• Jefferson Sarmento

Zona Morta e Na Hora da Zona Morta

A Maratona de Filmes baseados na obra de Stephen King está de volta!

Sim, ela está de volta com Na Hora da Zona Morta, de 1983.


Você não leu errado: Na Hora da Zona Morta. É que teve esse período dos anos 1980 em que todo filme de terror tinha que ter um “A Hora” no título, mesmo que isso não fizesse o menor sentido, como é o caso desta adaptação para o cinema de um dos melhores livros de Stephen King.


Tinha A Hora do espanto, A Hora do Pesadelo, A Hora do Calafrio... e por aí vai.

Porém, apesar do título nacional capenga, este filme aqui é uma das adaptações mais decentes de um livro de Stephen King, com um roteiro justinho e honesto, embora meio corrido para caber em menos de duas horas.


Talvez o mais interessante desta adaptação seja ter sido dirigida pelo mesmo David Cronenberg que até aquele momento havia sido responsável por filmes de terror gosmentos e bizarros como Filhos do Medo de 1979, Scanners de 1981 e Videodrome de 1983 - uma hora dessas esses filmes vão merecer num post aqui do blog, porque são produções realmente muito legais – pra quem gosta de horror gosmento.

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Zona Morta é um dos melhores livros de Stephen King, pela seriedade com que trata a história e seu personagem John Smith – literalmente Joãozinho Silva e apenas João Silva – Johnny Smith não tem outro sobrenome. David Cronemberg, quando assumiu o filme, até pensou em mudar esse nome (o que seria uma heresia). Ele alegava que ninguém se chama Johnny Smith, soava como um nome falso. Mas como o livro faz inclusive ênfase nesse nome de Zé Ninguém, Johnny Smith acabou mantido.

O livro foi publicado em 1979 e foi o primeiro capa-dura de Stephen King a atingir o primeiro lugar na lista de mais vendidos dos EUA, contando uma história episódica, diferente dos demais romances do escritor.

A ideia de começo, meio e fim acaba diluída ao longo dos anos e dos episódios em que o protagonista vai exercendo, à contra gosto, seu poder paranormal. E foi justamente nessa forma de contar a história que o roteirista Jeffrey Boam e o diretor David Cronemberg focaram o projeto, tendo como espinha dorsal o fato de Johnny ser avesso a seu poder e à interpretação divina que sua mãe meio maluca – meio Margareth White – dá a ele.

O fio condutor da história é esse: o protagonista viaja, ou evolui da negação à aceitação de que o poder que ele tem é capaz de salvar as pessoas e, mais à frente: salvar o mundo.

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No começo dos anos 1980, a corrida pelos textos do Stephen King produziu alguns filmes bastante equivocados e largamente baseados apenas na possibilidade de se faturar alguma grana com seus romances e contos, adaptando-os para o cinema ou para a televisão. Não é o caso da adaptação de David Cronenberg, embora seu histórico escatológico no cinema pudesse prever o contrário. Cronenberg vinha daqueles três filmes de horror (ou vísceras explícitas) que eu citei na introdução: Filhos do Medo, Scanners e Videodrome. Imaginar que ele pudesse se conter num texto sem sangue é algo quase sobrenatural. Mas o diretor que um ano depois entregaria outra pérola do horror nojeira, o ótimo A Mosca, refilmagem de A mosca da cabeça branca, não apenas dirigiu um filme honesto e sério, como talvez seja o dono de uma das melhores adaptações de Stephen King. Triste, melancólico e metódico, embora a velocidade na tela sempre perca muito do contexto que cria e valida as emoções dos personagens.


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Zona Morta conta como o professor de literatura Johnny Smith sofre um acidente de carro e acorda quase cinco anos depois como clarividente – ele vê coisas que estão acontecendo em outros lugares, cenas do passado de quem toca – ou de objetos que essa pessoa tocou, lugares onde esteve.

Ocorre que, ao acordar, o mundo mudou: sua namorada se casou com outro homem, o ambiente político do país se tornou ácido e algo violento - ponto que eu considero nevrálgico na história, embora o personagem lide com ele apenas marginalmente ao longo da trama. Enfim, a vida seguiu sem ele. Até seu pai reconhece que já havia desistido de vê-lo acordado um dia.

O livro começa com uma cena da infância de Johnny, quando ele leva uma bordoada e passa alguns minutos desacordado. Seu poder tem uma pequena aparição fraca aqui e teremos um salto no tempo, para o ponto onde o filme começa: o professor fechando uma de suas aulas com o poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, e sugerindo O Cavaleiro Sem Cabeça como leitura para os alunos. A cena inicial do livro chegou a ser filmada e até finalizada, mas Johnny Smith criança nunca foi para as cópias que foram para os cinemas e para os VHSs e DVDs. Isso acaba sugerindo, para quem apenas assistiu ao filme, que o acidente de carro e o coma foram os responsáveis pela paranormalidade de Johnny.

