem de Henry James não sabe qual é. É isso: Marcher passa a história esperando por algo que não sabe o que é – vai acontecer, ele sente, ele sonha, mas não sabe o que é. E desperdiça a vida, o amor e tudo mais por uma causa que já tinha vindo, mas ele não percebeu. Leitura obrigatória: Henry James é um gênio.


11) O monge negro – de Anton Tchekhov

Considerado um dos maiores contistas da literatura, Tchekhov não te decepciona. A construção de suas histórias é muito prática, bela e funcional, mas é a qualidade do texto e da trama que se sobrepõe a tudo. O monge negro é um pseudo-horror sobrenatural que escancara a loucura, o medo de uma vida comum e o esgotamento de não se achar à altura... de sua própria missão na terra. É um horror psicológico ingrato e difícil, que trata a mediocridade humana de ângulos diversos. Preciso ler mais Tchekhov.



12) Coração satânico – de William Hjortsberg

Fã incondicional do filme de Alan Parker, quase tive um orgasmo quando vi o livro editado pela Dark Side numa prateleira da livraria. Devorei as páginas da história do perdido Henry Angel em meia semana. O texto é um noirsobrenatural riquíssimo e cheio de poder. O final, embora eu já o conhecesse, é tão maravilhoso e desesperador quanto me lembro. A história é perfeita e descobri que a trama do filme é tão semelhante e pesada quanto aquela pensada por William Hjortsberg (eita sobrenome de quebrar o osso da língua!) – com a diferença de a história original se passar em Nova Iorque e no filme nos esbaldamos com as paisagens sujas de Nova Orleans. Parte minha acha uma heresia o que vou confessar, mas: a história fica mais bem ambientada na cidade do vodu, das bruxas, do jazz e da feitiçaria negra americana!


13) Um conto de natal – de Charles Dickens

Outra releitura do ano: a deliciosa história de redenção do velho Scrooge. Um conto de natal devia ser lido uma vez por ano – todas as vezes que nos pegarmos diante da mesquinharia, da falta de amor e compaixão. Mas temos que ler não com raiva do velho avarento, mas com o cuidado de nos enxergarmos nele. Quantas vezes fomos vis e sovinas ao longo do ano? Quantas vezes deixamos de dar um bom dia ou de simplesmente olhar mundo ao redor com olhos de descoberta, redescoberta. Ou de agradecer pela vida, porque estávamos ocupados demais com o trabalho, com os deveres, com a necessidade de ter mais e mais e mais. Claro que Scrooge leva isso ao extremo, mas você não consegue ler impune, sem identificar pelo menos um traço seu numa das odientas vilanias do personagem.


14) O ateneu – de Raul Pompeia


Este aqui foi uma leitura difícil. Empolgado pelo Cortiço de Aluísio Azevedo, eu me meti a descobrir a história do internato para rapazes que tornou Raul Pompeia persona non grata em sua época, pela coragem e retratar, numa instituição fictícia, o que ele mesmo vivera no começo de sua adolescência, numa das escolas mais importantes do Rio de Janeiro do século XIX. Intrigas, violência, cacos de vidro no fundo da piscina, morte, homossexualismo, educação obtusa... Estamos falando de um clássico publicado em 1988! A demora na leitura foi por conta do texto pesado e quase todo mergulhado nos pensamentos do personagem principal, um garoto perdido para a realidade logo na segunda página, quando o deslumbramento pela ideia-da-escola dá lugar à pressão insuportável da realidade, dos maus-tratos, da intolerância, da falta de sensibilidade... Leitura difícil, mas obrigatória.


