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"Sem Olhos", de Machado de Assis

E se eu te dissesse que, dentre as centenas de histórias que Machado de Assis nos deixou, algumas bebem diretamente na fonte de Edgar Allan Poe e do horror sobrenatural?


O modernismo cínico de Machado de Assis não é apenas celebrado e discutido entusiasticamente por estudiosos de sua obra, amantes da literatura brasileira – mestres e abnegados estudantes da arte de se contar uma boa história. O Bruxo do Cosme Velho é, acima de tudo, o maior ícone das nossas letras e nos deixou um legado de histórias tão diversas e amplas que extrapola em vários momentos a concretude de sua época literária.

Ou talvez seja uma questão de se ver mais de perto.


Um de seus melhores contos, o que mais gosto da enorme lista que passa pelo Alienista, A mulher de preto, A missa do galo... é o assombroso Sem Olhos, publicado originalmente no Jornal da Família, em 1876.


A primeira vez que li “Sem Olhos” me lembrei imediatamente de “A Volta do Parafuso”, de Henry James. É o mesmo tipo de história e guarda uma semelhança estrutural muito grande: um homem respeitado pelos seus e de moral inquestionável conta uma história surpreendente e fantástica numa pequena reunião de amigos. É notório que Machado de Assis se inspirou em vários grandes autores a que teve acesso, de Eça de Queiroz a Edgar Allan Poe (a quem “Sem Olhos” certamente remete com mais entusiasmo). Mas não foi o caso de Henry James, que só escreveria sua clássica história de fantasmas em 1898.


A estratégia de se usar um personagem com título e todo o respeito dos demais para contar uma história inacreditável já foi repetida uma centena de vezes (bem como a reunião de amigos e conhecidos para dividirem histórias macabras) e aqui Machado de Assis entrega a tarefa ao Desembargador Cruz, que descreve uma desventura de sua juventude, quando ainda cursava a faculdade e vez ou outra passava os dias no Rio de Janeiro no período de férias.


A história do desembargador pega o gancho da incredulidade modernista de seus ouvintes (entre eles o desagradável Bento Soares e sua delicada esposa, a cética Dona Maria do Céu), diverte-os com certo humor cínico quando descreve seus primeiros encontros com o vizinho lunático (criador de teorias mirabolantes como a de os canhotos serem escolhidos bíblicos do Senhor, o que tornaria um sacrilégio o uso do apelido Canhoto para o Diabo) e finalmente mergulha seus ouvintes em incômodo, espanto e horror.


O detalhe mágico que torna Machado de Assis um mestre está justamente aí: em momento nenhum ele descreve esse horror nos olhos das pessoas que ouvem o Desembargador desfiar seu novelo de assombros. Ao fim e ao cabo, a busca por explicações de um ou de outro (e, principalmente, o silêncio quase confesso da – talvez nem tão – pudica Maria do Céu) entrega seus estados de ânimo e seus desconfortos.


O próprio Desembargador desconstrói seus achismos ao revelar suas descobertas posteriores à morte do vizinho louco, mas deixa em aberto uma explicação rasamente convincente ou assertiva sobre a aparição perturbadora que afirma ter visto – e ninguém é capaz de questionar, sendo ele uma autoridade e um homem vivido, estudado, respeitado. O anfitrião retruca ao Desembargador que o caso talvez seja simples: o jovem estudante pode ter sido contaminado com a loucura do vizinho. Mas é uma tentativa rápida e passa desapercebida diante do assombro calado de Dona Maria da Paz.


Ora, claro, estamos falando de Machado de Assis e ninguém menos que ele para esconder segredos íntimos em olhares furtivos. Minha aposta é que não foi tanto a assombração (horrendamente descrita alguns minutos antes) que a deixou naquele estado – mas o peso da infidelidade culposa, da punição desmedida e trágica.


De qualquer forma, seu marido obtuso e desagradável, o chatíssimo Bento (Bento!!!) Soares, certamente é um daqueles personagens que, se não foi traído, mereceria tê-lo sido.


Finalizo convidando você a ouvir o conto "Sem olhos" lá na página de Podcasts do site:


https://www.jeffersonsarmento.com.br/podcasts



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