No livro, isso nunca é explicado de fato – o mais perto disso é quando médico sugere, depois que ele acorda, que Johnny teria sido capaz de sair do coma talvez por um acidente anterior, quando seu cérebro teve que aprender a se religar ou algo assim. O fato é que o rapaz nem se lembra mais do acidente da infância. Pelo menos até perto do final.


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Johnny namora a professora Sarah e os dois saem para se divertir no parque, numa cena curta em que Johnny passa mal na Montanha Russa – aqui temos a primeira inversão em relação ao livro: na história de Stephen King é Sarah quem passa mal depois de comer cachorro quente e de ver como Johnny se sai milagrosamente vitorioso num jogo de roleta.

Considero o trecho da roleta (da roda da fortuna!) um dos mais importantes da história – é como uma espécie de primeiro contato mais forte do protagonista com seu próprio Mundo Mágico – isso se analisarmos Zona Morta pela perspectiva da Jornada do Herói, mesmo considerando que Johnny revela a Sarah que em vários outros momentos pressentiu ou soube das coisa antes de vê-la, como encontrar objetos desaparecidos, saber quem está do outro lado da linha quando alguém liga.

A partir desse passo, Johnny entra numa quase eterna negação de seu mundo mágico. Ele sofre o acidente e acorda mudado. E não aceita a mudança – talvez por ela ser o símbolo da perda do amor, da juventude... O fato é que acompanhamos, ao longo dos 100 minutos de filme e 400 páginas de livro, uma dança episódica em que várias inversões e reduções do texto são apresentadas, mas que não prejudicam a narrativa – deixam-na mais ágil para o formato cinematográfico.

No livro, Johnny pega um táxi para ir para casa e o acidente que o entrega ao coma é causado por uma corrida de garotos em carros envenenados – no filme, o próprio Johnny dirige um fusquinha numa noite escura e uma carreta tombada vem ao seu encontro.

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Os vários episódios em que o protagonista se envolve servem como pequenos segmentos que vão moldando seu caráter e a sua disposição ao longo do segundo ato. Sua rejeição ao poder cresce mais a partir da morte de sua mãe e ele se recolhe, se retrai. As pessoas mandam cartas para ele pedindo que encontre familiares perdidos, que ele as ajude a achar emprego, que o veneram como uma espécie de enviado de Deus. Isso o assusta e repele, enjoa.

E nesse ponto temos um dos principais episódios do livro e do filme: o assassino de Castle Rock – a mesma Castle Rock pitoresca e recorrente de várias outras histórias de Stephen King. Aqui ela tem sua primeira aparição num romance e voltaria em Conta Comigo, Trocas Macabras, A Incendiária, no recente Ascensão e em: Cujo, o cão raivoso!

Pois este trecho de Zona Morta, quando o xerife Bannerman procura Johnny Smith para ajudá-lo a encontrar o assassino que está há anos apavorando a cidadezinha de Castle Rock, tem uma ligação direta com o livro Cujo, que, embora tenha sido lançado dois anos depois de Zona Morta, tem seus eventos e sua aura sombria, sua sugestão nunca confirmada de elementos sobrenaturais, germinados do trecho em que Frank Dodd é exposto numa das visões de Johnny. Esse vínculo fica para o próximo post da Maratona, sobre a adaptação de Cujo, por enquanto é importante que se guardem esses dois nomes: George Bannerman, o xerife, e seu ajudante Frank Dodd, o assassino psicótico criado por uma mãe tão controladora quanto, mais uma vez, Margareth White, mãe de Carrie.

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Existem diversos outros episódios e momentos em que o poder ou a personalidade de Johnny vão sendo moldados, preparados – como a tarde em que finalmente ele e Sarah consumam o amor impossível que ficou para trás – um dos momentos mais bonitos e tristes do filme e do livro. Ou quando uma revista picareta de paranormalidade tenta contratar Johnny e, com a recusa, ele passa a ser tratado como uma fraude tentando ganhar dinheiro fácil de pessoas que realmente acreditam – essa não está no filme, mas não chega a fazer falta

A verdade é que todos esses momentos, episódios, eventos, pessoas que conhece, visões que tem... parecem servir para prepará-lo, de alguma forma, para o último ato, quando ele finalmente percebe que pode também prever o futuro, saber o vai acontecer. Essa nova descoberta – que no livro é num incêndio de ginásio (com direto a uma citação mais aberta ao livro Carrie) em que um pupilo seu e os colegas vão morrer.


No filme, isso é trocado para uma cena de afogamento de vários garotos que iam jogar hockey num lago congelado.