15) Drácula – de Bram Stoker

Mais uma releitura – há anos venho me propondo a revisitar a história mais importante da literatura sobre vampiros. Aliás, sobre O Vampiro. Li Dracula pela primeira vez numa velha edição do círculo do livro e, na época, fiquei tão maravilhado com a maneira como Bram Stoker a conta (em diários, cartas, notícias de jornal, anotações – e ainda assim, de uma maneira fluida e cheia de suspense, tensão, horror) que catapultei o livro para minha lista dos 10 Melhores sem muita discussão – sim, sou desses que discuto comigo mesmo. A releitura foi uma maneira de ratificar sua posição dentro das melhores obras de todos os tempos – não apenas de literatura fantástica ou de horror, mas da Literatura! Para quem não leu: esqueça tudo o que já assistiu ou as referências que conhece; vá ao original e conheça uma história empolgante, tensa e bem construída. No cinema, quem mais chegou próximo foi Francis Ford Coppola, com Drácula de Bram Stoker, de 1992 – ainda assim, com algumas modificações sensíveis e um encurtamento comum a adaptações cinematográficas.


16) O planeta dos macacos – de Pierre Boulle

A adaptação de 1968, com Charlton Heston, talvez se aproxime mais da obra original de Pierre Boulle na estrutura da ação que apresenta desde a chegada do personagem principal ao planeta habitado por símios que falam, onde os seres humanos são os animais enjaulados. A inversão de valores também está lá, mas o filme não chega a ser tão profundo nos questionamentos sociais e da natureza humana – coisa que as adaptações recentes, embora apresentem isso numa história que apenas se baseia na ideia original, faz com muito mais apuro e contundência. Claro, o final do filme de 1968, diferente plasticamente do que o livro conta, é antológico e maravilhoso. O Planeta dos Macacos, livro, é uma obra de sociologia, muito mais que de ficção científica. Também tem seu final surpreendente, e é um texto delicioso de se ler. A edição que eu tenho na estante, da Aleph, é um primor de cuidado. É desses clássicos que você precisa ler.


17) B.B. King, a autobiografia – de B. B. King e David Ritz

Adoro biografias de ícones da música e quando vi esta aqui de B. B. King, agarrei com unhas e dentes da prateleira e trouxe para casa com os olhos marejados. Sou um fã incondicional do blues e acho que ser vocalista de uma banda que tem o ritmo do Mississippi como carro chefe deve querer dizer alguma coisa. A autobiografia do velho rei do blues o acompanha desde a infância no estado onde o blues nasceu e o carrega por toda a vida, pelos perrengues, pela fome e preconceito, pelas inquietudes, erros, parcerias, amores (e foram muitos), pelo magnetismo e simplicidade como empunhava sua Lucille e encantava as pessoas. É uma história de trajetória e de superação – como as boas biografias são. Talvez não seja um livro tão corajoso quanto a autobiografia de Eric Clapton (onde ele expõe seus erros e pecados sem pudor algum, com uma coragem às vezes gráfica), mas é uma delícia de leitura e você termina com vontade de ouvir todas aquelas músicas que ele compôs e tocou ao longo da vida.


18) Frankenstein – de Mary Shelley

Este aqui era uma dívida comigo mesmo. Nunca tinha lido o clássico Prometeu Moderno que é considerado o marco inicial da ficção científica na literatura. É um livro curto, mas denso e cheio de questionamentos como as melhores histórias sobre o homem desafiando a natureza e a religião através da ciência o são. É claro que a fama de história de horror pura e simples carrega um peso de preconceito muito grande com o livro, mas você precisa esquecer o que Boris Karloff e, depois, os filmes da Hammer fizeram com o personagem e mergulhar nos questionamentos humanos que a história apresenta. E pense que a Frankenstein foi escrito em 1823 (portanto, mais de meio século antes do outro ícone do horror, o Drácula, de Bram Stoker) e por uma mulher! Aqui preciso ser cuidadoso, para não soar espantado por ter sido uma mulher a escrever uma das histórias mais importantes da humanidade, mas por ela ter feito isso num tempo em que mulheres eram institucionalmente menosprezadas, consideradas inferiores ao homem e qualquer obra que realizassem era diminuída e considerada sem importância. Pois Frankenstein já vai fazer dois séculos de idade e Mary Shelley é veio com ele como uma das escritoras mais inventivas, questionadoras e importantes que já surgiram neste munto.


19) Triste fim de Policarpo Quaresma – de Lima Barreto

Mais um clássico da literatura nacional que eu olhava de longe e pensava: um dia vamos ter que nos entender. Muito mais leve que O Ateneu e mais divertido que O Cortiço, Policarpo Quaresma fluiu em uma semana com seu fim tragicômico e melancólico. É impossível lê-lo sem olhar ao redor e ver a importância cartunesca que certos nacionalismos de bravata empunham hoje em dia. São todos tão caricaturais e forçados, ridículos como um presidente estúpido falando besteiras em rede nacional, que o riso da história acaba tomando um gosto meio azedo perto do fim da garganta. Mas, sinceramente, acho que tomei coragem de ler a maior obra de Lima Barreto no momento certo. É para olhar o noticiário político e ver o quanto são absurdas as ideias infames que nos governam hoje.


20) Os Goonies – de James Khan

O livro Os Goonies é uma novelização do filme de 1985 – um dos mais divertido que já vi até hoje, que está na minha lista de filmes de aventura prediletos e que já citei em uma ou duas histórias – numa cena específica de A casa das 100 janelas, as crianças da história correm para uma sessão de cinema na cidade vizinha, onde o filme está em cartaz. Um dos meus sonhos de garoto era ser um Goonie, participar de aventuras piratas e ganhar um beijo indevido da garota mais bonita do colégio, numa caverna escura, no meio de um perrengue de vida ou morte. E terminar o dia encontrando um tesouro perdido, depois de escorregar por armadilhas fatais, ser perseguido por assassinos perversos e atrapalhados e salvar a casa dos pais de ser transformada num campo de golfe para riquinhos esnobes. Tudo isso está aqui neste livro – que peca apenas em alguns trechos da tradução, que parecem ter sido tirados diretamente do Google Tradutor sem uma revisão para acertar as expressões. Mesmo assim, foi uma delícia voltar àquela baía e experimentar a amizade sincera dos garotos das Docas Goon.


21) Matadouro Cinco – de Kurt Vonnegut

É assim mesmo... E foi desta forma que eu encarei as idas e vindas no tempo do enlouquecido Billy Pilgrim – o que pode significar uma viagem de ficção científica mas tem muito mais cara de memória descontrolada num texto milimetricamente controlado, enxuto e genail. Enquanto as atrocidades da segunda grande guerra vão pipocando crua e cruelmente ao seu redor, o protagonista passa parvo e patético pelas piores tragédias, numa alegoria que mistura cinismo com piada de mau gosto. Os extraterrestres que o levam para conhecer o planeta imaginário (ou não?) fora do tempo, o sarcasmo seco de autor beat, a comicidade trágica... Kurt Vonnegut entrou no meu panteão de autores que escrevem tão bem, de maneira tão simples e direta, que a história passa a não importar – porque ela é efêmera, tola, patética como nossas vidas, dentro das nossas tragédias, acaba sendo.


22) O código Aleijadinho – de Leandro Müller

Este best-seller brazuca, que nada sem pudores (afirmação do próprio Leandro Müller) e de braçada na estrutura e na inspiração ao Código Da Vinci, de Dan Brown, é uma aventura leve e despretensiosa, cheia de reviravoltas, descobertas e inventividade. Feito para se ler num tapa e terminar com um sorriso de satisfação, começa com uma arma apontada para a cabeça do pai da protagonista e passa à investigação de sua morte num fio que vai conduzindo o leitor por locais históricos, teorias fantásticas e perseguições policiais. A trama é desvendada aos poucos e fechamos a última página com a sensação (ou o desejo) de conhecer cada relato (fantasioso ou não) e local históricos que as Velhas Gerais escondem ou revelam. Tenho o prazer de conhecer o autor (o maior escritor brasileiro, do alto de seus mais de dois metros de altura... preciso perguntar a ele quanto mede de verdade) e posso dizer que poucas pessoas são tão simpáticas, abertas, serenas e dedicadas quanto esse barbudo ex-livreiro, escritor e editor carioca – ele não é bem carioca, mas está há tanto tempo na cidade que não pode ser considerado outra coisa.