Talvez essa nova percepção, nova face da sua paranormalidade seja fruto do seu poder se desenvolvendo – junto com o tumor que tem no cérebro, coisa que existe apenas no livro e nem é citado no filme. Ou talvez isso já tenha estado com ele desde sempre, apenas não tenha se mostrado ou sido percebido – o que eu acredito mais, considerando a sua atuação na roda da fortuna, lá no começo do livro, quando ele sabia exatamente em que números apostar, antes de sofrer o acidente. Indo mais para trás no tempo: ela já havia previsto o que aconteceria com Chuck, um dos garotos que estava com ele quando sofreu o acidente na infância.

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Ao longo do livro, Stillson faz pequenas aparições aqui e ali, sempre envolvido em alguma coisa sórdida ou atitude espúria. Em momento nenhum é revelada sua relevância de fato, até o ponto crucial, até o momento em que percebemos que o assassino Frank Dodd era só uma formiga no destino. Agora, perto do final de Zona Morta, Greg Stillson assume seu papel como uma espécie caricata de político cheio de chavões e atitudes populistas, incisivas, agressivas.

Interpretado por um Martin Sheen quase messiânico, Stillson parece um reverendo pregando – ou um desses pastores picaretas sempre mentindo em nome de Jesus para que você o coloque na Câmara dos Deputados, vote no candidato que favorece suas falcatruas ou mantenha uma força quase miliciana de seguidores cantando louvores e prontos para atacar quem não rezar por sua Bíblia.

Ele usa símbolos como ninguém para iludir os seguidores – como o capacete sempre na cabeça, um sinal de homem que trabalha. Usa as palavras chulas do povo e grita contra os políticos de sempre, contra a velha política! Fala em limpar o país da corja que tomou conta dos poderes constituídos e é cheio de esquemas corruptos e violentos por debaixo do pano – chantageando, espancando e matando quem fica em seu caminho.

As pessoas que o defendem parecem vidradas, hipnotizadas. Mesmo quando algumas delas são agredidas ou se ferem em seus comícios ou por seus capangas, as outras simplesmente ignoram.

Já viu isso em algum lugar?

Para essas pessoas, tudo o que existe é o... messias Greg Stillson – uma alegoria de filho do diabo do livro do Apocalipse que veio para destruir tudo, tendo milhares de seguidores e crescendo vertiginosamente até que...

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Até a cena em que Johnny é levado pela multidão a ficar frente a frente com Greg num de seus comícios. No livro ele vai até lá porque tem rondado os estados apertando a mão de políticos – ele parece curioso com as pessoas que dirigem as cidades, os estados, até o país. Greg Stillson é só mais um desses políticos. Mas na hora H ele tem medo – como se alguma coisa muito ruim emanasse de Stillson.

No filme, ele ainda é aquele paranormal reticente, mas vai até o comício porque Sarah está lá – na adaptação de David Cronenberg ela faz parte do grupo que não apenas apoia, mas trabalha pela eleição de Greg.

Nas duas versões, é neste ponto que percebemos que a noção de Johnny de que pode prever o futuro não é tão certa. Nem ele percebe, mas foi manipulado pelo destino (ou por Stephen King) todo aquele tempo. Porque a partir daqui só resta a ele uma escolha: ele está diante do homem que vai destruir o mundo!

O que você faria se pudesse voltar no tempo e pudesse assassinar Hitler antes de ele chegar ao poder na Alemanha? No livro esse é um fantasma de questionamento que Johnny passa a se fazer e a vários personagens, com respostas diferentes. No filme, ele retorna ao seu médico, o mesmo que cuidou dele durante o coma e durante sua recuperação. Mas a resposta do Dr. Sam Weizak é viciada, é cheia de parcialidade: Weizak era criança na Polônia quando os nazistas o separaram de sua mãe – que ele sempre achou que estivesse morta, mas que Johnny lhe havia revelado o paradeiro.

Pois Weizak sofreu todo o impacto, dor e horror do que Hitler impingiu à humanidade, aos judeus, aos povos dominados. Portanto, ele não pode dar outra resposta.

E a Zona Morta atinge seu clímax com o Johnny do livro sabendo que o tumor que carrega na cabeça eventualmente vai matá-lo. Não deve ter muito tempo de vida ou até de sanidade – as zonas mortas (que são pontos cegos em suas visões, partes delas que não consegue enxergar) estão aumentando, assim como suas dores de cabeça.

Em ambos os casos, filme e livro, ele então assume para si o destino da humanidade com a única resposta possível para aquele questionamento sobre matar Hitler caso conseguisse voltar no tempo.


E Stephen King entrega uma de suas histórias mais bem construídas e com um dos melhores finais que já escreveu.


Trágico, melancólico e doloroso, mas perfeito!


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