23) O instituto – de Stephen King

É complicado falar de O Instituto. A premissa me pegou de cheio e o primeiro capítulo é delicioso. O melhor personagem abre a história como um andarilho que encontra numa cidadezinha de interior o lugar ideal para viver. Tim Jamieson é um ex-policial que tem tudo dos melhores personagens adultos de Stephen King – ele parece o sujeito centrado e competente que acaba no meio de uma série de bizarrices, com personagens que sabem que ele é o melhor aliado que se poderia ter numa circunstância fora do comum. O problema é que ele é apenas um coadjuvante de primeira para uma história que se vende como IT e A Incendiária. Está muito mais para o segundo (um livro que eu não gosto) e só se desculpa citar na contracapa o livro do palhaço Pennywise porque O Instituto também tem crianças como protagonistas. Depois do primeiro capítulo, acompanhamos o drama de Luke, um garoto com poderes telecinéticos que é sequestrado de seu quarto numa noite qualquer. Seus pais são mortos e ele é levado para esse lugar: o tal Instituto. Essa parte é longa, cansativa e eu sinceramente não consegui sentir empatia com o sofrimento do garoto e de seus outros amigos paranormais. O terço final melhora um pouco e o clímax, onde encontramos o policial Tim Jamieson outra vez, acaba se arrastando demais. E, vejam só, sou fã de Stephen King, mas este aqui é só um livro mediano. Eu tinha que tê-lo lido, entendam, mas é uma das histórias mais fracas dele.


24) Desilusões líquidas – de Giovani Gomes


Já falei sobre este livro por aqui. E que não sou um especialista em poesia – tenho esse defeito e um dia vou conseguir dar um jeito nele. Mas as desilusões do Giovani Gomes me pegaram desprevenido. O sentimento por trás de cada texto (alguns em prosa são deliciosos!) é visível, palpável, escancarado como cenas por trás de barras numa janela sem vidros. É possível sentir o sabor de cada verso, a textura deles e o que representam para quem os escreveu. Deliciosas desilusões para serem bebidas numa mesa de histórias.


25) Livros de sangue – de Clive Barker

Não foi à toa que Clive Barker voltou às minhas leituras de 2019. Tenho os seis livros de conto que formam os Livros de Sangue, mas só li o primeiro até hoje – de forma que queria continuar na empreitada, mas queria pegar de volta o gosto de sangue e horror que os primeiros contos escancaram em páginas sinistras e pequenas histórias de fantasia macabra, vil, sexual, explosiva. A primeira história, O Livro de Sangue, serve como uma apresentação para todas as outras, que nada mais são que as linhas escritas na pele do primeiro protagonista, o paranormal de meia pataca que engana sua tutora para ganhar algum dinheiro e algum carinho, acabando por despertar a ira das criaturas que mentia poder contatar. O livro inteiro é um soco de originalidade e horror. Agora preciso dar seguimento.


26) Ascensão – de Stephen King

Eu ia fechar o ano com Livros de sangue e acabei pegando da estante este livrinho rápido e singelo que a SUMA lançou pouco depois de O Instituto. É uma história menor, mais contida, leve e humana. Acompanhamos o protagonista Scott Carey, que abre o livro com uma consulta ao médico aposentado, o Dr. Bob. Scott não quis falar de seu problema para o médico na ativa em Castle Rock, porque sua condição não é apenas preocupante, mas estranha e inusitada. Leia para saber do que se trata. Mas leia sabendo que essa doença (ou seja lá o que for) do protagonista é apenas uma desculpa para visitarmos as situações e relações delicadas dos personagens. O livro é uma delícia e o final algo triste é como uma espécie de alegoria da redenção. Nada melhor para terminar o ano!


E que venham as novas leituras de 2020!





32 visualizações